quarta-feira, 8 de junho de 2011

Contar com o Ovo...

Pelo caminho sinuoso que distava da casa de Agustina da Conceição, anciã de 80 anos, e a margem do rio Lima, numa estrada poeirenta mas de uma vegetação e um arvoredo que só no norte se vislumbra, seguia a passo firme e ligeiro Agustina. Vivia numa aldeia do município de Ponta da Barca, a cerca de um quilómetro da margem do rio. A sua herdade prolongava-se até lá e, todas as tardes, depois de uma sesta, Agustina caminhava pelo carreiro que a levava até à margem e aí passava um bom bocado a ver o pôr do sol. Viúva, mãe de três filhos já casados e com três lindos netos a quem dava o maior carinho, tinha como companhia a sua empregada com quem vivia há longos anos e um vizinho, homem na casa dos quarenta, dono da herdade geminada com a sua, o ‘ti Fernando’.

«Mamã, porque não vens viver connosco? Tens três casas em Ponte da Barca: a minha e as dos manos. Ficavas mais acompanhada, mais próximo de nós.» Dizia Daniel, o filho mais velho, numa tarde em visitara a mãe.

«É verdade mãe, pode lá ficar o tempo que quiser e vir a sua casa de vez em quando.» Adiantou Luísa, mulher do Daniel.
«Oh meus filhos! Eu gosto estar de aqui, na minha casa, com a Maria do Rosário. Aqui não me falta nada, vou até ao rio, volto quando me apetece, a Maria do Rosário tem o jantar pronto quando chego…»
«Mas mãe. Lá em casa tem tudo o que quiser, até pode levar a Maria do Rosário consigo. Se eu fosse a si, vendia a herdade e ia viver para a vila. Fazia-me companhia quando o Daniel estivesse de noite no hospital.» Interrompeu a Luísa. (Daniel era médico no hospital).

Esta conversa era assiduamente comentada quer por Daniel, quer pelos outros dois filhos, mas principalmente pelas noras sempre que visitavam a sogra.

Daniel não tinha filhos. José, o filho do meio, tinha dois filhos em idade escolar. Gustavo apenas tinha um. Todos viviam desafogadamente. As noras, Luísa, Isabel e Gracinda, reuniam-se amiudadas vezes em conversas sobre a teimosia da sogra que persistia em não vender a herdade. O ‘ti Fernando’ tinha-lhe oferecido um milhão de euros, importância ligeiramente superior ao avaliado. O ‘ti Fernando’ pretendia a herdade da Agustina para aumentar a sua cultura de vinhas do afamado vinho verde.

«Aquela velha nem morre nem vende a herdade,» dizia numa tarde a Luísa em casa da cunhada Isabel.
«Está rija como um pêro. Não vamos ver a herança da herdade tão depressa.» Comentou Isabel.
«Não a compreendo, não liga nenhuma à herdade…» e prosseguiu «…melhor seria que a vendesse, a receita da herdade daria cerca de trezentos e trinta mil euros a cada uma, para além dos cem mil euros que tem no banco, a prazo e à ordem.» Concluiu Luísa.
«A Gracinda… não a compreendo, não formula opinião sobre este assunto. Evito sempre falar no caso ao pé dela.» Disse Isabel

Estas conversas tinham lugar sempre longe dos maridos, que, por pudor e respeito pela mãe, não eram permitidas.

Seriam cerca das nove da noite. Maria do Rosário, em casa de Agustina, aguardava a chegada da patroa para o jantar. Começou a preocupar-se: por que não chegava? Ter-lhe-ia acontecido alguma coisa? Resolveu pôr-se a caminho do rio. Encontrou-a caída, inanimada.

No hospital, dr. Daniel da Conceição, filho de Agustina, prognosticou-lhe um (AVC) acidente vascular cerebral. Chegara tarde de mais. Nada havia a fazer.

Na igreja de Vila Nova de Muía, concelho de Ponte da Barca, todos os habitantes compareceram para o velório de Agustina. Presentes encontrava-se igualmente os filhos e noras da falecida. Maria do Rosário chorava em pranto junto ao féretro daquela que fora sua patroa e amiga nos últimos 40 anos. Luísa, Isabel e Gracinda, separaram-se um pouco de todos para conferenciar.
«Enfim, chegou a sua hora, tão alegre, saudável e cheia de vida, deixou-nos com apenas 82 anos. Nada fazia prever esta adversidade.» Choramingou Gracinda.
«É o destino, minha amiga.»
«Um destino amargo, nada fazia prever tão infeliz desfecho.»
Luísa separou-se um pouco de Gracinda e segredou a Isabel: «já era tempo… recordas-te daquela moradia no alto da colina? Está para venda. Já sondei o preço e não vai além dos duzentos mil euros. O Daniel também gosta dela.»
«É uma pechincha. Vale bem o dinheiro. Eu não penso mudar, a minha casa é tão grande…» e continuou, «gostava de ir a Paris, não tenho nada para vestir e em Lisboa não encontrei nada de jeito.»
Juntando-se novamente à cunhada choramingaram lágrimas de crocodilo.

No escritório do notário estavam presentes os filhos, noras, a empregada Maria do Rosário e o ‘ti Fernando’, únicos arrolados para assistir à leitura do testamento de Agustina.
«Este é o único testamento registado que existe. A D. Agustina deixou aqui expresso o seu desejo há cerca de 5 anos e não voltou a alterá-lo. Assim, como era seu desejo, pediu para que todos vós estivésseis presentes à sua leitura.» Informou o advogado da família.
«Como é do vosso conhecimento o senhor Fernando sempre se interessou pela herdade da vossa mãe e pela qual atribuiu um valor razoável. É seu desejo que lhe seja vendido pelo valor de um milhão de euros. Este valor será dividido em três partes iguais.» Luísa e Isabel expressaram um sorriso demasiadamente notório e o advogado prosseguiu. «O dinheiro existente no banco, tanto o que está a prazo como à ordem, ronda os 100 mil euros. Já há bastante tempo que estava em nome da vossa mãe e da Maria do Rosário. Esse dinheiro, conforme seu desejo, fica para a Maria do Rosário.»
«Velha bruxa» saiu uma voz surda da boca da Luísa. E, não se contendo: «para que quer ela tanto dinheiro?»
«Contenha os comentários» vociferou o advogado.
«Como estava dizendo, o valor da venda da herdade, dividido em três partes iguais, será depositado no banco em nome dos vossos três filhos. Estes só serão herdeiros após a maior idade e depois de concluírem um curso superior…»
«Grande vaca» grita Luísa sem se importar com os filhos da falecida presentes. «Eu que não tenho filhos…»
«Cale-se ou ponho-a na rua. Daniel contenha a sua mulher.» Gritou o advogado e continuou. «No caso de algum dos vossos filhos, por quaisquer razões, não terminar o curso, 50% do valor da herança reverterá para uma instituição sem fins lucrativos. É tudo».

Sem comentários:

Enviar um comentário