quinta-feira, 27 de outubro de 2016

TAL COMO OS DIAMANTES, O NOSSO AMOR É ETERNO


Prefácio

 

Algumas das minhas mensagens são dedicadas

a familiares, amigos ou conhecidos, mas

de forma a que não sejam entendidas

por terceiros. Esta é dedicada a um casal

amigo de longa data que me confiou os seus segredos. Como é óbvio, alterei os nomes dos protagonistas

bem como alguns pormenores. Hoje ainda vivem

com o mesmo amor com que se conheceram.

Pedi-lhe autorização para esta publicação

que agradeço e desejo-lhes muitos

anos de vida com a mesma paixão.     

  

            César Alves, homem de meia-idade, é um cavalheiro afável, romântico, aberto e diz o que pensa, mas pensando no que diz. É alegre contagiando os que o rodeiam. Gosta de cativar amizades.
            É diretor de uma microempresa de ar condicionado. Raramente sai em serviço externo, salvo raras exceções e trabalhava como qualquer funcionário. Não tem preconceitos e fá-lo com prazer.
            Certa tarde, falando com fornecedores através de SMS, repara num pedido de amizade de senhora de nome Érica. Não se lembrava de quem fosse. Investigou o currículo, mas pouco adiantou. Não tinha ideia de daquela pessoa. Nada custava aceitá-la na sua vasta lista de amizades.

            Decorreram dois dias e recebe uma nova mensagem:
            «Olá senhor César, não se recorda de mim? Sou a Érica. O senhor era meu fornecedor aqui na zona do Campo Pequeno.»
            «Peço-lhe imensa desculpa. Sou muito despistado e de momento não estou a ver quem seja.» Responde César.
            «Vou dar-lhe uma dica: recorda-se de uma vez apanhar uma multa por mau estacionamento enquanto reparava o meu ar condicionado?»
            «Não me ajudou muito. Apanhei várias multas por esse motivo.» Retorque César que, sem desligar, abre a página de Érica e olha as poucas fotos publicadas. Aqueles olhos diziam-lhe algo, mas olhos de quem? Repentinamente veio-lhe à memória. Era a Kika que conhecera uns anos antes. A mulher que o enfeitiçara com o olhar. A vida deu tantas voltas que deixou de ter o seu contacto.
            «És a Kika, agora me lembro, estive a rever as tuas fotos e finalmente reconheci-te.»
            «Sim, sou a Kika. Não me importo que me trate por tu. Posso tratá-lo também por tu uma vez que somos amigos?» Pergunta Érica.
            «Podes e deves. Há quantos anos, meu Deus, que nada sei de ti. Que fazes? Ainda moras em Campolide?»
            «Trabalho no escritório de meu pai, aqui em V. F. de Xira perto da casa onde moro atualmente.»

            Após mais umas frases de conversa, César recordou o dia em que conhecera Érica.   
            «Bom dia. Foi-me instalado um ar condicionado recentemente, mas há um problema no aparelho porque não arrefece e com este calor não consigo estar em casa. Por favor, tenha pena de mim, sinto-me no inferno.» Informou a cliente com uma voz amável e cheia de ternura.
            Aquela voz lembrava um anjo a suplicar ajuda. César não tinha nenhum colaborador disponível e prontificou-se ele mesmo a acudir aquele chamamento.
            «Bom dia. É a dona Érica?» Indagou César ao chegar aquela cliente.
            «Sim. Que simpatia a vossa, virem tão prontamente.» Elogiou Érica.
            «Somos assim, quando nos pedem com tanta amabilidade.»
            A empatia gerada entre ambos foi de tal forma, que César prometeu telefonar dias depois para saber da sua satisfação no arranjo do aparelho.
            «Que tal o ar condicionado, D. Érica?» Perguntou pelo telefone César.
            «Está a funcionar perfeitamente. Senhor César.
            «Que pena…» Lamentou César.
            «Que pena? Pena porquê?» Admira-se Érica.
            «Gostava de aí voltar para lhe dar mais uns toques.»
            «Obrigado, mas está a trabalhar perfeitamente. Não creio que seja necessário.»
            «Bom… se tiver algum problema por favor telefone-me, de imediato aí irei.»
            «Obrigada. Assim farei.»
           Uma semana depois César insiste telefonicamente para uma limpeza pormenorizada ao aparelho.         
            «Senhor César, acha mesmo necessário?»
            «Bem, necessário não é, mas…» Érica, com a sua habitual voz melodiosa, interrompe e diz «diga, diga que não é o ar condicionado que o preocupa.»
            «Não, na realidade não é. A verdade é que estou aqui próximo de sua casa. Lembrei-me que poderia apetecer-lhe um café e queria convidá-la a tomá-lo comigo.»
            «Como adivinhou? Por acaso ia agora sair para tomar um café.»

