domingo, 13 de dezembro de 2009

Fechado na despensa

Era uma vez um menino que, como muitos meninos, para além de ser um traquina de primeira apanha, metia o nariz em todo o lado ao ponto dos vizinhos fazerem queixas dele. Vivia com os seus dois irmãos e pais numa casa em Caldas da Rainha.


Chamavam-me Carlinhos; tinha eu na altura uns dez ou doze anos de idade. Nesse dia estávamos sozinhos em casa. Os meus pais tinham ido trabalhar e a empregada provavelmente tinha saído às compras e nós por certo estaríamos de férias.


«Vamos brincar às escondidas», gritou o Toninho, meu irmão mais novo. Depois do habitual 'um dó-li-tá' calhou-me ser eu a ir procurar os meus irmãos.


«Escondam-se enquanto eu conto até cinquenta»; mas em vez disso fui eu esconder-me dentro da despensa.


«Então?» Gritava um. «Não me vens procurar?» Resmungava o outro, e eu dentro da despensa, às escuras, aguardava pelo desfecho. Tinha invertido as posições, de procurador passei a procurado.


O reboliço dentro de casa era enorme, arrastavam-se sofás, abriam-se e fechavam-se portas e armários e eu caladinho que nem um rato, espreitava por uma brecha da porta. De repente, não sei como, um dos meus irmãos com a correria fechou-me a porta.


Antigamente as portas das despensas só abriam por fora e eu ali fiquei trancado. Nunca tive medo do escuro, além disso a qualquer momento bateria à porta e qualquer dos meus irmãos abriria. O recinto era minúsculo e desconfortável mas eu queria levar a brincadeira muito a sério. Ouvia-os gritar por mim: «Carlos! Onde estás? Já acabou a brincadeira, tu perdeste, não nos encontraste.»
Ao fim de algum tempo deixei de ouvir barulho, pensei: estão à espera que eu apareça, pensam que eu sou parvo...hão de esperar e desesperar.


Mais de meia hora depois continuava a reinar o silêncio. Bati à porta e nada, ninguém aparecia. Gritei, dei pontapés e murros na porta. Comecei a chorar, não havia ninguém em casa; que teria acontecido? Doíam-me as pernas de cansaço e tentei sentar-me no chão. Qualquer coisa atrás de mim impedia-me de o fazer. Encolhi as pernas e encostei-me. Com os pés forcei a porta mas o resultado foi um baque de alguma coisa a partir-se. De repente um líquido jorrou pelo chão e encharcou os meus calções. Levantei-me e as minhas mãos estavam besuntadas de óleo ou azeite. Dos meus calções escorria aquele líquido viscoso pelas pernas abaixo. Gritei, chorei, tacteei com as mãos procurando algum pano para me limpar. Encontrei penso que um pano de cozinha. Os calções estavam demasiado besuntados para poderem ser limpos com o pano. Tirei-os e tentei limpá-los. Em vez disso caíram-me ao chão. As minhas sapatilhas, meias e pés estão numa lástima. Procurei outro pano para limpar as cuecas. Todo o meu corpo estava coberto de óleo. O chão estava uma poça. Os meus calções deveriam estar lindos. Comecei novamente a chorar e a lamentar a brincadeira. Ouvi barulho dentro de casa e calei-me para escutar.


No primeiro andar, por cima de nós, vivia uma bruxa, sim uma bruxa que eu bem a tinha visto fazer bruxedo numa noite depois de jantar; enquanto a minha mãe lavava a loiça, eu subi sorrateiramente e espreitei pela fechadura. Havia uma ténue e tremida luz dentro da casa, como se de uma ou várias velas estivessem acesas. Umas vozes que vinham do além sussurravam numa ladainha. Fugi, corri pela escada abaixo aos gritos.
A bruxa desceu e veio falar com a minha mãe. A sua voz era inconfundível e ficou-me nos ouvidos durante muito tempo.


Agora era essa voz que eu dentro da despensa ouvia juntamente com a do meu irmão José Maria, gritando: «senhor guarda, o Carlinhos estava aqui, a brincar connosco...»
Entrei em pânico; uma bruxa e um polícia? Eu ia ser preso em cuecas. A bruxa e meus irmãos gozariam comigo. Não, isso era demais, não deixaria que isso acontecesse. Tive receio que o óleo derramado passasse por baixo da porta e me denunciasse. Com os panos tentei tapar a eventual saída do óleo. Aguardaria que todos saíssem e depois os meus irmãos abrir-me-iam a porta. Eram mais uns minutos de paciência. Esperei. Não sei quanto tempo aguardei. Uma hora? Três? Dez? Não sei. Só sei que tinha fome, frio, queria sair daquele inferno, comer, tomar banho e dormir. Tão depressa o silêncio era absoluto como toda a gente falava sem eu aperceber quem e que diziam. Chorei baixinho com medo e vergonha, rezei fervorosamente à Nossa Senhora de Fátima, prometi montes de coisas à Senhora se dali saísse sem vexame.
Muitas horas depois ainda chorava, batia e pontapeava a porta sem que alguém me socorresse. Estava desesperado, já não me importava de ser preso em cuecas ou ser gozado pela bruxa e meus irmãos. Eu queria sair dali fosse de que maneira fosse.
Na escola, para além da aprendizagem da leitura e contagem, tínhamos aos sábados a ginástica e a Mocidade Portuguesa onde eu aprendia a sobrevivência na montanha, a orientação pela bússola e pelas estrelas, pelo musgo nas árvores; mas não aprendemos como sair duma despensa fechada por fora e sem iluminação por dentro. Tudo isto me passou pela cabeça e foi então que me lembrei de procurar às apalpadelas tudo o que houvesse dentro daquele recinto: um martelo, uma gambiarra uma tomada de electricidade, uma lanterna, machado, faca, tesoura. Qualquer coisa serviria, não sei para quê, mas tinha de procurar.
As horas passavam; não sabia se eram onze da manhã se onze da noite; os meus pais não chegavam; os meus irmãos desapareceram; a empregada, sim a empregada que acontecera? Às escuras, apalpando tudo o que havia naquele cubículo, deixei cair qualquer coisa que se partiu e derramou no chão. Um forte cheiro espalhou-se no ar. Tinha partido a garrafa do petróleo para o fogareiro. Mais uns pontapés e murros na porta desferi a fim de refrear os meus instintos. Decididamente não estava nos meus dias. Em pranto prometi tudo a todos os santinhos, prometi ser bonzinho, ir à missa, confessar-me, ser bom para os velhinhos, ajudar os necessitados, estudar e não mentir aos meus pais.
Continuei a apalpar tudo o que estava ao meu alcance mas desta vez com o máximo cuidado. O intenso cheiro a petróleo misturado com o óleo era horrível. Às apalpadelas dei com uma caixa de fósforos. «Eureka!» gritei. Já tinha luz.
Com as mãos encharcadas de óleo e tentando não sujar muito a lixa da caixa, abri-a com cuidado e tirei um fósforo. Tentando não molhar a lixa, risquei o fósforo.
Uma claridade imensa inundou o recinto. Um companheiro da Mocidade Portuguesa à porta perguntou-me: «o que se passa? Porque gritaste?"»
Olhei em volta. Estava na tenda de campismo da Mocidade Portuguesa encharcado em suor, o calor era abrasador.
Tinha tido um pesadelo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Medicinas Alternativas ou Convencionais

Caros amigos, volto mais uma vez ao meu entretenimento principal: a escrita.

