sábado, 25 de junho de 2011

Visita Inesperada

Nada fazia prever o temporal que iria apanhar na sua deslocação ao Alentejo. Eduardo Rodrigues tinha planeado passar o fim de semana em casa dos seu avós, já falecidos, num monte alentejano. Saíra de Lisboa com um tempo de chuva, mas nada comparado à torrencial chuva que, pelo caminho, apanharia à saída de Grândola. O vento e trovoada eram tal que quase desistira da viagem, pensando mesmo em voltar para trás. Estava próximo do destino. Seria um erro naquela altura retroceder. Os relâmpagos eram ininterruptos e única iluminação naquela estrada da serra do Caldeirão. Não se via um palmo à frente, tanta era a água que do céu jorrava. Chegou a temer a viagem naquela escuridão.

Duas horas depois, com a tempestade que teimava prolongar-se pela noite dentro, chegou a casa. Do carro à sua porta teria de percorrer uns 50 metros pelo caminho de cabras. Ainda aguardou uns 20 minutos dentro do carro, mas não valeria a pena. Abrir o guarda-chuva seria um contrassenso. O vento tê-lo-ia inutilizado. Correu para casa debaixo da chuva tocada a vento, abriu a porta e entrou. Estava encharcado até aos ossos. Despiu-se à entrada deixando a roupa sobre uma cadeira. Um lago circundou o espaço onde se despira. Todo nu, correu a limpar-se e vestir um roupão. A casa estava fria e desconfortável. Acendeu a lareira e uma hora depois, com a casa mais confortável, procurou um livro e serviu-se de um conhaque.

No momento em que se dirigia para o cadeirão junto à lareira, com o copo numa mão e o livro na outra, um ruído à porta da entrada fê-lo voltar-se e pôr-se à escuta. Não restavam dúvidas. Havia alguém do lado de fora a querer entrar. Resoluto abriu a porta. Um olhar meigo com um misto de receio fixou-se nele. «Queres entrar?» Perguntou Eduardo fazendo um gesto de convite. «Depressa para fechar a porta.» Concluiu.

Estava num pingo que metia dó. A medo entrou e correu para a lareira. Eduardo foi à casa de banho e trouxe uma toalha; limpou-a e ela aninhou-se no chão tão próximo da lareira que Eduardo receou que se queimasse. Foi ao quarto e muniu-se de uma almofada e um cobertor. Aconchegou-a e tapou-a.

Sentou-se no cadeirão diante dela e da lareira. Olhou-a e teve pena dela. Era bonita e o seu olhar mostrava gratidão. «Queres comer?» Perguntou e sem esperar resposta foi à cozinha arranjar alguma coisa para lhe dar. Comeu tudo e adormeceu.

Era quase meia-noite. Não tirava os olhas dela. Pesou: «já não sais daqui. Quando me for embora levo-te comigo para Lisboa

O telefone tocou. «Olá Eduardo» (era Adriana, sua namorada, enfermeira em Faro) «dentro de uma hora estou aí»
«Está um temporal horrível» disse Eduardo e continuou «não venhas com este tempo. Vêm amanhã.»
«Nem penses, tenho muitas saudades tuas, nem que chovam picaretas não vou perder este fim de semana junto do meu amor
«Mas, querida…»
«Já te disse» interrompeu Adriana «estou a caminho e dentro de momentos estou nos teus braços. Quero beijar-te muito. Há 15 dias que aguardo por este dia
«Mas…» tentou Eduardo.
«Até já. Muitos beijinhos.» E desligou o telefone.

Ela continuava a dormir junto à lareira. Eduardo acariciou-a e verificou que já não tremia de frio. Dormia profundamente.

Uma hora da manhã. Ouviu o motor de um carro que acabava de chegar. Correu à porta. O temporal continuava. Em roupão e com um cobertor pela cabeça percorreu em corrida o espaço que o separava da porta ao automóvel. Os dois, como que empurrados pelo vento, voaram para casa.

«Vai mudar de roupa enquanto te preparo qualquer coisa para comer.» Disse Eduardo à sua namorada.
«Primeiro quero um grande beijo. Depois quero outro. E a seguir vou mudar-me.»

Enquanto Adriana tomava banho, Eduardo preparou uns ovos mexidos e umas couves salteadas. Sentou-se no cadeirão e aguardou a chegada da sua amada. Enroscada junto à lareira, ela continuava a dormir.

