Prefácio
Algumas das minhas
mensagens são dedicadas
a familiares, amigos
ou conhecidos, mas
de forma a que não
sejam entendidas
por terceiros. Esta é
dedicada a um casal
amigo de longa data
que me confiou os seus segredos. Como é óbvio, alterei os nomes dos
protagonistas
bem como alguns
pormenores. Hoje ainda vivem
com o mesmo amor com
que se conheceram.
Pedi-lhe autorização
para esta publicação
que agradeço e
desejo-lhes muitos
anos de vida com a
mesma paixão.
César Alves, homem de meia-idade, é
um cavalheiro afável, romântico, aberto e diz o que pensa, mas pensando no que
diz. É alegre contagiando os que o rodeiam. Gosta de cativar amizades.
É diretor de uma microempresa de ar
condicionado. Raramente sai em serviço externo, salvo raras exceções e
trabalhava como qualquer funcionário. Não tem preconceitos e fá-lo com prazer.
Certa tarde, falando com
fornecedores através de SMS, repara num pedido de amizade de senhora de nome
Érica. Não se lembrava de quem fosse. Investigou o currículo, mas pouco adiantou.
Não tinha ideia de daquela pessoa. Nada custava aceitá-la na sua vasta lista de
amizades.
Decorreram dois dias e recebe uma nova
mensagem:
«Olá senhor César, não se recorda de
mim? Sou a Érica. O senhor era meu fornecedor aqui na zona do Campo Pequeno.»
«Peço-lhe imensa desculpa. Sou muito
despistado e de momento não estou a ver quem seja.» Responde César.
«Vou dar-lhe uma dica: recorda-se de
uma vez apanhar uma multa por mau estacionamento enquanto reparava o meu ar
condicionado?»
«Não me ajudou muito. Apanhei várias
multas por esse motivo.» Retorque César que, sem desligar, abre a página de
Érica e olha as poucas fotos publicadas. Aqueles olhos diziam-lhe algo, mas
olhos de quem? Repentinamente veio-lhe à memória. Era a Kika que conhecera uns
anos antes. A mulher que o enfeitiçara com o olhar. A vida deu tantas voltas
que deixou de ter o seu contacto.
«És a Kika, agora me lembro, estive
a rever as tuas fotos e finalmente reconheci-te.»
«Sim, sou a Kika. Não me importo que
me trate por tu. Posso tratá-lo também por tu uma vez que somos amigos?»
Pergunta Érica.
«Podes e deves. Há quantos anos, meu
Deus, que nada sei de ti. Que fazes? Ainda moras em Campolide?»
«Trabalho no escritório de meu pai,
aqui em V. F. de Xira perto da casa onde moro atualmente.»
Após mais umas frases de conversa,
César recordou o dia em que conhecera Érica.
«Bom dia. Foi-me instalado um ar
condicionado recentemente, mas há um problema no aparelho porque não arrefece e
com este calor não consigo estar em casa. Por favor, tenha pena de mim,
sinto-me no inferno.» Informou a cliente com uma voz amável e cheia de ternura.
Aquela voz lembrava um anjo a
suplicar ajuda. César não tinha nenhum colaborador disponível e prontificou-se
ele mesmo a acudir aquele chamamento.
«Bom dia. É a dona Érica?» Indagou
César ao chegar aquela cliente.
«Sim. Que simpatia a vossa, virem
tão prontamente.» Elogiou Érica.
«Somos assim, quando nos pedem com
tanta amabilidade.»
A empatia gerada entre ambos foi de
tal forma, que César prometeu telefonar dias depois para saber da sua
satisfação no arranjo do aparelho.
«Que tal o ar condicionado, D. Érica?»
Perguntou pelo telefone César.
«Está a funcionar perfeitamente.
Senhor César.
«Que pena…» Lamentou César.
«Que pena? Pena porquê?» Admira-se Érica.
«Gostava de aí voltar para lhe dar
mais uns toques.»
«Obrigado, mas está a trabalhar
perfeitamente. Não creio que seja necessário.»
«Bom… se tiver algum problema por
favor telefone-me, de imediato aí irei.»
