domingo, 24 de julho de 2011

Amor Impossível

Era uma sexta-feira do mês de agosto. A tarde estava escaldante, abafada. Pedro olhou o relógio: quase cinco horas; teria tempo de dar um mergulho e tomar um banho na praia da Conceição, em Cascais. O Sol despedia-se a caminho do horizonte. Pedro não tinha ninguém à espera para jantar. Meteu-se no carro e percorreu os poucos quilómetros que o separavam do escritório à praia. Despiu-se no carro e, em fato de banho, correu para o mar. Jantaria depois mesmo na esplanada da praia e iria tomar um banho a casa, arranjar-se e sair para mais uma noite de discoteca. Pensava ele.

O mar estava chão e a água tépida. Nadou, nadou pelo mar adentro sem se aperceber que a maré vazante o levava para longe da praia. Tarde de mais. Quis regressar mas o mar não o deixava. Era bom nadador, mas a corrente era mais forte. Lutou, tentou acalmar-se, olhou para terra que cada vez mais se afastava. Começou a temer não poder regressar. O pânico apoderou-se dele e desesperado bracejou com força até que se sentiu cansado. Inesperadamente, perto dele, uma garota morena de longos cabelos loiros sorriu-lhe. Era linda, de grandes olhos castanhos, não aparentando mais de dezoito anos. Que faria ela ali, tão longe da praia? Pensou Pedro. Tentou gritar e pedir auxílio, mas não conseguiu articular palavra.

A garota de longos cabelos loiros aproximou-se dele, segurou-lhe a cabeça e com uma calma impressionante segredou-lhe: «tem calma, não desesperes.

Pedro olhou-a fascinado, não só pela sua beleza como também pela voz harmoniosa com que proferiu tais palavras. Aquela voz tinha o dom de um calmante impressionante. Sentiu-se voar sobre a água. A praia ficava cada vez mais distante, mas a sensação de bem-estar, o conforto com que era transportado acalmaram-no sobremaneira.

«Que fazes aqui tão longe da praia?» Perguntou Pedro.
«Isso pergunto eu,» respondeu a garota e continuou. «Não devias ter nadado até tão longe, a maré está a baixar e é muito perigoso.»

Pedro concordou e nem se atreveu a questionar. A garota olhou-o com um sorriso perturbador e com a sua voz melodiosa disse-lhe: «vais respirar pela minha boca enquanto mergulhamos.» Pedro sentiu a boca da jovem colar-se à sua. Que agradável era aquele beijo. Mas... seria um beijo?

Com as bocas coladas, ambos mergulharam e Pedro teve a certeza que a velocidade do mergulho era vertiginosa. Não se importou e até lhe agradou aquela descida. Entraram numa abertura de uma rocha e, curiosamente, uma antecâmara se abriu para dar lugar a uma outra como se de um submarino se tratasse, onde os mergulhadores entram para depois saírem para o mar. Entraram numa sala enorme toda forrada a nácar, muito brilhante e escorregadia. A um canto, uma enxerga de limos. Deveria ter mais de dez metros de altura e uns cinquenta metros quadrados de área. Foi só nessa altura que a misteriosa e encantadora criatura descolou a sua boca da de Pedro. Ali respirava-se um ar puro e um agradável cheiro a maresia, a claridade parecia vir das paredes, do nácar.

«Deita-te um pouco Pedro, ali nos limos que estão secos. Deves estar cansado.» Disse a donzela. Pedro olhou-a. Era extremamente bela e o seu rosto era perfeito. Parecia uma musa. Estava desprovida de roupa da cintura para cima. O seu corpo esbelto denunciava perfeição. Reparou que, tinha qualquer coisa vestido da cintura para baixo, como se, de uma sereia se tratasse.