Recentemente li numa revista, não me recordo qual, (provavelmente um anúncio publicitário), um breve apontamento sobre as medicinas alternativas e matutei no assunto discutindo-o para comigo próprio. Não é minha pretensão debater um assunto do qual nada sei, nem tão pouco estou a par das terapias adequadas aos achaques de cada doença. Apenas pretendo desabafar com alguém e esse alguém é este blogue.

A medicina tem como princípio adoptar novos tratamentos apenas quando os mesmos têm eficácia comprovada cientificamente. As mesinhas, os chás e as crenças relacionadas com tratamentos espirituais (muito em voga no Brasil) ou outra diferente da praticada pelo convencional não me convencem; sou céptico, aliás até mesmo a medicina tradicional evito; talvez porque durante mais de 20 anos, (entre os meus 20 e os 40) percorri dezenas de médicos, devido a uma úlcera de origem nervosa no duodeno, tendo-me sido administrados dúzias de marcas de comprimidos, drageias, líquidos, papas, injecções e um sem número de drogas para além das radiografias e endoscopias efectuadas ao longo daqueles anos; chás; mesinhas caseiras; convenci-me que era uma cobaia dos médicos. A cura foi-me administrada por uma farmacêutica amiga, com determinados comprimidos dum vulgar laboratório pouco divulgados no mercado farmacêutico. Em 30 dias curei-me; cicatrizou a úlcera de tal forma que não existem vestígios da sua cicatrização. Há cerca de 30 anos que não sei o que é uma dor de estômago.

Nas terapias alternativas e milenares da China, como a acupunctura, tratamento por inserção de agulhas em pontos específicos do corpo; as massagens; a homeopatia, baseada na escolha correcta dum produto natural para a cura do doente; a fitoterapia, método terapêutico que utiliza plantas medicinais e suas aplicações na cura de doenças; a chi kung, também medicina tradicional chinesa que consiste no uso da energia; as hidromassagens, banhos turcos, saunas, banhos de lama e os modernos SPA que combatem o stress, as dores musculares, artrites, reumatismo, tonificam e desintoxicam, também não me convenceram ainda.


Não ponho em causa os resultados terapêuticos que daí possam advir nem condeno quem os procura e pratica; mas creio que o melhor método da cura está na prevenção e na alimentação. Não é necessária uma alimentação vegetariana. Coma-se de tudo com moderação e evite-se o “fast-food”. Faça-se desporto, combata-se o sedentarismo e o stress. Muitas vezes a causa dos problemas cardiovasculares são motivados pela falta de desporto. A doença antes de ser tratada, deverá sim ser evitada.

Também devemos ter em atenção que evitar a obesidade não é emagrecer a ponto de nos tornarmos anorécticos, como, principalmente modelos femininos que pretendem exibir os seus corpos nas “passerelles”.

O envelhecimento pode ser retardo desde que consigamos a ausência de doenças e alteremos os nossos hábitos alimentares em vez de gastarmos fortunas em medicamentos.

Fomos programados para viver, no máximo, até aos 120 anos, mas Aubrey de Grey, biólogo especialista em envelhecimento da Universidade de Cambridge (Reino Unido), desafia este limite e afirma que podemos chegar aos 500 anos.

O geneticista inglês Audrey de Grey tem uma tese muito ambiciosa. Segundo ele, o processo de envelhecimento é causado por sete tipos de danos a nível celular, no organismo. Se esses danos forem bloqueados a vida poderá estender-se por um tempo incalculável e o envelhecimento poderá ser tratado como uma doença.

Enxerto retirado da Internet. http://curacientífica.pt

Daqui a cem ou duzentos anos cá estarei para vos provar que este geneticista tem razão.

Vale uma aposta?

domingo, 29 de novembro de 2009

Ainda Sobre o "Novo Acordo Ortográfico"

Ainda sobre o Novo Acordo Ortográfico, e verificando que a minha tese, como era de esperar, não é defendida por muitos como por exemplo: Dr. Jaime Abreu, Dr. Vasco da Graça Moura, o conhecido e notável escritor, Dra. Rosalina Barbosa, e, tendo recebido desta última um comentário que de imediato agradeci e inseri no meu blogue, venho contender e responder:

“Minha cara Rosalina, o seu comentário oportuno e perspicaz não me convenceu. A comparação da língua portuguesa com a inglesa é demasiado utópica, se não vejamos: a língua inglesa é falada por 370 milhões de nativos e 750 milhões não nativos. Um quarto da população mundial fala inglês; os 53 Países da Comunidade Britânica, (Commonwealth), falam inglês; na Europa é a língua oficial n.º 1. Não são os 300 milhões de americanos que têm força para mudar ou prevalecer numa mudança de gramática a seu contento. O ‘British’ é demasiado inglês e poderoso para ser americanizado.”

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Novo Acordo Ortográfico

Há dias, estando eu a lanchar numa pastelaria da av. João XXI, mais propriamente na "Sabores21", uma pastelaria simpática e acolhedora onde costumo trabalhar com o computador, (esta pastelaria para além do acolhimento e dos deliciosos croissants, tem a vantagem de nos deixar sossegados e nos oferecer a possibilidade de ligação à Internet via "Wireless"), assisti a uma discussão entre dois clientes acerca do novo acordo ortográfico. Um a favor outro contra.
"Não concordo com a mudança", dizia um, "a abolição das consoantes nas palavras 'direção', 'ator', 'batismo', ação', etc. ", são brasileirismos que não me entram na cabeça." Concluía.
"Mas repara que a língua portuguesa é falada por mais de 200 milhões de pessoas e nós somos, aqui neste cantinho, apenas 10 milhões..." contestava o outro.
Pela idade deviam ser estudantes de uma Faculdade, provavelmente de letras. Aquele que discordava do novo acordo olhou-me como que a pedir a minha opinião. Sorri para ambos.
"Também a mim me custa a mudança; mais a mais que se escrevo de acordo com a nova ortografia, para além de sentir a falta dum acento, duma letra ou dum hífen, o corrector ortográfico acusa erro." Disse eu. "Todavia teremos que nos adaptar à nova ortografia; desde janeiro deste ano que está em vigor e em breve todos os computadores, dicionários, prontuários, etc. virão com actualizações dos novos conceitos e princípios fundamentais da gramática."
"Passaremos a escrever à brasileira?"
"Não é bem assim", respondi.
"Como não?" Retorquiu.
"A partir daqui haverá apenas uma língua escrita. A Língua Portuguesa. Toda a Comunidade de Países de Língua Portuguesa escreverá da mesma forma. Com uma única gramática e um só dicionário."
"A existência de duas grafias limita a dinâmica do idioma e os obstáculos têm surgido na literatura, no cinema, na imprensa e não só; nas propostas de negócios, na correspondência comercial, etc. Os oito países da CPLP, nas suas relações intracomunitárias, deparam-se com a dificuldade da forma como devem escrever."
"Mas deveríamos ser fiéis à Língua Pátria, à Língua de Camões", objectou o não concordante.
"E continuaríamos a escrever farmácia com 'ph', ou catorze com 'qu', ou outros arcaísmos"... acrescentei.
"Não estamos orgulhosamente sós, vivemos numa Europa onde o português é a 3.ª língua mais falada e a 5.ª no mundo. Não é aceitável que nos computadores ainda apareça 'português de Portugal e português do Brasil'."
"Recorde-se que existem quatro grande línguas nas relações internacionais: Inglês, Francês, Português e Espanhol. Não me recordo de ter visto em nenhuma delas 2 grafias, a não ser no Português. Não se pede que mudem a pronúncia; também aqui as temos do norte ao sul do País, um sem número de pronúncias distintas. O Brasileiro que continue a falar com as vogais bem abertas, mas a escrita essa, será a mesma; tal como o espanhol de Espanha e o espanhol da América do Sul ou das Caraíbas, com pronúncias distintas mas uma só escrita."
Os estudantes despediram-se com um agradecimento e saíram.
O mais velho, o discordante, não me pareceu muito convencido com a minha exposição.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ruralidade e Urbanidade