            Foi desta forma que César e Érica começaram a encontrar-se nascendo daí um grande amor. Cerca de um ano durou aquela paixão, mas os problemas familiares de ambas as partes obrigaram a um fim inesperado. Ela, por causa do pai exigente e prepotente. Ele, um mulherengo incorrigível.
            «Conta-me tudo Kika. Que fazes aí tão longe?»
            «O meu pai tem um escritório de representações, mas sofreu um acidente vascular cerebral, há uns anos. Fiquei à testa do negócio. Tive de reduzir o pessoal e agora é uma pequena empresa. Tem-me dado muito trabalho conservá-la. Felizmente o AVC só o privou fisicamente. Anda numa cadeira de rodas.»
            «Casaste?
            «Nâo.»
            «Porquê?»
            «Não me apareceu outro César…»
            «Gostava de te ver, pormos as nossas conversas em dia.»
            «Também gostava. Vamos tomar um café, um destes dias.»
            «Amanhã?»
            «César, então? Não pode ser assim, tens de esperar. O meu pai não aguenta ficar sozinho. Tornou-te obsessivo. Terei de preparar uma ida a Lisboa.»
            «Esperarei, mas vem depressa. Há anos que não te vejo… e as saudades começam.»
            «Tontinho meu querido. Só te peço que não me pressiones. Tenho de preparar as coisas com calma, mas fala-me de ti, que tens feito. Continuas no ar condicionado?»
            «Sim, o meu patrão deu-me sociedade.»
            «Já casaste ou continuas solteirão?»
            «Estou divorciado, há 3 anos.»   

            «Estou aqui.» Escreve César ao dirigir-se a Érica dois dias depois.
            «Deverias estar aqui, meu amor.»
            «Ah, se não fosse o teu pai…» Lamenta César.
            «O meu pai não é o culpado. Qualquer dia perco a cabeça e fujo para junto de ti.»
            «Por que não nos deixam ser felizes?»
            «César! Sabes, estive apaixonada por ti.»
            «Nunca mo disseste, eu também te amava. Amava-te muito, mas o destino separou-nos.»
            «Não, não me amaste como eu te amei.» Declara Érica.          
            Estas conversas tornaram-se diárias e muitas vezes pela madrugada. Erica enviava-lhe frases amorosas, músicas que eles tinham ouvido enlaçados a dançar. A conversa por SMS torna-se ternurenta, carinhosa, carregada de amor. Três meses decorreram e finalmente o encontro há tanto desejado.
            Foi um encontro de pouco mais de duas horas. Olharam-se embevecidos. Beijaram-se discretamente dentro do carro. Ela, mais afoita, acariciava-lhe os cabelos e fazia-lhe festas na cara. César não se sentia muito à vontade, parecia tímido. Tinha medo de ser observado pelos transeuntes. Dirigiram-se para um bar e tomaram uma bebida. Aí conversaram e recordaram os tempos em que se amaram.
            «Quando nos voltamos a encontrar Kika?» Pergunta César à despedida.
            «Daqui a três meses.» Diz Érica sorrindo com aquele olhar de gaiata.
            «És má para mim, mas eu vingo-me. Vou castigar-te com muitos beijos para a próxima.»

            «Então amor? Desde as 5 que te espero. Adormeceste?» Lamenta Érica numa madrugada em que não recebe a habitual mensagem no Smartfone.
            «Perdoa, deitei-me tarde…»
            «Queria adormecer, mas não conseguia sem o teu habitual carinho matinal.» Murmura Érica.

            César outras vezes entrava em desespero e escrevia-lhe: «Kika, és cruel. Um dia inteiro sem um telefonema. Pedi-te por SMS que me telefonasses, queria ouvir a tua voz, mas desprezaste o meu pedido.»
            «Amor, foi-me inteiramente impossível. Estive acompanhada todo o dia. Fornecedores, pai, clientes, eu amanhã explico-te tudo por telefone.»     

            As mensagens diárias e noturnas, os telefonemas diários, os carinhos com que se contatavam cada vez mais amorosos, levou-os ao inevitável. Um mês após o primeiro encontro abraçavam-se num quarto de hotel. Amaram-se apaixonada e loucamente. Fizeram juras de amor eterno.

