domingo, 13 de dezembro de 2009

Fechado na despensa

Era uma vez um menino que, como muitos meninos, para além de ser um traquina de primeira apanha, metia o nariz em todo o lado ao ponto dos vizinhos fazerem queixas dele. Vivia com os seus dois irmãos e pais numa casa em Caldas da Rainha.


Chamavam-me Carlinhos; tinha eu na altura uns dez ou doze anos de idade. Nesse dia estávamos sozinhos em casa. Os meus pais tinham ido trabalhar e a empregada provavelmente tinha saído às compras e nós por certo estaríamos de férias.


«Vamos brincar às escondidas», gritou o Toninho, meu irmão mais novo. Depois do habitual 'um dó-li-tá' calhou-me ser eu a ir procurar os meus irmãos.


«Escondam-se enquanto eu conto até cinquenta»; mas em vez disso fui eu esconder-me dentro da despensa.


«Então?» Gritava um. «Não me vens procurar?» Resmungava o outro, e eu dentro da despensa, às escuras, aguardava pelo desfecho. Tinha invertido as posições, de procurador passei a procurado.


O reboliço dentro de casa era enorme, arrastavam-se sofás, abriam-se e fechavam-se portas e armários e eu caladinho que nem um rato, espreitava por uma brecha da porta. De repente, não sei como, um dos meus irmãos com a correria fechou-me a porta.


Antigamente as portas das despensas só abriam por fora e eu ali fiquei trancado. Nunca tive medo do escuro, além disso a qualquer momento bateria à porta e qualquer dos meus irmãos abriria. O recinto era minúsculo e desconfortável mas eu queria levar a brincadeira muito a sério. Ouvia-os gritar por mim: «Carlos! Onde estás? Já acabou a brincadeira, tu perdeste, não nos encontraste.»
Ao fim de algum tempo deixei de ouvir barulho, pensei: estão à espera que eu apareça, pensam que eu sou parvo...hão de esperar e desesperar.


Mais de meia hora depois continuava a reinar o silêncio. Bati à porta e nada, ninguém aparecia. Gritei, dei pontapés e murros na porta. Comecei a chorar, não havia ninguém em casa; que teria acontecido? Doíam-me as pernas de cansaço e tentei sentar-me no chão. Qualquer coisa atrás de mim impedia-me de o fazer. Encolhi as pernas e encostei-me. Com os pés forcei a porta mas o resultado foi um baque de alguma coisa a partir-se. De repente um líquido jorrou pelo chão e encharcou os meus calções. Levantei-me e as minhas mãos estavam besuntadas de óleo ou azeite. Dos meus calções escorria aquele líquido viscoso pelas pernas abaixo. Gritei, chorei, tacteei com as mãos procurando algum pano para me limpar. Encontrei penso que um pano de cozinha. Os calções estavam demasiado besuntados para poderem ser limpos com o pano. Tirei-os e tentei limpá-los. Em vez disso caíram-me ao chão. As minhas sapatilhas, meias e pés estão numa lástima. Procurei outro pano para limpar as cuecas. Todo o meu corpo estava coberto de óleo. O chão estava uma poça. Os meus calções deveriam estar lindos. Comecei novamente a chorar e a lamentar a brincadeira. Ouvi barulho dentro de casa e calei-me para escutar.


No primeiro andar, por cima de nós, vivia uma bruxa, sim uma bruxa que eu bem a tinha visto fazer bruxedo numa noite depois de jantar; enquanto a minha mãe lavava a loiça, eu subi sorrateiramente e espreitei pela fechadura. Havia uma ténue e tremida luz dentro da casa, como se de uma ou várias velas estivessem acesas. Umas vozes que vinham do além sussurravam numa ladainha. Fugi, corri pela escada abaixo aos gritos.
A bruxa desceu e veio falar com a minha mãe. A sua voz era inconfundível e ficou-me nos ouvidos durante muito tempo.