Nos últimos 20 anos a atracção pelos espaços rurais tornou-se cada vez mais forte. A busca de melhor qualidade de vida, de fugir ao ruído citadino, o stress, a carência de ar puro e a saudade da quietação do campo, obrigou a um grande desenvolvimento nos meios rurais.
Por todo o País desenvolveram-se infra-estruturas de forma a oferecer ao citadino uma melhor qualidade de vida em geral, e em particular a questões relacionadas com a saúde, segurança e lazer. Do Minho ao Oeste Alentejano e ao seu interior, de Elvas ao Litoral, criaram-se o TURISMO RURAL - turismo de habitação, nascido de casas senhoriais ou apalaçadas. O Turismo de Aldeia - que, tal como o próprio nome, provém de casas de campo com as condições adaptadas a uma estada agradável. O Agro-Turismo - casas integradas em explorações agrícolas, e muitas vezes com possibilidades do turista acompanhar as actividades agrícolas.
As Pousadas de Portugal são um exemplo duma qualidade de vida não acessível a qualquer um, aquilo a que podemos chamar hotéis de luxo, localizadas em pontos estratégicos de uma beleza paisagística invulgar, ou em palácios ou castelos reaproveitados para o efeito.
Nasceu assim o RENASCIMENTO RURAL. Graças a estas infra-estruturas muitas aldeias de norte a sul do País, ocuparam posições privilegiadas e com amplas possibilidades de desenvolvimento. Veja-se o caso da costa ocidental Alentejana, onde as praias começam a ser procuradas. Os montes Alentejanos com as suas casas, rústicas acolhedoras. (Infelizmente na sua moiria eploradas por estrangeiros)
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“Casa da Anta” actualmente é um espaço de Turismo Rural que continua a preservar a arquitectura e traça original da casa dos seus antepassados, com as características originais em prol do desenvolvimento regional e na manutenção das tradições e costumes do Alto Minho.
Foto e mensagem retiradas da Internet: http://www.casa-da-anta.com/
Não pude deixar de introduzir estas duas fotos; uma da Pousada de São Gonçalo, em plena Serra do Marão e outra da Casa da Anta, em Lanhelas, Caminha, não só porque são um exemplo de bom gosto, como também por ter lá passado alguns fins-de-semana bastante agradáveis e inesquecíveis.

É bom “fugir” da cidade, do trânsito, do cansaço rotineiro, do corre-corre diário, do ar poluído, fugir da multidão, do ruído, das ruas saturadas de tráfego, dos prédios sem elevadores ou mesmo com eles, do trabalho, dos horários, dos centros comerciais, das filas de automóveis, das filas sem automóveis, enfim fugir de tudo, fugir do urbanismo, fugir da selva urbana a que nos vamos acostumando.

sábado, 26 de setembro de 2009

Ilha da Madeira

         Nos finais da década de 70 do passado século visitei a ilha Madeira pela primeira vez. As estradas estreitas e aos “ss”, abundavam. Os hotéis, já os havia de 5 estrelas mas não eram muitos. Nessa altura percorri toda a ilha de Norte a Sul e de Leste a Oeste. Fui em serviço da empresa onde trabalhava. Com os vendedores do nosso agente no arquipélago visitámos todas as lojas de comércio em geral espalhadas por todas as cidades, vilas e aldeias. Foram 15 dias de muitos quilómetros de trabalho e lazer. Voltei mais 2 vezes nos anos seguintes com o mesmo fim. Em resumo: conhecia a Ilha melhor do que muitos madeirenses.
Alguns anos mais tarde regressei, mas desta vez em férias com a minha mulher. Visitámos o Porto Santo, viagem de barco, na altura o “Pirata Azul”. Um enjoo que nunca mais esquecerei. Não tive oportunidade de apreciar a Ilha como era de prever. Não mais lá voltei.


           Em Setembro de 2009 voltei à ilha da Madeira como turista. Não se admirem se eu disser que cresceu. O facto é que cresceu mesmo, pelo menos no aeroporto, pelo mar adentro. Toda a ilha sofreu alterações abissais. As estradas ziguezageadas deram lugar a dezenas de túneis, viadutos, auto-estradas, rotundas, etc. Os hotéis são às centenas. O pequeno comércio, tal como em Lisboa, começa a desaparecer para dar lugar a Centros Comerciais, lojas chiques, restaurantes, bares e outros lugares de lazer. O asseio e limpeza são visíveis por toda a Ilha. Os teleféricos, pelos menos três, levam-nos do centro do Funchal para os cumes dos montes. Num desses montes, no Caminho do Monte, encontra-se situado o Jardim tropical Monte Palace. Neste jardim, cujo proprietário, o empresário José Manuel Rodrigues Berardo, o doou à sua fundação, FUNDAÇÃO BERARDO, para além das mais variadas espécies de plantas, poderemos admirar também os seus inúmeros painéis de azulejos dos séculos XVI a XX, o museu de minerais e gemas provenientes de todo o mundo, uma colecção de artesanato contemporâneo do Zimbabué, ricas esculturas de pedra da Colecção Berardo. O jardim está enriquecido com a construção de 2 lagoas com uma capacidade de mais de 300.000 litros de água com sistema de filtragem e purificação que garante um ambiente saudável aos peixes. O Jardim Oriental, a lagoa dos peixes Koi, as oliveiras milenárias, tudo num amplo espaço de cerca de 70.000m2, torna este lugar

            Em 2000 foi classificado pela UNESCO de Património Natural Mundial.
              As fotos acima não mostram a realidade nem a beleza e por isso convido a quem visite a Madeira a não perder este espetáculo.
 
         Não muito longe deste grandioso parque, encontra-se o Jardim Botânico. Aí, para além das mais de 2.000 espécies de plantas, das quais cerca de 230 únicas na Madeira, deparamos com um sem número de pássaros exóticos e multi-coloridos. Um passeio para um meio dia mas de calçado apropriado para as longas e íngremes caminhadas.

         Das muitas praias de calhaus, podemos agora banhar-nos nas praias de areia, trazida por certo da ilha de Porto Santo, como a praia da Calheta.
Duas fotos da praia da Calheta com o seu areal
         Porto Moniz; Câmara de Lobos; Ribeira Brava; Ponta do Pargo; Santana; Pico do Areeiro; Curral das Freiras; Camacha e muito mais localidades, são sítios a não perder aquando duma viagem à ilha da Madeira. Mas, melhor do que descrever é mostrar algumas imagens.

          A famosa queda de água a que chamam Véu da Noiva, sofreu uma derrocada e a estrada foi cortada. Pode ainda ser vista de longe.

         O famoso Curral das Freiras pode agora ser visitado por boa estrada alcatroada.

        As bonitas e bem arranjadas piscinas naturais de Porto Moniz convidam a um banho relaxante.
      Aqui a famosa Santana e as suas típicas casas.
O Pico do Areeiro e o seu habitual nevoeiro.










































Até breve.

sábado, 29 de agosto de 2009

A carta

Pedro Ming "o chinês" como era conhecido, não por ser chinês mas pela sua descendência, filho de pai português e neto paterno de chinês, na sua última visita a Pequim onde vivia um tio, deparou-se com um problema que o marcou para toda a vida.