«Que preparou o meu amor para a ceia?» Perguntou Adriana enquanto descia a escada.
«Uns ovos e couves, mas não são só para ti. Eu também como.»
«Olha que venho cheia de fome, não só de comida como também… que é aquilo?» Disse espantada Adriana apontando para o vulto iluminado pelas labaredas da lareira.
«Não sei. Apareceu-me aqui há cerca de uma hora. Vinha esfomeada e tremia de frio. Estava num pinto, encharcada. Mandei-a entrar e a medo lá se foi aconchegar junto à lareira.»

Adriana aproximou-se dela e toucou-lhe na cabeça, fazendo-lhe uma festa. Como retribuição, a cadela lambeu-lhe as mãos.


























segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Olhar Penetrante do Papagaio

Na antiga A1 a caminho de Leiria, Júlio Salomão conduzia o seu velho Fiat. Destino: casa do seu antigo companheiro de armas, igualmente reformado. Havia algum tempo que se não visitavam e recordavam as aventuras e desventuras da guerra em Angola.
 
«Olá meu velho amigo, há quase um ano que não falávamos pessoalmente.» Disse Gustavo da Fonseca, ao abrir a porta a Júlio Salomão.
Júlio, um veterano de guerra, sofria, como grande parte destes combatentes, de perturbações psíquicas, embora não graves.
«Com as novas tecnologias as pessoas comunicam via Internet e muitas vezes esquecem o contacto pessoal.» Afirmou Júlio.
«É uma das desvantagens da evolução. Tomas alguma coisa?»
«Apenas um chá.»
«Açúcar ou adoçante?»
«Adoçante.»
«Leite?»
«Não. Água»
«Para onde estás sempre a olhar?»
«É para o teu papagaio.»
«Que tem de especial?»
«É lindo. Aquele olhar…»
Júlio, na posição onde estava, obrigava-o a olhar para o lado, onde um papagaio, num poleiro de ramo de árvore natural, o olhava fixamente.
«Júlio! Pareces hipnotizado, homem.»
«Que cores, mas principalmente aquele olhar penetrante do bicho…»
«Gostas do papagaio? Leva-o»
«O quê?»
«Ofereço-to.»
«Oh, não.»
«Leva-o, Júlio. De onde esse veio, há lá mais.»
«Mas…»
«Queres levá-lo ou não.»
«Obrigado. Não calculas como fico feliz.»

Pelo caminho de regresso Júlio não parava de olhar pelo retrovisor o seu papagaio.
«Olá, olá» dizia Júlio ao mesmo tempo que, com as duas mãos no volante, levantava os cotovelos como se batesse asas. Não parava de dizer olá, olá e olhar para o retrovisor. Numa dessas ocasiões, um camião em sentido contrário, buzina estrondosamente. Júlio, distraído, circulava na faixa da esquerda e tentando corrigir a trajetória despenha-se numa pequena ravina indo de encontro a uma árvore de grande porte.

Júlio acorda e olha em seu redor. Encontra-se no hospital. Chama a enfermeira.
«Que me aconteceu? Por que estou aqui.» Pergunta espantado.
«Sofreu um acidente de automóvel, não se lembra?»
«Um acidente? Como»
A enfermeira pede a Júlio que aguarde um momento enquanto vai chamar o médico.
«Bom dia senhor Júlio. Sou o médico que o tem assistido há oito dias.»
«Como! Há oito dias?» Admira-se Júlio
«Sim, o senhor sofreu um acidente de viação há oito dias e tem estado inconsciente, até agora.»
«Como é possível? Que desastre? Não tenho ideia de nada.»
«Sabe como se chama? Onde mora?» Pergunta o médico, depois de lhe examinar os olhos.
«Sim, sim, perfeitamente, mas do desastre não faço a mínima ideia de que se trata.»
«Senhor Júlio, o senhor perto de Torres Vedras, vindo do norte, sofreu um acidente de automóvel, mas apenas teve ligeiras escoriações. Esteve em coma durante oito dias. Provavelmente terá alta ainda hoje. Quer que telefone a alguém para o vir buscar?»
«Não, não obrigado. Não tenho família. Eu sei onde moro.»
«O seu carro ficou espatifado, capotou e o reboque colocou-o nas traseiras da sua casa. O seu telemóvel ficou destruído, por isso não pudemos telefonar a ninguém.»

Júlio sai do hospital, apanha um táxi e dirige-se para sua casa. Pelo caminho matuta no desastre. Que raio de acidente é que eu tive? Pensou. Porquê em Torres? Donde viria eu?