«Onde estamos?» Perguntou.
«É aqui que eu descanso muitas vezes.» Disse ela.
Pedro não tivera ainda a oportunidade de se apresentar e por isso admirou-se de ela saber o seu nome.
«Como sabes o meu nome?»
«Disseste-mo tu.»
«E tu, como te chamas? Quem és?»
«Agora descansa que depois falamos.»
A voz dela era de uma suavidade tão profunda, que Pedro nunca ouvira na vida e simultaneamente tão agradável e meiga que Pedro não resistiu em aproximar o seu rosto ao dela. Sem esperar, recebeu um beijo tão intenso, tão terno, tão apaixonado que quase enlouqueceu.
«Deita-te e dorme, Pedro. Temos muito tempo para falar.»
Aquela era uma ordem que, dito por ela, dava prazer cumprir. Assim o fez.

Um som divinal fez despertar Pedro. Olhou o seu relógio de mergulho, eram seis da manhã. Com o olhar percorreu a sala que, embora nua de mobiliário, era muito atrativa. Aquela luz indireta era acolhedora e repousante. O cheiro a maresia permanecia no ar. Estava deitado sobre uns limos, em fato de banho, mas não tinha frio nem calor. Tinha dormido umas doze horas. Não sabia onde estava nem quem o tinha socorrido. Onde estaria ela? Quem seria aquela Vénus? E de onde vem esta som divinal? Estarei no céu? Pedro desejou ardentemente voltar a ver aquela personagem. Queria olhá-la, escutá-la. Aquele beijo que recebera jamais esqueceria; conhecia muitas mulheres, beijou dezenas, mas esta…

Procurou uma porta, uma janela, mas nada. A um canto deparou com uma espécie de mesa, uma pedra forrada a algas; sobre ela umas grandes conchas cheias de camarões, lagostins, navalheiras, etc. Comeu até se saciar. Teria sido ela que lhe proporcionara tal refeição? Pedro continuava a ouvir aquele som celestial de uma voz ímpar. Observou tudo em redor. Parecia dentro de uma concha gigantesca, mas, apesar de tudo, repousante. Ele próprio admirou-se de estar em tal lugar, fechado, sem janelas nem portas e, mesmo assim não tinha medo.

O som da voz divina era cada vez mais audível até que, finalmente, Pedro descobriu a sua procedência. A “Vénus” entrava na caverna a cantar uma melodia desconhecida, mas sedutora.
«Olá Pedro! Pelo que me apercebo já almoçaste. Estás bem?»
«Olá beleza. Foste tu que me trouxeste estas iguarias?»
«Sim, gostaste? Aqui não há mais nada, apenas frutos do mar. Calculei que gostasses.»
«Como te chamas? Continuas com essa... saia?» Perguntou Pedro.
«Chama-me sereia e isto não é uma saia. É o meu corpo.»
«Não brinques.»
«É verdade, apalpa-me.»
Com as mãos e os olhos, Pedro percorreu o seu corpo. Era macio, aveludado. Em lugar das pernas tinha um rabo de peixe, igualmente macio e sedoso. A sua cintura muito fina foi enlaçada pelo braço de Pedro. E a sereia abraçou-o e beijou-o longamente mais uma vez. Pedro delirou e desejou que aquele beijo fosse eterno.
«Não acredito que existam sereias.»
«Então o que sou eu, Pedro?»
«Não sei.»
«Nunca ouviste falar das tágides, quando vivíamos no Tejo e muito faladas nos Lusíadas, de Camões? Nós somos uma espécie em vias de extinção. Em cada cem sereias apenas uma é macho. Vivemos no Atlântico e os meus antepassados contavam histórias sobre os vossos navegadores que se apaixonavam por nós. Mas não importa. Vivamos estes momentos enquanto pudermos. Sabes? Gosto muito de ti. Há mais de um ano que reparo em ti, mas tu nunca me olhaste.»
«O quê?»
«É verdade. Tu já vens a esta praia há longo tempo. De longe observo-te. Nunca vens acompanhado, por isso penso que sejas solteiro.»
«Sim, sou solteiro, tenho trinta e dois anos. Mas, fala-me de ti, como vives, tudo, quero saber tudo a teu respeito.»