Após e-mail enviado a seu tio Xavier Ming a residir em Pequim há já bastantes anos, marcaram-se datas de estada naquela cidade chinesa a fim de passarem uns dias de férias em conjunto. O tio Xavier tinha uma casa razoavelmente grande que lhe servia de habitação e escritório. Vivia só. O seu sobrinho visitava-o amiudadas vezes e lá se hospedava.

Naquele dia amaldiçoado chega a Pequim manhã muito cedo. Toma um táxi que o leva a casa do seu tio a cerca de 30 km do aeroporto. Não sabia uma palavra em chinês, ao contrário de seu tio que dominava a língua na perfeição. O Taxista, chinês, não falava inglês mas com gestos e indicações do Pedro lá chegou ao destino. O taxista não aceitou receber o valor da corrida e em contra partida entregou uma folha de papel ao Pedro.
Já fora do táxi, olhou o papel mas os caracteres chineses nada lhe diziam. Guardou o papel.

A habitual recepção à chegada, a conversa e o cansaço da viagem fizeram-no esquecer a carta recebida do taxista. Só no dia seguinte se lembrou e contou ao tio o episódio da carta.
"Mostra lá a carta Pedro", pediu o tio.
O Pedro apresentou-lha mas reparou que este enquanto lia, a sua cara ia-se transtornando e quanto mais lia mais transtornado se mostrava. Chegou a temer a sua reacção e com razão.
Mais vermelho que um pimento, e com um tom de voz nunca ouvido pelo sobrinho, vociferou:
"Fora daqui meu traste."
"Mas..." tentou o Pedro dizer.
"Rua, rua. Não és digno do teu nome."
"Tio..." mais uma vez tentou falar.
"Não me trates por tio. Nem mais um segundo aqui te quero. Leva essa carta e rua, rua, rua." E arrastou-o pelo braço com força porta fora gritando-lhe. "NÃO ME APAREÇAS MAIS", batendo com a porta com enorme estrondo.

Que fazer? Que culpa tinha Pedro de tudo aquilo? Rasgava a carta? Não, não podia sair da China sem uma resposta. Mas iria aonde? Pediria ajuda a quem? Não conhecia ninguém.

Alugou um hotel. Meditou durante horas no sucedido. Que diria a carta assim de tão grave? Quem seria o taxista e porquê a carta? Nada fazia sentido. Telefonar para Portugal para o pai não seria aconselhável. Não sabia se o tio já o tinha feito e o que teria dito. Aguardaria para o fazer no regresso quando estivesse cara a cara com ele.

Tentou ainda um telefonema ao tio. Melhor fora que o não tivesse feito. Sem ter tempo de dizer uma palavra ouviu uma enxurrada de palavrões não habituais no tio e a chamada foi cortada.

Horas mais tarde, mais recomposto saiu e jantou. Olhou para todo o lado, para toda a gente como que a pedir: "por favor, o que diz esta carta?" Mas não encontrou quem o salvasse. Durante três dias matutou. Pedir ajuda a um estranho? Tentar cativar a amizade do empregado da recepção do hotel e mostrar-lhe a carta? Pareceu-lhe o mais razoável e começou a agir.

Todos os dias e a toda a hora conversava com o empregado, convidava-o para beber um copo nas suas horas de folga. O empregado era bastante cortês e educado. Parecia uma pessoa culta e de princípios.

O dia da partida aproximava-se e da carta nada. Encheu-se de coragem e falou com o Tuan Ly, o recepcionista.
"Tuan Ly. Aconteceu-me algo de estranho à minha chegada", e contou-lhe o que se passara com o taxista e com o tio.
"Mostre-me a carta, por favor."
"Tuan Ly, terás de me prometer que não te zangas. Lembra-te que nada sei de chinês".
Depois das promessas feitas o Pedro mostra-lhe a carta, mesmo assim com certas reservas e a medo.
Quando Ly, começa a ler o seu rosto transfigura-se. Arremessa com a carta, corre e poucos segundos depois aparece o gerente que após uma série de gritos e com os punhos cerrados quase lhe batia. Chega a polícia. O Pedro não consegue fazer-se ouvir. Decididamente a carta deveria conter algo muito preocupante e insultuoso. Levam-no para a esquadra. Meia hora depois um aparentemente chefe da polícia, muito atencioso e dum inglês perfeito, pede-lhe para lhe contar o seu caso. Mais uma vez e amedrontado relata todo o episódio da carta.
"Mostre-me a carta", pede o polícia.
"Não, não mostro."
"Assim nada posso fazer por si. Ficará preso e será julgado."
"Eu, julgado porquê?" indagou, mas sem resposta.
Mais uma vez a preocupação de Pedro aumenta e sem saber que fazer à sua vida, amaldiçoando a sua vinda, resolve mostrar a carta com uma condição. Na presença do Cônsul Português e só a ele. É levado numa carrinha celular ao consulado. Não demorou a ser ouvido. Após ter relatado toda a sua façanha desde a chegada declarou:
"Senhor cônsul. Acredite que não sei o que fazer. Se lhe mostro a carta e mais uma vez lhe recordo que nada dela sei, não conheço a língua deste povo, não sei o que me acontecerá. Pensei mesmo em rasgá-la antes de aqui chegar, mas receei que os polícias me vissem fazê-lo."
"Homem", disse o cônsul. "Somos ambos portugueses e aqui dentro é Portugal, esteja à vontade."
Depois dos diversos pedidos de promessas, das ressalvas, das antecipadas desculpas e mostrados todos os receios, o cônsul pô-lo à vontade.
Decidiu mostrar a carta. À Medida que o cônsul ia lendo o seu rosto espumava e tornava-se rubicundo de tal forma que Pedro apavorado titubeou a medo: "que diz a carta?" Sem lhe dar resposta pediu-lhe o passaporte. Voltou-lhe as costa e saiu para regressar momentos depois com dois seguranças e um carimbo no passaporte "Persona non grata".

Os seguranças meteram-no num carro e perguntaram-lhe em que hotel se hospedava. Para lá se dirigiram.

"Damos-lhe dez minutos para fazer a sua mala. Seguiremos para o aeroporto de imediato."

Argumentar para quê? Fez as malas e desceu. Felizmente não viu nem o Tuan Ly nem o gerente.

Já no avião de regresso matutava nos acontecimentos. Que fazer com a carta? Tinha-a no bolso mas temia abri-la mesmo não percebendo nada do que ela dizia. E quando chegasse a sua casa que diria aos pais? Mostraria a carta? Oh! Não.

Chegou a casa mais cedo do que esperava mas os pais nem se referiram ao caso. Teriam falado com o tio?

Os dias passavam e a carta continuava no seu bolso. O pai conhecia o mandarim, mas a mãe não. Ele preferiria falar com a mãe sobre o assunto mas tinha receio do que pudesse vir a acontecer. Não podia continuar com este segredo só para si. Necessitava de desabafar, de mostrar a carta a alguém. Só pretendia saber o conteúdo da malfadada carta. E se o soubesse? Revoltar-se-ia contra si próprio?

Aguentou sozinho durante mais de um mês. Não resistiu e falou com a mãe contando-lhe tudo. A mãe aconselhou-o a falar com o pai.
"Mas mãe... tenho receio das consequências."
"Logo mesmo eu preparo o pai e conto-lhe o teu problema. Amanhã acerca-te dele e verás que tudo fica resolvido."