Chegado a casa mirou-se ao espelho. Não lhe doía nada, apenas um penso na testa e um pequeno arranhão na face demonstrava ter acontecido qualquer coisa. Sentia uma ligeira dor quando tocava na testa. Provavelmente tinha sido a causa do desmaio por oito dias. Não conseguia lembrar-se de nada. Resolveu dar uma espiada ao seu automóvel. Olhou-o e pensou: «Este é o meu carro? Que horror, como foi possível? Nem na sucata o vão querer?»

Júlio não consegue recordar-se de nada. Aquele desastre era-lhe muito estranho. Sai à rua e compra um jornal. Regressa, senta-se, lê os cabeçalhos. Oito dias sem notícias, mas nada de estranho se passara durante esse tempo. De repente lembra-se do computador. Procura o seu correio eletrónico. E-mails vários por ler, Faturas, extratos bancários, piadas de mau gosto, muito lixo e uns quantos do seu amigo Gustavo da Fonseca. Leu-os e num deles a pergunta o que era feito dele, que já lhe tinha telefonado para casa, para o telemóvel e nada sabia dele. Pedia respostas aos seus e-mails mas continuava sem saber o que se passava. Num outro e-mail a pergunta sobre o papagaio.

Saltou da cadeira. Deu uma palmada na testa que lhe provocou uma dor imensa. Desceu as escadas a correr. O seu papagaio. Tudo lhe veio à memória instantaneamente. A brincadeira com o “olá, olá”, com o “bater de asas” como se quisesse voar. O camião direito a ele. O desvio e a queda na ravina.

Com um esforço tremendo conseguiu abrir a porta do carro. Olhou em volta. Poeira, terra, estilhaços de vidro, banco traseiro atirado para a frente, mas e o papagaio? Rebuscou o lado de trás do carro, olhou no lugar onde outrora estivera o banco. Remexeu papelada, peças que nem sabia se pertenciam ao carro. Chorou. O seu papagaio? Continuou a procurar. Meteu-se dentro do carro atirou bocados de metal e papelada para a frente e, eis que o seu papagaio estava a atirado para um canto. Agarrou-o e olhou-o. Estava intacto. O seu papagaio de porcelana não se tinha quebrado.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Contar com o Ovo...

Pelo caminho sinuoso que distava da casa de Agustina da Conceição, anciã de 80 anos, e a margem do rio Lima, numa estrada poeirenta mas de uma vegetação e um arvoredo que só no norte se vislumbra, seguia a passo firme e ligeiro Agustina. Vivia numa aldeia do município de Ponta da Barca, a cerca de um quilómetro da margem do rio. A sua herdade prolongava-se até lá e, todas as tardes, depois de uma sesta, Agustina caminhava pelo carreiro que a levava até à margem e aí passava um bom bocado a ver o pôr do sol. Viúva, mãe de três filhos já casados e com três lindos netos a quem dava o maior carinho, tinha como companhia a sua empregada com quem vivia há longos anos e um vizinho, homem na casa dos quarenta, dono da herdade geminada com a sua, o ‘ti Fernando’.

«Mamã, porque não vens viver connosco? Tens três casas em Ponte da Barca: a minha e as dos manos. Ficavas mais acompanhada, mais próximo de nós.» Dizia Daniel, o filho mais velho, numa tarde em visitara a mãe.

«É verdade mãe, pode lá ficar o tempo que quiser e vir a sua casa de vez em quando.» Adiantou Luísa, mulher do Daniel.
«Oh meus filhos! Eu gosto estar de aqui, na minha casa, com a Maria do Rosário. Aqui não me falta nada, vou até ao rio, volto quando me apetece, a Maria do Rosário tem o jantar pronto quando chego…»
«Mas mãe. Lá em casa tem tudo o que quiser, até pode levar a Maria do Rosário consigo. Se eu fosse a si, vendia a herdade e ia viver para a vila. Fazia-me companhia quando o Daniel estivesse de noite no hospital.» Interrompeu a Luísa. (Daniel era médico no hospital).

Esta conversa era assiduamente comentada quer por Daniel, quer pelos outros dois filhos, mas principalmente pelas noras sempre que visitavam a sogra.

Daniel não tinha filhos. José, o filho do meio, tinha dois filhos em idade escolar. Gustavo apenas tinha um. Todos viviam desafogadamente. As noras, Luísa, Isabel e Gracinda, reuniam-se amiudadas vezes em conversas sobre a teimosia da sogra que persistia em não vender a herdade. O ‘ti Fernando’ tinha-lhe oferecido um milhão de euros, importância ligeiramente superior ao avaliado. O ‘ti Fernando’ pretendia a herdade da Agustina para aumentar a sua cultura de vinhas do afamado vinho verde.