«Obrigada. Assim farei.»
Uma semana depois César insiste
telefonicamente para uma limpeza pormenorizada ao aparelho.
«Senhor César, acha mesmo
necessário?»
«Bem, necessário não é, mas…» Érica,
com a sua habitual voz melodiosa, interrompe e diz «diga, diga que não é o ar
condicionado que o preocupa.»
«Não, na realidade não é. A verdade
é que estou aqui próximo de sua casa. Lembrei-me que poderia apetecer-lhe um
café e queria convidá-la a tomá-lo comigo.»
«Como adivinhou? Por acaso ia agora
sair para tomar um café.»
Foi desta forma que César e Érica
começaram a encontrar-se nascendo daí um grande amor. Cerca de um ano durou
aquela paixão, mas os problemas familiares de ambas as partes obrigaram a um
fim inesperado. Ela, por causa do pai exigente e prepotente. Ele, um mulherengo incorrigível.
«Conta-me tudo Kika. Que fazes aí
tão longe?»
«O meu pai tem um escritório de
representações, mas sofreu um acidente vascular cerebral, há uns anos. Fiquei à
testa do negócio. Tive de reduzir o pessoal e agora é uma pequena empresa.
Tem-me dado muito trabalho conservá-la. Felizmente o AVC só o privou
fisicamente. Anda numa cadeira de rodas.»
«Casaste?
«Nâo.»
«Porquê?»
«Não me apareceu outro César…»
«Gostava de te ver, pormos as nossas
conversas em dia.»
«Também gostava. Vamos tomar um
café, um destes dias.»
«Amanhã?»
«César, então? Não pode ser assim,
tens de esperar. O meu pai não aguenta ficar sozinho. Tornou-te obsessivo.
Terei de preparar uma ida a Lisboa.»
«Esperarei, mas vem depressa. Há
anos que não te vejo… e as saudades começam.»
«Tontinho meu querido. Só te peço
que não me pressiones. Tenho de preparar as coisas com calma, mas fala-me de
ti, que tens feito. Continuas no ar condicionado?»
«Sim, o meu patrão deu-me sociedade.»
«Já casaste ou continuas solteirão?»
«Estou divorciado, há 3 anos.»
«Estou aqui.» Escreve César ao
dirigir-se a Érica dois dias depois.
«Deverias estar aqui, meu amor.»
«Ah, se não fosse o teu pai…» Lamenta César.
«O meu pai não é o culpado. Qualquer
dia perco a cabeça e fujo para junto de ti.»
«Por que não nos deixam ser felizes?»
«César! Sabes, estive apaixonada por
ti.»
«Nunca mo disseste, eu também te
amava. Amava-te muito, mas o destino separou-nos.»
«Não, não me amaste como eu te
amei.» Declara Érica.
Estas conversas tornaram-se diárias
e muitas vezes pela madrugada. Erica enviava-lhe frases amorosas, músicas que
eles tinham ouvido enlaçados a dançar. A conversa por SMS torna-se ternurenta,
carinhosa, carregada de amor. Três meses decorreram e finalmente o encontro há
tanto desejado.
Foi um encontro de pouco mais de
duas horas. Olharam-se embevecidos. Beijaram-se discretamente dentro do carro.
Ela, mais afoita, acariciava-lhe os cabelos e fazia-lhe festas na cara. César
não se sentia muito à vontade, parecia tímido. Tinha medo de ser observado
pelos transeuntes. Dirigiram-se para um bar e tomaram uma bebida. Aí
conversaram e recordaram os tempos em que se amaram.
«Quando nos voltamos a encontrar
Kika?» Pergunta César à despedida.
«Daqui a três meses.» Diz Érica
sorrindo com aquele olhar de gaiata.
«És má para mim, mas eu vingo-me.
Vou castigar-te com muitos beijos para a próxima.»
«Então amor? Desde as 5 que te
espero. Adormeceste?» Lamenta Érica numa madrugada em que não recebe a habitual
mensagem no Smartfone.
«Perdoa, deitei-me tarde…»
«Queria adormecer, mas não conseguia
sem o teu habitual carinho matinal.» Murmura Érica.