Nessa noite dormiu em sobressaltos. Os pesadelos afluíram ao seu subconsciente e de manhã não foi capaz de encarar o pai. Por sorte (ou por azar?) o pai chamou-o.
"Pedro, tenho notado que andas preocupado ultimamente. A tua mãe falou ontem comigo. Porque não me disseste o que aconteceu?"
"Depois que tudo me aconteceu, tive medo."
"Com franqueza filho, mostra lá a carta."
"Pai..."
"Deixa-te de pieguices. Já não és nenhuma criança. Mostra-me a carta."
"Pai. Jura-me que não fazes como os outros, jura."
"Está bem, mostra a carta."
"Mostro, mas vais lê-la lá para dentro. Está bem?"
"Está bem."
Pedro entregou-lhe a carta tremendo de medo e correu para a cozinha, para junto da mãe. De repente um barulho de pontapés, gritos, palavrões e objectos atirados ao chão, algo vindo do escritório, obrigou a mãe a correr naquela direcção. Vinha lívida com a carta na mão. Entregou-a ao filho e disse-lhe baixinho: "vai-te embora e aguarda um telefonema meu. Rápido e não me faças perguntas. Vai, vai antes que o teu pai volte."

Durante dois dias Pedro vagueou pelas ruas sem comer e sem dormir, até que o seu telemóvel soou. Era sua mãe.
Chorou, chorou com tal pranto que nem conseguia ouvir o que a mãe dizia.
"Filho", disse a mãe "há dois dias que não durmo mas não consigo arrancar uma palavra do teu pai. Estou mesmo proibida de falar sobre o assunto sob pena do teu pai abandonar a casa. Nem tão pouco posso falar contigo. Não telefones cá para casa. Eu telefono-te. Sabes uma coisa? Tenho pensado muito no teu assunto. Estive hoje a falar com o padre Miguel, recordas-te dele?"
"Sim mãe."
"Contei-lhe o que se passou e o padre Miguel prometeu ajudar-te. Como sabes ele esteve muitos anos em Pequim e conhece bem a língua."
"Mas mãe, vai-me excomungar."
"Não filho. Ele é um santo homem e vai-te traduzir a carta."
"Oh, mãe. Não me tinha lembrado disso. Amanhã de manhã vou falar com ele. Muito obrigado e beijinhos. Telefona-me mãezinha."
"Adeus filho até amanhã."

Era manhã cedo quando o Pedro Ming chegou à igreja. O padre Miguel, um velhinho já na casa dos 70 anos, era amigo da família. Tinha casado os pais, e baptizado o Pedro que desde criança frequentara a catequese, fizera a comunhão. Frequentemente visitava aquele velhinho amoroso.

"Olá padre Miguel" disse Pedro beijando-lhe a mão.
"A tua mãe esteve aqui ontem. Estou a par de tudo o que passaste. Podes mostrar-me a carta e confia neste teu velho amigo."
"Padre, perdoe-me mas terá de jurar sobre a bíblia que me contará o que diz a carta e que não se zangará comigo."
"Filho, sei que não tens culpa de nada; sei que não conheces uma palavra de chinês; sei o que passaste e o que estás a passar; conheço-te desde que nasceste, mas, mesmo assim, juro sobre esta Bíblia Sagrada que tudo o que estiver escrito nesse papel ser-te-á divulgado. Juro perante Deus que não me zangarei contigo. Juro solenemente que tentarei resolver o problema junto do teu pai e tio."

Pedro respirou de alívio pela primeira vez desde partiu para a China. O padre Miguel, em quem confiava e que conhecia muito bem, iria dar-lhe paz de espírito e devolver-lhe a família. Estava radiante e tão feliz que se agarrou ao padre e chorou copiosamente.

"Dá-me essa carta filho", disse-lhe o padre.
"Padre, como me sinto feliz." E em pranto agarrou-se ao padre de tal forma que até o magoou.
"Pronto, pronto Pedro. Acabou-se tudo. Dá-me essa carta."
"Sim padre".
Ainda a soluçar e com as lágrimas a correrem-lhe copiosamente, Pedro meteu a mão ao bolso, rebuscou mas a carta, tinha-a perdido.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O paradoxo e a inepta descoberta do Brasil

O guarda-mor do Infante D. Henrique, Fernão Álvares Cabral, era pai de Fernão Cabral, alcaide-mor de Belmonte e avô do Pedrinho, menino muito traquina e irrequieto mas inteligente. Este menino gostava de aventuras e viagens. O seu maior prazer era o mar. Quem quisesse vê-lo feliz bastaria ir à praia de Belém e apreciar as suas façanhas com o barco à vela do avô Cabral, quando vinham de férias à capital.

Decorria o ano do Senhor de 1500. O Pedrinho tornou-se Pedro Cabral, mais conhecido por Pedro Álvares Cabral. Tinha sido nomeado capitão-mor da armada. Teria então cerca de trinta e três anos de idade.
Dez naus e três caravelas, (consta-se que possuía também um submarino, cinco séculos mais tarde vendido a um Ministro da Defesa), constituíam a sua frota.
Cerca de 1500 homens, entre funcionários públicos, soldados, padres, cozinheiros, repórteres fotográficos, jornalistas entre eles o Pedro Vaz de Caminha e três equipas de televisão, faziam parte da expedição a que se propôs fazer junto do então presidente da monarquia, D. Manuel I. Essa expedição destinava-se à Índia, mas pelo Ocidente, já que, pelo Oriente tinha sido feita anos anteriores, pelo senhor Vasco da Gama e constava-se que o Cabo das Tormentas estava amaldiçoado pelo gigante adamastor.

Após uma missa solene na ermida do Restelo, à qual compareceram todas as entidades eclesiásticas, o senhor D. Manuel I e sua corte, a televisão, rádio e imprensa, partiu a frota de Pedro Álvares Cabral rumo à Índia. Estávamos do ano de 1500, num Domingo dia 9 de Março.

Nota do autor: A data da partida tinha sido agendada para um mês antes e o atraso deveu-se à chegada dum astrolábio electrónico, encomendado à China por ser mais económico, em virtude do Vasco da Gama não poder ceder o seu pois iria necessitar dele para a sua viagem de férias a Cancún.

Alguns dias depois aportaram nos Açores. Ilha de São Miguel ou Ilha Verde como lhe chamaram. Foram recebidos com pompa pelo Governo Regional. Em Vila Franca do Campo organizaram-se festejos onde não faltou a presença de D. Amália Rodrigues que os presenteou com o fado da Mouraria. Aí permaneceram dois dias, mataram umas vacas e cozeram-nas nas Furnas, fizeram passeios a pé pelos caminhos turísticos, alugaram jipes e percorreram a ilha quase toda, visitaram os lugares recomendados pelas agências de viagens e banharam-se nas bonitas praias da ilha, etc.
Finalmente regressaram às naus para continuarem sua viagem, não sem deixarem a promessa de, no regresso, voltarem à ilha e presentear o Governo Regional com artesanato trazido da Índia.
Não havia trânsito nem desvios. Era sempre em frente. O vento ciclónico dos Açores ajudou-os na velocidade (na época não havia limite de velocidade no oceano Atlântico), mas infelizmente o excesso de velocidade provocou alguns despistes e algumas naus naufragaram.
Algumas semanas depois, já cansados de tanto mar, eis que o gajeiro do alto do mastro grita: Terra à vista! O Pedro que não ia em cantigas nem em gritos de gajeiros, ele próprio sobe ao mastro real e certifica-se. Com os seus binóculos de longo alcance avista umas ilhas dispersas. Desce. Consulta os seus canhenhos e mapas. Com o astrolábio, o sextante, a bússola e o GPS verifica que se encontram próximo do triângulo das Bermudas.