Pedro sentou-se no chão com os olhos postados no rosto da sereia. Ela deitou-se de barriga para baixo, o queixo apoiado nas mãos e o seu rosto, sempre sorridente, olhava Pedro com um ar apaixonado. Com a sua voz melodiosa começou:
«Nós, as sereias, somos descendentes dos delfins, golfinhos e respiramos como eles, por pulmões. Necessitamos de oxigénio para sobreviver. Vimos amiudadas vezes à tona da água para nos abastecermos de oxigénio. Aparecemos no mundo muito tempo antes de vocês, humanos. Ao contrário dos golfinhos, vivemos muitos mais anos do que os da vossa espécie. A minha bisavó, com quem contacto por telepatia, tem atualmente 196 anos. Possuímos, para além dos vossos cinco sentidos, a telepatia. O nosso sentido da visão, tal como o da audição, são muito superiores aos vossos. Conseguimos ver ou ouvir a mais de 500 metros de distância…»
«Mas…» interrompeu Pedro «no meio duma multidão de milhares de pessoas, como consegues ouvir uma só?»
«Tal como tu, no meio duma multidão, consegues ver determinada pessoa, nós, ao olharmos para essa pessoa, ouvimo-la, todos os outros sons ficam para segundo plano.»
«Desculpa a interrupção, amor. Continua.»
«Não me chames amor ou ficarás aqui comigo para sempre.»
«Não me importo, querida.»
«Pedro… querido… não dificultes as coisas. Tu não podes ficar aqui eternamente, tens a tua vida lá em cima…»
«Sou feliz aqui. Amo-te. Que mais posso desejar? Não me trouxeste? Agora tens de tomar conta de mim.»
«Meu príncipe… Sou uma jovem. Só serei adulta por volta dos 40, após ser fecundada pela sereia macho, mas até lá tento viver a vida. Apaixonei-me por ti, mas o nosso amor e efémero.»
«Não digas isso. Amo-te e não te deixarei tão depressa.»
«Pedro! Queres ouvir o resto ou vamos continuar a falar de amor?»
«Está bem, acaba. Depois vou amar-te o resto do dia.»
«Como estava dizendo, para além dos vossos cinco sentidos, o da telepatia é o mais importante. Leio o vosso pensamento e, se eu quiser, lerão também o meu. Há mais de três anos que me misturo com as gentes desta praia. Oiço-as e convivo com elas, mas de longe. Evito aproximar-me demasiado com medo que me reconheçam como sereia. Deves calcular o que seria de mim se me apanhassem. Destino: o cativeiro num oceanário.»
«Mas, como sabes falar a nossa língua?»
«Conheço todas as línguas por onde passo. Basta ouvir uma e pela telepatia interpreto tudo.»

Durante longos minutos olharam-se e tocaram-se. Assim ficaram longas horas até que ela se apercebeu que Pedro tinha fome.
«Amor! Vou buscar-te comida, volto já.»

Pedro, nos poucos minutos que permaneceu só, conjeturou o seu futuro esquecendo-se de que a sereia lhe lia os pensamentos.
«Olá meu príncipe. Trouxe-te alguma comida.» Disse a sereia ao entrar na sala.
«Amor! Estive a pensar, podias ir um tempo para minha casa. Levas-me até à praia, eu vou ao carro, trago uma toalha e envolvo-a no teu corpo. Levo-te ao colo e ficas lá até quando quiseres. Poderei levar-te a passear numa cadeira de rodas. Voltarás para o mar quando entenderes.»
«Está bem. Concordo. Vamos na segunda-feira de madrugada.»
Pedro achou por bem aquela sugestão. Teriam um fim de semana para se amarem sem preocupações. Depois, o tempo diria,

«Pedro! Acorda. São quatro horas.» Disse a sereia. Pedro levantou-se. A sereia abraçou-o e disse-lhe: «vamos, respira pela minha boca e partamos.»

Em breves minutos chegaram à praia. Era noite ainda. Pedro correu para o carro enquanto a sereia o olhava e sem que Pedro se apercebesse chorou. Quando Pedro regressou com a toalha não mais viu a sereia.

Pedro ficou horas ali prostrado, chorou também até que se apercebeu que a sereia lhe transmitia um adeus com muito amor, mas um amor impossível.

Esta história passou-se há cerca de 10 anos, mas ainda hoje poderão ver muitas vezes o Pedro no final de tarde sentado na praia a olhar o mar.

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