«Aquela velha nem morre nem vende a herdade,» dizia numa tarde a Luísa em casa da cunhada Isabel.
«Está rija como um pêro. Não vamos ver a herança da herdade tão depressa.» Comentou Isabel.
«Não a compreendo, não liga nenhuma à herdade…» e prosseguiu «…melhor seria que a vendesse, a receita da herdade daria cerca de trezentos e trinta mil euros a cada uma, para além dos cem mil euros que tem no banco, a prazo e à ordem.» Concluiu Luísa.
«A Gracinda… não a compreendo, não formula opinião sobre este assunto. Evito sempre falar no caso ao pé dela.» Disse Isabel

Estas conversas tinham lugar sempre longe dos maridos, que, por pudor e respeito pela mãe, não eram permitidas.

Seriam cerca das nove da noite. Maria do Rosário, em casa de Agustina, aguardava a chegada da patroa para o jantar. Começou a preocupar-se: por que não chegava? Ter-lhe-ia acontecido alguma coisa? Resolveu pôr-se a caminho do rio. Encontrou-a caída, inanimada.

No hospital, dr. Daniel da Conceição, filho de Agustina, prognosticou-lhe um (AVC) acidente vascular cerebral. Chegara tarde de mais. Nada havia a fazer.

Na igreja de Vila Nova de Muía, concelho de Ponte da Barca, todos os habitantes compareceram para o velório de Agustina. Presentes encontrava-se igualmente os filhos e noras da falecida. Maria do Rosário chorava em pranto junto ao féretro daquela que fora sua patroa e amiga nos últimos 40 anos. Luísa, Isabel e Gracinda, separaram-se um pouco de todos para conferenciar.
«Enfim, chegou a sua hora, tão alegre, saudável e cheia de vida, deixou-nos com apenas 82 anos. Nada fazia prever esta adversidade.» Choramingou Gracinda.
«É o destino, minha amiga.»
«Um destino amargo, nada fazia prever tão infeliz desfecho.»
Luísa separou-se um pouco de Gracinda e segredou a Isabel: «já era tempo… recordas-te daquela moradia no alto da colina? Está para venda. Já sondei o preço e não vai além dos duzentos mil euros. O Daniel também gosta dela.»
«É uma pechincha. Vale bem o dinheiro. Eu não penso mudar, a minha casa é tão grande…» e continuou, «gostava de ir a Paris, não tenho nada para vestir e em Lisboa não encontrei nada de jeito.»
Juntando-se novamente à cunhada choramingaram lágrimas de crocodilo.

No escritório do notário estavam presentes os filhos, noras, a empregada Maria do Rosário e o ‘ti Fernando’, únicos arrolados para assistir à leitura do testamento de Agustina.
«Este é o único testamento registado que existe. A D. Agustina deixou aqui expresso o seu desejo há cerca de 5 anos e não voltou a alterá-lo. Assim, como era seu desejo, pediu para que todos vós estivésseis presentes à sua leitura.» Informou o advogado da família.
«Como é do vosso conhecimento o senhor Fernando sempre se interessou pela herdade da vossa mãe e pela qual atribuiu um valor razoável. É seu desejo que lhe seja vendido pelo valor de um milhão de euros. Este valor será dividido em três partes iguais.» Luísa e Isabel expressaram um sorriso demasiadamente notório e o advogado prosseguiu. «O dinheiro existente no banco, tanto o que está a prazo como à ordem, ronda os 100 mil euros. Já há bastante tempo que estava em nome da vossa mãe e da Maria do Rosário. Esse dinheiro, conforme seu desejo, fica para a Maria do Rosário.»
«Velha bruxa» saiu uma voz surda da boca da Luísa. E, não se contendo: «para que quer ela tanto dinheiro?»
«Contenha os comentários» vociferou o advogado.
«Como estava dizendo, o valor da venda da herdade, dividido em três partes iguais, será depositado no banco em nome dos vossos três filhos. Estes só serão herdeiros após a maior idade e depois de concluírem um curso superior…»
«Grande vaca» grita Luísa sem se importar com os filhos da falecida presentes. «Eu que não tenho filhos…»
«Cale-se ou ponho-a na rua. Daniel contenha a sua mulher.» Gritou o advogado e continuou. «No caso de algum dos vossos filhos, por quaisquer razões, não terminar o curso, 50% do valor da herança reverterá para uma instituição sem fins lucrativos. É tudo».