Mandou reunir os almirantes, capitães, tenentes e o motorista do barco. Informou: estamos a chegar ao triângulo das Bermudas. Sabeis o que isso significa? Antes de embarcar fui a consultar a Maya e ela contou-me que o Titanic irá afundar-se nestas águas. Este local é mais conhecido pelo triângulo do diabo. Além do mais estamos muito a norte. Temos que descer para sul e contornar o sul da Argentina.

Apavorados entram em depressão e stress. Chamam os médicos de família (os que descontavam para caixa claro). Os outros vão tomando uns calmantes mesmo sem receita médica, e lá se vão aguentando.

Um mês depois, após tantas voltas perdem-se e atracaram naquilo que julgavam se uma ilha. Era 22 de Abril de 1500. Avistou-se uma extensa terra chã cheia de arvoredo. Ao longe um grande monte a que Cabral chamou de Monte Pascal. Àquela terra baptizou de Ilha de Vera Cruz, convencido de se tratar de uma ilha. Mais tarde e após reconhecer tratar-se de um continente, passou a chamar-se de Terra de Vera Cruz. (Hoje Porto Seguro no estado brasileiro da Baía).

Foi com grande espanto que se aperceberam de que entendiam a língua dos indígenas e lhe perguntaram que língua falavam. Portugês, responderam.
Era um povo acolhedor e simpático. A recepção foi extraordinária. Beberam caipirinhas, dançaram o samba e aí ficaram uma semana. Mas tinham de partir, até à Índia ainda faltavam umas boas milhas. Perguntaram se havia naquela terra pimenta, canela, noz moscada, porcelanas, sedas, etc.
Um simpático brasileiro informou o Pedro de que estava enganado. Essas especiarias só se vendiam nos centros comerciais da Índia e não no Brasil. Teria de contornar para sul todo o continente e depois atravessar o oceano Pacífico e quando avistasse homens com os olhos em bico estaria no oriente. Aí não valeria a pena perguntar nada porque ninguém os compreenderia, mas era fácil: atravessaria todas aquelas ilhas e logo que avistasse a ilha de Ceilão e Maldivas, olharia para o norte e logo veria um país em forma de triângulo invertido. Estaria na Índia. Além do mais poderia confirmá-lo pela existência e visão dos enormes paquidermes a que chamavam elefantes e pelas lindas damas bem vestidas e pintadas com uma pinta colorida na testa.
Antes de partirem e como prova da boa recepção da parte do povo brasileiro e também para não darem por infrutífera a viagem, foram-lhes oferecidas madeiras exóticas, papagaios e vídeos do carnaval carioca.

O Pedro agradeceu as informações e oferendas e meteram-se ao caminho com destino ao destino.

Um ano depois, mais propriamente a 31 de Julho de 1501, estava de regresso a Portugal, tendo sido recebido como herói, apesar de ter perdido 9 barcos da sua frota.

sábado, 15 de agosto de 2009

O paradoxo e o incongruente Bolo-Rei

Era uma vez um rei que tinha 2 amigos. Por mera casualidade esses dois amigos eram igualmente reis. Eram reis porque cada um reinava em seu país. Mesmo em pequeninos nunca reinaram juntos. Tinham algo em particular, o seu aspecto físico: eram magros. Eram magros não por passarem fome, pois ganhavam muito bem e até recebiam subsídio de férias e de Natal, mas sim por praticarem o desporto da anorexia. Eram conhecidos por “os três reis magros”.

Em finais do século XIV, numa manhã de nevoeiro, reúnem-se para uma viagem à Europa. Pretendiam comprar oferendas para uma amiga comum que vivia em Aljubarrota, a Brites de Almeida. Admiravam-na pela sua valentia. Constava-se que tinha electrocutado uns castelhanos com o ferro eléctrico de engomar.

Rumaram aos Açores. Pretendiam comprar queijo, leite e ananases.
Dirigiram-se às vacas gordas, brancas de tanto leite e pretas da terra vulcânica. Eram tão idênticas que com dificuldade distinguiram as que davam leite e as que davam queijo, já que, sem dificuldade descobriram as que davam ananases, pois estas, além de serem acastanhadas, viviam em estufas.
Carregados das suas oferendas, perguntaram a um polícia o melhor caminho para Belém. Foi-lhes informado que era longe, que ficava entre o Castelo de S. Jorge e Algés.
Tinham pressa, queriam chegar antes do dia seis de Janeiro a fim de comprarem pastéis de belém, e só depois prosseguiriam a sua viagem para Aljubarrota. Por sorte deles passava na altura o eléctrico da estrela com destino Belém. Tomaram-no. Por azar deles chegaram no dia sete e encontraram a pastelaria fechada.
Ao mesmo polícia, que por sinal tinha vindo dois dias antes, de avião, perguntaram a que horas abria a pastelaria. - Oh, reis magros, a pastelaria só abre daqui a aproximadamente 624 anos, três meses e 8 dias, às oito horas da manhã. Desiludidos indagam-se: esperamos? Não vale a pena, diz o Baltazar. Até lá morreríamos de fome, diz o Gaspar. Que fazer então? Pergunta novamente o Belchior. Nestas indagações, hesitações, incertezas e outros sinónimos, não chegariam a quaisquer conclusões, não fora a sorte de por perto passar um anjo que lhes disse: não sois vós portadores de oferendas trazidas dessa maravilhosa ilha donde viestes? Porque não as levais para a Brites de Aljubarrota para que ela vos faça um bolo na sua padaria? (Não há dúvida que os anjos, não só os da guarda, nacional, mas também os outros, são uns óptimos conselheiros).

Assim fizeram. Perto do Palácio de Belém verificaram a existência duma casa que anunciava: “RENT-A-COCHE COM OU SEM CONDUTOR”. Depois das formalidades normais, do pedido da carta de condução, BI, NIF, etc. alugaram um de 4 cavalos e com GPS.

Imagens gentilmente cedidas pelo dono da Internet

Era já noite cerrada quando bateram à porta da padaria. A Brites veio abrir com a pá em punho, pensando tratar-se de castelhanos, (dias antes tinha dado cabo de seis). - Olá amigos reis, que magros estais, tendes fome? Quereis pão acabado de cozer? É oferta da casa. Uma vez que não tinham que pagar aceitaram e saciaram-se.
Depois de amena cavaqueira de muita conversa fiada, falando-se da crise, do preço da gasolina e do carvão, de que o pão teria de aumentar, mas não em tamanho, etc. lá adormeceram.

A Brites era uma interessante mulher, bonita, jovem cheia de graça, com um narizinho perfeito e um corpo escultural, uma boca de lábios carnudos e vermelhos. O lenço na cabeça dava-lhe um ar sensual, conforme podem verificar na foto abaixo, tirada na época. Tinha bigode e tudo.

Mais uma oferta da Internet. (fotografia tirada Em 1390, com uma máquina fotográfica digital)

Já o Sol ia alto quando os reis acordaram. Levantaram-se e depois de dejejuar foram dar uma volta pela cidade (na altura era a capital de Santo Condestável). Foi então que se lembraram da conversa com o anjo, no dia anterior em Belém. Dirigiram-se para a padaria e falaram com a Brites. - Ó Brites; podias fazer-nos um bolo. Temos leite, queijo e ananases, tu apenas dás o açúcar. A proposta era vantajosa para ambas as duas partes, ou melhor, para ambas as quatro partes, uma vez que eles eram três mais ela que era uma, os empregados não entravam na divisão do bolo, dava um total de quatro.