César outras vezes entrava em
desespero e escrevia-lhe: «Kika, és cruel. Um dia inteiro sem um telefonema.
Pedi-te por SMS que me telefonasses, queria ouvir a tua voz, mas desprezaste o
meu pedido.»
«Amor, foi-me inteiramente
impossível. Estive acompanhada todo o dia. Fornecedores, pai, clientes, eu
amanhã explico-te tudo por telefone.»
As mensagens diárias e noturnas, os
telefonemas diários, os carinhos com que se contatavam cada vez mais amorosos,
levou-os ao inevitável. Um mês após o primeiro encontro abraçavam-se num quarto
de hotel. Amaram-se apaixonada e loucamente. Fizeram juras de amor eterno.
Num domingo de dezembro Érica
levanta-se cedo mais bem-disposta do que habitualmente. Sabe que o seu amor
gosta desse dia para permanecer em casa, num dolce far niente. Por isso fica admirada quando César a convida
para jatar fora. Jantavam várias vezes fora, mas, num domingo? Esse dia era um
dia especial para eles, esperava que César se lembrasse, mas sabe que os homens
não ligam a dias especiais. O facto de a ter convidado para jantar era sinal de
que não se tinha esquecido daquele dia. Ficou radiante.
O jantar decorreu como todos os
outros jantares. Atencioso como sempre, meigo, carinhoso e sempre bem-disposto,
mas aquele dia não era um dia qualquer e César parecia não o reconhecer. Depois
do jantar convidou-a a tomarem uma bebida. Ficou admirada quando o viu parar
junto ao hotel onde se tinham amado quatro meses depois do reencontro.
«Por que viemos aqui?»
«Quis recordar o nosso primeiro
encontro, anos depois de te ter perdido.» Responde César acariciando a sua
amada.
Érica gostou da ideia, gostou da
carícia, gostou o facto de estar no local onde amara doidamente César, anos
depois do seu desaparecimento. Só não compreendia por que razão César não
falava nesse dia especial.
César levanta-se e diz à sua Kika
pegando-a pela mão:
«Vamos.»
Érica levanta-se admirada pela
escassa meia hora que estiveram no bar.
César de mão-dada, puxa-a para a
escada do hotel que dá acesso aos quartos. Érica olha-o interrogativamente, mas
segue-o. César parecia radiante. Mete a chave na porta e convida-a a entrar.
Érica depara com um enorme ramo de rosas sobre a cama. Olha para o ramo, olha
para César. Fica paralisada. Indecisa. Não sabe se pegar no ramo se correr para
os braços de César. Pega no ramo, mas de imediato atira-o para onde estava.
Corre para César e atira-se a ele. Beija-o apaixonadamente e chora.
«Amor, não te esqueceste.»
Volta-se para a cama e recolhe o
envelope que jazia junto ao ramo. Com os olhos marejados de lágrimas abre-o e
lê: PARABÉNS AMOR PELO NOSSO 5.º
ANIVERSÁRIO DE CASAMENTO E DE AMOR.
Érica não aguenta. Num choro convulsivo corre para
a casa de banho para lavar a cara. Regressa um pouco mais recomposta.
«Amor, perdoa-me por pensar que te
tinhas esquecido.»
César, sorridente, beija-a com
ternura e simultaneamente abre a mesinha de cabeceira. Tira um pequeno volume
juntamente com outro envelope e entrega-o à sua amada.
Érica olha-o estupefacta. Olha o
pequeno volume, olha o envelope, não sabe qual abrir primeiro. Opta pelo
pequeno volume. Levanta-se com um grito.
«AMOR!» Disse Érica desta vez
chorando copiosamente, acrescentado «tu matas-me.»
Pega no anel de diamantes e coloca-o
no dedo. O choro era tanto que não conseguiu vê-lo devidamente. Corre novamente
à casa de banho. Regressa e mais uma vez se atira ao pescoço de César num
pranto. As carícias do seu amado acalmaram-na um pouco. Já mais recomposta abre
o novo envelope e lê, Tal como os diamantes,
o nosso amor é eterno.