terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

FUI RAPTADA (Memórias de Lolita)

Sou muito bonita, com os meus grandes olhos verdes qualquer gato se renderia à minha beleza. Fiz quatro meses há dias. Chamo-me Lolita. Os meus donos adoram-me e são muito ternos para comigo. Embora eu também goste muito deles, de vez em quando faço as minhas partidinhas.
Eles sabem perfeitamente que eu gosto de companhia; se estão na cozinha, vou para a cozinha; se estão na sala, vou para a sala. Não é preciso ser tão inteligente como eu para compreender que não gosto de estar só, mas eles não entendem e por vezes saem e deixam-me sozinha. Eu vingo-me e faço das minhas.
Um destes dias, estando sozinha em casa, resolvi investigar todos os cantinhos das prateleiras e sem querer deitei abaixo uma jarrinha azul. Foi giríssimo o som que daí adveio e a transformação em dezenas de jarrinhas que se espalharam pelo chão. Só me apercebi de que procedera mal quando a minha dona chegou a casa. Os gritos que ela deu e o correr atrás de mim deixaram-me apavorada. Não percebi bem porquê. A culpa não tinha sido minha, a jarra é que estava muito à beirinha e caiu. Lá consegui escapar de uma palmada.

Há dias meteram-me numa caixinha com uma janela e fui ao senhor doutor, que me deu uma pica. Era um senhor simpático e não me magoou. Não gostei do que os meus donos perguntaram ao doutor, se eu tinha pulgas. Eu que sou uma gatinha tão asseada, não tenho pulgas. O facto de me coçar é um vício que vem dos meus pais. Eles também o faziam.

Eu compreendo tudo o que os meus donos dizem. Eles, não sei porquê, não me entendem (será que não são tão inteligente como eu?) Quando me dizem para não fazer isto ou aquilo, não ir para cima disto ou daquilo, eu faço e vou só para os enfadar e depois fujo para não levar uma palmada. Gozo à brava com isso.
Deram-me uma bola de borracha para eu brincar, mas o que eu gosto é das nozes, rebolam pelo chão e fazem tric, tric, tric. Pena é que fujam para debaixo do sofá. Não entendo a razão por que não cortam as pernas ao sofá.
O meu dono disse-me que me ia apresentar ao Ronaldo. Não sei quem é o figurão. Será que joga melhor do que eu?
A minha dona diz que eu sou uma princesa. Não percebo a razão. Sou republicana, até nasci no dia 5 de outubro…

Corro a casa toda, numa correria que ninguém me apanha. Há dias o meu dono disse-me: «não corras tanto que ainda cais.» Não percebi. De vez em quando vou de encontro à porta ou dou uma cabeçada nos móveis, mas, cair?

Quando o meu dono está no computador eu corro para o seu colo e carrego no teclado, logo aparece no ecrã uma data de letras. Se vissem como eu escrevo bem… mas ele deve ter medo que eu aprenda a trabalhar e não me deixa. Também não me deixa ler os livros que ele lê.
Com tantas restrições pergunto-me: por que razão me raptaram e me tiraram dos meus pais e irmã? Agora terão de me aturar e eu continuarei a fazer o que quero e me apetece.
De qualquer forma devo confessar que sou uma gatinha feliz.

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