De imediato a cabeça da linda padeira começou a computar. Precisava de um molde, duma forma ou algo que servisse para a confecção do bolo que mais tarde se tornaria famoso. Após um clic no “enter” apareceu a palavra coroa. Era isso mesmo e a do rei Belchior era a mais indicada. - Ó Belchior, tens aí uma coroa que me emprestes?
Foi aquela colocada à disposição da padeira que, com a sua habilidade e destreza com a pá, confeccionou um lindo bolo.
Duas horas e dezoito minutos depois estava pronto. Foi provado, foi comido acompanhado com gasosas e pirolitos (estes mais tarde retirados do mercado pela ASAE) e foi aprovado. Discutiu-se o nome a atribuir ao bolo, de forma a não ferir susceptibilidades, nem ao bolo nem aos presentes. Alvitrou-se bolo Belchior, bolo da padeira, bolo dos magros, bolo da Brites, até que uma vez mais um clic da padeira e zás: Bolo-rei.

Ficou aprovado aquele nome. Bolo-rei ou o da Brites.
Para comemorar fez-se uma festa e deitaram-se foguetes. Convidaram-se o rei de Portugal D. João I, o de Castela D. Juan de Castella, D. Nuno Álvares Pereira e outras figuras públicas e políticas de ambos os países. Os partidos políticos de todos os quadrantes enviaram os seus representantes. Até veio Martim Moniz, mais conhecido pelo “portas”. O Afonso Henriques enviou a sua comitiva. A Brites pediu desculpa ao rei de Castella pela morte dos soldados castelhanos, desculpa essa aceite. Foi o fim da guerra entre Portugal e Castela. Houve abraços, beijos, choros, lágrimas e cravos vermelhos na ponta das espadas.

Assim nasceu a história do bolo-rei. Ainda hoje onde se come o melhor bolo-rei da Nacional é na bonita vila de Aljubarrota. A sua fama já vem de longe e atravessou todos os oceanos pacíficos ou não.

Agradecimentos
A todos os historiadores que me ajudaram na pesquisa destes feitos. Ao Senhor da Internet, aos meus amigos que durante quatro anos me incentivaram nestas pesquisas à minha família que me acompanhou pelos cinco cantos do mundo, (ou foram seis?) desde o Pólo à Polónia e do Árctico ao outro lado da ilha. Por tudo isto quero dizer duas palavras: Obri e gado.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

POR UMA VIDA MELHOR

Há pouco tempo fui ver uma exposição de fotografia a preto e banco.
Gérald Bloncourt, um Haitiano, exilado do seu país, expõe no CCB. Nessas fotos está retratado o período da emigração portuguesa para França, nos anos 60.

Uma enorme armação de ferro galvanizado com altura entre os 8 a 10 metros, sustenta em toda a sua volta e até ao topo umas centenas de garrafas vazias de vidro verde, todas elas com o gargalo para o interior como se encaixadas numa garrafeira. É uma escultura curiosa, aparentemente sem sentido de arte, mas a sua grandiosidade é espectacular. Autora desta escultura, a jovem Joana de Vasconcelos nascida em Paris em 1971, que tem esculturas espalhadas por todo o País e estrangeiro. Talvez por esse motivo o mérito de a expor no CCB. É o que deparamos à entrada dessa sala de exposições.

A exposição localizada no piso -1 é composta por 5 salas, 3 com fotos e 2 com curtas-metragens, ladeadas à direita por um longo corredor, também este expondo fotos. Salas amplas e desprovidas de quaisquer móveis mostram as cerca de 50 fotografias a preto e banco, como convém neste caso, iluminadas por projectores. Do tecto não é enviada qualquer iluminação. Os projectores asseguram a iluminação suficiente à exposição.
São fotos confrangedoras da emigração portuguesa para França, mostrando desde a sua passagem clandestina a pé pelos Pirinéus, ao desembarque na gare de Austerlitz. Famílias carregadas de malas, sacos e filhos ao colo; os acampamentos em Noisy-le-Grand; os bairros de lata onde viviam velhos novos e crianças no meio dum lamaçal imundo; as barracas de lata onde estes viviam com as fotos dos entes queridos, que se assemelhavam às que têm sido demolidas em Lisboa; as longas filas nos chafarizes para obtenção de água; o trabalho árduo na construção civil; etc. As últimas fotos mostram um cartaz da CGT (Confederação Geral de Trabalhadores) de 1964 e o Piquete dos Sindicalistas da CGT, que dava ajuda e orientava os recém-chegados e lhes expunha os seus direitos (da forma como viviam seria que tinham direitos? Mais pareciam escravos do que trabalhadores com direitos). As curtas-metragens, uma em francês e outra em português, das quais vi algumas passagens, relatavam em pormenor todos estes casos. Portugueses emigrantes contam os momentos vividos na época. Os camiões que os transportavam como animais e os largavam na fronteira francesa a mais de 30 horas de caminho a pé para o destino. Os mais novos lá se iam aguentando, mas os mais velhos, ficando para trás, por vezes desmaiavam. Seguiam aos 200 de cada vez e diariamente. A sede era o inimigo principal. Bebiam das poças.
O filme de José Vieira, ele próprio emigrante em França, editado em Março de 2001, relatando muitas destas passagens tem como música de fundo as baladas de “Zeca Afonso”.

Vim transtornado com o que vi. É chocante relembrar tudo aquilo que os nossos conterrâneos passaram em busca de um mundo melhor.
Recordei antigos amigos que também partiram para França mas, sem todavia se queixaram das condições em que viviam. Por vergonha ou teriam tido mais sorte? Nunca o saberei.
Hoje, recebemos imigrantes de leste e vingamo-nos do que passámos. Não é justo. Conheço alguns imigrantes, principalmente de leste, pessoas trabalhadoras, cultas, uma delas era empregada de limpeza na firma onde trabalhei, uma senhora com curso de enfermagem. No meu condomínio que andava em obras de limpeza exterior, trabalhava um moldavo, pessoa correctíssima, electricista de profissão. Estava empregado exercendo a sua profissão mas saiu porque não o puseram na Segurança Social e não lhe passavam recibos. Teve de vir para as obras.

Milhares de portugueses emigraram para países longínquos, os açorianos para a América, os nortenhos para França, muitos para fugir à vida militar, outros por causa da ditadura salazarista, a repressão, a PIDE, a miséria, a falta de emprego e os baixos salários tudo isto contribuiu para este êxodo. O trabalho lá fora era duro, mas os emigrantes sujeitavam-se. Trabalhavam na construção civil, ou como empregados de mesa ou cozinha.
Pela comunicação social temos conhecimento de nova vaga de emigração. A vida sócio-económica actual, os sucessivos aumentos de bens de primeira necessidade, a falta de emprego e os baixos salários assim a proporciona. Hoje são os imigrantes do Brasil que vêm servir ao balcão, empregados nas lojas, bares ou mesmo serventes de pedreiro.
Os provenientes dos chamados países de leste, tal como os nossos emigrantes, vieram em busca de trabalho que não tinham, num País acolhedor e hospitaleiro sem antecedentes racistas. Sujeitam-se aos trabalhos que os portugueses “agora” não querem fazer, preferindo fazê-lo longe do seu País e dos olhares dos seus conterrâneos.
Temos a construção civil cheia desses povos, muitos deles com cursos superiores, educados e trabalhadores.
Em contrapartida recebemos outros, principalmente do Brasil, pessoal feminino que não conseguindo emprego, ou não aceitando o que se lhe oferece, dedicarem-se à venda do seu corpo.