Agora era essa voz que eu dentro da despensa ouvia juntamente com a do meu irmão José Maria, gritando: «senhor guarda, o Carlinhos estava aqui, a brincar connosco...»
Entrei em pânico; uma bruxa e um polícia? Eu ia ser preso em cuecas. A bruxa e meus irmãos gozariam comigo. Não, isso era demais, não deixaria que isso acontecesse. Tive receio que o óleo derramado passasse por baixo da porta e me denunciasse. Com os panos tentei tapar a eventual saída do óleo. Aguardaria que todos saíssem e depois os meus irmãos abrir-me-iam a porta. Eram mais uns minutos de paciência. Esperei. Não sei quanto tempo aguardei. Uma hora? Três? Dez? Não sei. Só sei que tinha fome, frio, queria sair daquele inferno, comer, tomar banho e dormir. Tão depressa o silêncio era absoluto como toda a gente falava sem eu aperceber quem e que diziam. Chorei baixinho com medo e vergonha, rezei fervorosamente à Nossa Senhora de Fátima, prometi montes de coisas à Senhora se dali saísse sem vexame.
Muitas horas depois ainda chorava, batia e pontapeava a porta sem que alguém me socorresse. Estava desesperado, já não me importava de ser preso em cuecas ou ser gozado pela bruxa e meus irmãos. Eu queria sair dali fosse de que maneira fosse.
Na escola, para além da aprendizagem da leitura e contagem, tínhamos aos sábados a ginástica e a Mocidade Portuguesa onde eu aprendia a sobrevivência na montanha, a orientação pela bússola e pelas estrelas, pelo musgo nas árvores; mas não aprendemos como sair duma despensa fechada por fora e sem iluminação por dentro. Tudo isto me passou pela cabeça e foi então que me lembrei de procurar às apalpadelas tudo o que houvesse dentro daquele recinto: um martelo, uma gambiarra uma tomada de electricidade, uma lanterna, machado, faca, tesoura. Qualquer coisa serviria, não sei para quê, mas tinha de procurar.
As horas passavam; não sabia se eram onze da manhã se onze da noite; os meus pais não chegavam; os meus irmãos desapareceram; a empregada, sim a empregada que acontecera? Às escuras, apalpando tudo o que havia naquele cubículo, deixei cair qualquer coisa que se partiu e derramou no chão. Um forte cheiro espalhou-se no ar. Tinha partido a garrafa do petróleo para o fogareiro. Mais uns pontapés e murros na porta desferi a fim de refrear os meus instintos. Decididamente não estava nos meus dias. Em pranto prometi tudo a todos os santinhos, prometi ser bonzinho, ir à missa, confessar-me, ser bom para os velhinhos, ajudar os necessitados, estudar e não mentir aos meus pais.
Continuei a apalpar tudo o que estava ao meu alcance mas desta vez com o máximo cuidado. O intenso cheiro a petróleo misturado com o óleo era horrível. Às apalpadelas dei com uma caixa de fósforos. «Eureka!» gritei. Já tinha luz.
Com as mãos encharcadas de óleo e tentando não sujar muito a lixa da caixa, abri-a com cuidado e tirei um fósforo. Tentando não molhar a lixa, risquei o fósforo.
Uma claridade imensa inundou o recinto. Um companheiro da Mocidade Portuguesa à porta perguntou-me: «o que se passa? Porque gritaste?"»
Olhei em volta. Estava na tenda de campismo da Mocidade Portuguesa encharcado em suor, o calor era abrasador.
Tinha tido um pesadelo.

1 comentário:

  1. Parabéns ao ex-colega Carlos Soares. Não lhe conhecia esta faceta. Sabia que redigia bem,embora não tivesse lido nenhuma das suas estórias. Gostei,fez-me regressar à infãncia!!!
    "Quem me dera ser pequenina outra vez".....
    Bem haja, e continue.
    Um Beijinho da Marta Louro

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