            Num domingo de dezembro Érica levanta-se cedo mais bem-disposta do que habitualmente. Sabe que o seu amor gosta desse dia para permanecer em casa, num dolce far niente. Por isso fica admirada quando César a convida para jatar fora. Jantavam várias vezes fora, mas, num domingo? Esse dia era um dia especial para eles, esperava que César se lembrasse, mas sabe que os homens não ligam a dias especiais. O facto de a ter convidado para jantar era sinal de que não se tinha esquecido daquele dia. Ficou radiante.
            O jantar decorreu como todos os outros jantares. Atencioso como sempre, meigo, carinhoso e sempre bem-disposto, mas aquele dia não era um dia qualquer e César parecia não o reconhecer. Depois do jantar convidou-a a tomarem uma bebida. Ficou admirada quando o viu parar junto ao hotel onde se tinham amado quatro meses depois do reencontro.
            «Por que viemos aqui?»
            «Quis recordar o nosso primeiro encontro, anos depois de te ter perdido.» Responde César acariciando a sua amada.
            Érica gostou da ideia, gostou da carícia, gostou o facto de estar no local onde amara doidamente César, anos depois do seu desaparecimento. Só não compreendia por que razão César não falava nesse dia especial.
            César levanta-se e diz à sua Kika pegando-a pela mão:       
            «Vamos.»
            Érica levanta-se admirada pela escassa meia hora que estiveram no bar.
            César de mão-dada, puxa-a para a escada do hotel que dá acesso aos quartos. Érica olha-o interrogativamente, mas segue-o. César parecia radiante. Mete a chave na porta e convida-a a entrar. Érica depara com um enorme ramo de rosas sobre a cama. Olha para o ramo, olha para César. Fica paralisada. Indecisa. Não sabe se pegar no ramo se correr para os braços de César. Pega no ramo, mas de imediato atira-o para onde estava. Corre para César e atira-se a ele. Beija-o apaixonadamente e chora.
            «Amor, não te esqueceste.»
            Volta-se para a cama e recolhe o envelope que jazia junto ao ramo. Com os olhos marejados de lágrimas abre-o e lê: PARABÉNS AMOR PELO NOSSO 5.º ANIVERSÁRIO DE CASAMENTO E DE AMOR.
            Érica não aguenta. Num choro convulsivo corre para a casa de banho para lavar a cara. Regressa um pouco mais recomposta.
            «Amor, perdoa-me por pensar que te tinhas esquecido.»
            César, sorridente, beija-a com ternura e simultaneamente abre a mesinha de cabeceira. Tira um pequeno volume juntamente com outro envelope e entrega-o à sua amada.
            Érica olha-o estupefacta. Olha o pequeno volume, olha o envelope, não sabe qual abrir primeiro. Opta pelo pequeno volume. Levanta-se com um grito.
            «AMOR!» Disse Érica desta vez chorando copiosamente, acrescentado «tu matas-me.»
            Pega no anel de diamantes e coloca-o no dedo. O choro era tanto que não conseguiu vê-lo devidamente. Corre novamente à casa de banho. Regressa e mais uma vez se atira ao pescoço de César num pranto. As carícias do seu amado acalmaram-na um pouco. Já mais recomposta abre o novo envelope e lê, Tal como os diamantes, o nosso amor é eterno.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O AMOR NÃO TEM IDADE


Há imagens que nos ficam na memória e esta tenho-a tão presente como se tivesse acontecido ontem.

            Há tempos, após um suculento jantar, apeteceu-me uma bebida. Queria beber um digestivo sem pressa, saborear a bebida e digerir bem a refeição. Escolhi um hotel de 5 estrelas. A majestosa entrada, o bom acolhimento do pessoal, a música e todo o ambiente foram bálsamos para me ajudar a esse fim. Sentei-me confortavelmente, pedi uma aguardente velha. Enquanto esperava pela bebida olhava os clientes do hotel, na maioria estrangeiros, tentando imaginar o que cada um deles fazia ou de onde vinha. Havia homens de negócios, turistas, mas na maioria casais. Estes últimos seriam turistas por certo. Despertou-me a atenção um casal de meia-idade. Tomavam sumos. Olhavam-se com ternura. A mão dela por vezes acariciava o companheiro. Ele sorria, embora demonstrando pouco à vontade. Ela mais afoita, insistia. O cavalheiro segredou-lhe qualquer coisa e levantaram-se. Foram para o jardim, traseiras do hotel. Através do vidro pude observá-los. Caminhavam de um lado para o outro conversando muito juntos, mas sempre com aquele ar de enamorados. Estava um pouco de vento e poucos minutos depois regressaram ao interior. Deram uma volta pelo enorme salão e sentaram-se num canto, longe dos olhares, não tão longe que não os pudesse observar. As cenas de amor continuaram. Lembraram-me os jovens que, sem pudor ou propositadamente, beijam as namoradas na rua. Nunca compreendi o motivo de tais atos. Não condeno, mas acho descabido tal procedimento. Quererão dizer ao mundo que se amam? Não seria muito mais bonito demonstrarem um ao outro que se amam sem espetáculo? Sem testemunhas? O amor não precisa de ser demonstrado, necessita sim de ser comprovado. Não era o caso daquele casal, claro, mas gostei de os ver. Seriam casados? Duvido. Provavelmente não se viam há algum tempo ou então conheceram-se recentemente e amaram-se. A minha observação era discreta. Não queria estragar o idílio daquele casal. Gostei de ver que o amor não tem idade.