A maioria dos imigrantes ao entrarem em Portugal tentam aprender a nossa língua e vemos muitos destes, em particular os de leste, com uma facilidade espantosa muito rapidamente dominam o português.
Na realidade é fundamental a aprendizagem da língua do país em que nos inserimos. Uma forma de comunicação e maior facilidade na integração nesse país. Não é por acaso que estes emigrantes são bem aceites em Portugal.
Qualquer português que emigre para França, por exemplo, se falar perfeitamente o francês depressa conseguirá uma colocação estável e bem remunerada. Caso contrário espera-o um emprego na construção civil onde a língua pouco importa.

Verdade seja dita: mercê dessa imigração a construção civil em Portugal vai laborando. Os construtores civis deveriam ter isto em atenção e pagar condignamente a esse pessoal.

O ditado “não faças aos outros, aquilo que não queres que te façam” deveria ser levado mais à letra.

Em busca de comida, procura de melhor ambiente, fuga aos Invernos rigorosos ou procura de acasalamento, os animais migram. O homem, por estes ou outros motivos, mas principalmente por procura de melhor salário, migram e cada vez mais. As migrações desenvolveram-se e aumentaram em todo o mundo nos últimos anos. A livre circulação de povos na zona euro, a evolução tecnológica dos transportes, a facilidade e rapidez com que nos deslocamos para qualquer parte do mundo, são a causa desse aumento desmesurado de migrações.

Na época, com regime ditatorial em que vivíamos, todos queriam viver condignamente e tentaram “a salto” um emprego e melhor salário num outro país. Sem saberem foram para o inferno.
Carlos Soares

quarta-feira, 29 de julho de 2009

ILHA VERDE


Depois de muitas viagens optei pela visita aos Açores. Nunca lá tinha ido. A ilha eleita foi a de São Miguel, talvez por ser a principal. Duma maneira geral sempre que viajo gosto de apreciar em pormenor o que visito. Percorri os 65 por 16 km da ilha, indo de vila em vila, aldeia em aldeia, destacando principalmente:










  • A LAGOA DAS SETE CIDADES, a ocidente da ilha.

  • A LAGOA DO FOGO, ao centro.

  • AS FURNAS, com a sua lagoa rasgada entre jardins e florestas carregada de flores, águas minerais e termais. O fervilhar das nascentes onde, por tradição se cozinha o famoso cozido.

  • O NORDESTE, a oriente da ilha, pelo Pico da Vara, com os seus 1080 mt. de altitude, onde o verde é mais verde e a mais florida vegetação deu o nome à "ILHA VERDE"






  • O ILHÉU DE VILA FRANCA, próximo da Vila Franca do Campo, uma Reserva Natural que dista cerca de 1km da costa.

    A sua gastronomia como a caldeirada de peixe, o cozido das Furnas, os mariscos, ananases, queijos, licores, chás, o famoso "Bolo Lêvedo", etc; a simpatia dos micaelenses, o ameno clima, os seus cinco séculos de história com as inúmeras igrejas centenárias dum interior riquíssimo, o asseio e limpeza das cidades, vilas e aldeias... e até o nevoeiro no cume das montanhas oferece uma beleza, um bem estar e um desejo de voltar rapidamente a esta ilha.









Lisboa, 28 de Julho de 2009




Carlos Soares

terça-feira, 28 de julho de 2009

PORTUGAL NO ORIENTE

Há pouco tempo, tendo reparado a existência do Museu do Oriente, em Alcântara, não resisti à tentação duma visita.
Eram 2 da tarde. Havia uma pequena fila para entrar. Aguardei pouco tempo e comecei pelo piso 0. “Máscaras da Ásia” – A visita não era guiada, mas as suas mensagens eram elucidativas.
Estas máscaras outrora ligadas a rituais religiosos, davam a conhecer o aspecto visível de seres sobrenaturais, ou divindades mitológicas. Hoje são utilizadas em danças, espectáculos, festas ou teatros.
Da mitologia hindu, os deuses “Brahma”, “Vishnu”, Shiva”, entre outros, estão representados nesta exposição. Foram as que mais me despertaram a atenção pela sua riqueza e policromia. Máscaras grandes vermelhas com adornos dourados. Havia-as também representando animais, como o crocodilo, o macaco ou o demónio. Mais adiante vejo outra máscara de “Shiva” sob a forma de caçador. Uma enorme cauda de pavão, em leque, contorna-a; missanga prateada brilhante e penas vermelhas enfeitam toda a máscara. Um trabalho de artista e de paciência.
Sri Lanka, Coreia, Indonésia, Tailândia, Japão, etc., estão representados nesta exposição com as suas não menos interessantes e diversificadas máscaras. Do Tibete chegam-nos as máscaras das filhas da Rainha dos Demónios… as coisas que aprendemos nestas exposições.
Subo ao primeiro piso por uma larga escadaria iluminada sob os degraus. É a exposição de Macau.
Máscara do teatro Wayan Wong (Indonésia)
As salas são escuras. As vitrinas expõem biombos, pinturas, sedas, marionetas, com uma iluminação muito ténue. As inscrições quase não se lêem. Fiz reparo disso a uma empregada. Foi-me informado que irão reparar essa falta. No entanto a luz de fraca iluminação é propositada, em virtude da preservação dos tecidos e desenhos que não devem estar expostos à claridade. De três em três meses são trocados por outros.
Nas paredes negras estão inscritos a branco os feitos, datas e nomes dos portugueses que aportaram a esses países do oriente no século XVI. As porcelanas, sedas e outros objectos de materiais raros e desconhecidos no ocidente, eram trazidos para a Europa.
Sendo os portugueses, o primeiro povo ocidental a chegar à China, as dezenas de crucifixos expostos são uma prova irrefutável dessa estada num mundo longínquo oriental de crenças pagãs.
Um dicionário datado de 1881 “Portuguez-China”, exposto numa vitrina confirma este feito.
Numa outra vitrina aprecio demoradamente uma maqueta de um pagode e de cada lado deste, dois altíssimos pagodes, com cerca de 14 andares cada. Pareceu-me feita de marfim e com tais pormenores que será um crime chamar-lhes de maquetas. O rendilhado, o trabalho minuciosamente recortado e pormenorizado, torna-a uma importante obra de arte.
No segundo piso o mesmo aspecto sombrio, paredes pintadas de preto, inscrições a branco. Sedas pintadas a negro e branco, marionetas, centenas de frascos de rapé estão expostos fazendo lembrar os actuais frascos de perfume. Porcelanas da Companhia das Índias, trajes de guerreiros japoneses, marionetas, estátuas, dragões, máscaras, poderão ser apreciadas neste piso. O Tibete, Japão, Índia, Timor, mostram-nos as culturas exuberantes, exóticas e milenares daqueles países.


Três horas depois saio da exposição. Medito e recordo Camões:

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto de alevanta.

Canto Primeiro – estância 3
São 17 horas. A fila para entrar é de uma extensão de umas centenas de metros.
É gratificante verificar o interesse que o povo português nutre pela cultura. Ou seria porque a entrada era gratuita?
Lisboa, 27 de Julho de 2009
Carlos Soares