Estava uma noite fria. O hotel onde se hospedara na cidade do Porto era confortável. Ninguém circulava na rua. Sair dali seria uma tolice e se o fizesse iria para onde? Discotecas, não era o seu género, além de que já passara essa fase. Embora de aspeto muito mais jovem, aproximava-se dos 50 anos. A sua aparência e porte era a de um homem de negócios, respeitável, embora mulherengo, mas discotecas não eram locais onde se sentisse à vontade. Solteirão sim, mas não doidivanas. As suas conquistas eram em todo o lado menos em discotecas.
O hotel estava repleto. Muitos médicos de todo o País tinham-se hospedado ali, a fim de assistiram a um simpósio oferecido por um laboratório farmacêutico.
O cavalheiro respeitável tinha acabado o jantar e dirigiu-se ao bar a fim de tomar café. As poucas mesas vagas situavam-se no centro da sala. Depois de dar uma mirada pelos clientes que ocupavam os lugares escolheu um vago e sentou-se. De imediato o empregado se aproxima. Pede um café e um conhaque. Disfarçadamente olha em volta, no seu raio de visão que abrangia perto dos 180º. Um casal de meia-idade do seu lado esquerdo não lhe pareceu pertencer ao grupo de médicos que enchiam a sala. Em frente, mas a certa distância, um jovem na casa dos 25 anos também lhe pareceu não pertencer àquele grupo. Era um jovem bem vestido e com aspeto simpático. Um pouco à sua direita, duas senhoras com cerca de 30 anos, poderiam, estas sim, pertencer ao grupo dos médicos. Cumprimentaram-no com um aceno de cabeça. Tinha-as conhecido nessa manhã, ao registarem a sua entrada no hotel, tal como ele. Lamentou não ter ficado mais próximo delas. Eram duas senhoras com muito charme e poderia ter entabulado conversa com elas. Estava só…
O jovem à sua frente sorriu-lhe e ele retribuiu o sorriso. Tê-lo-ia reconhecido? Não era provável. Embora fosse um comerciante de sucesso, não era assim tão figura pública como muitos dos médicos presentes. Agora fazia-lhe uma ligeira vénia. Estranho. Estaria a “engatá-lo?” Não era possível. Quando era novo um ou outro cavalheiro o cortejara. Nunca ligou muito a isso, mas agora ele com quarenta e muitos anos ser cortejado e ainda por cima por um jovem que poderia ser seu filho, era impossível. Sentia-se um homem atraente ainda, mas não para homens. Tentou não ligar e abstrair-se do seu olhar. Todavia o rapazola não tirava os olhos dele. Fazia-lhe olhinhos ternos e começou a sentir-se incomodado. Olhou em volta e pareceu-lhe que todos os presentes o olhavam. O incómodo daquele olhar começou a irritá-lo. Não podia mudar de lugar. Agora o bar estava apinhado. Mesas vagas, nem uma. Tentou olhar as duas senhoras, prováveis médicas, como que a pedir-lhes: olhem para mim. É de mulheres que gosto, não de homens, mas elas estavam absortas a conversar e não reparam nele. O rapaz da frente continuava a olhá-lo com persistência. Com gestos parecia pedir-lhe para se sentar na sua mesa. Virou-se discretamente, olhou em volta como que a pedir auxílio. Nisto, o rapazinho levanta-se e dirige-se a ele. Fica vermelho de vergonha. Tenta disfarçar, brincando com o balão de conhaque. Nunca tal lhe tinha acontecido. Era a segunda vez nesse dia que ficara vermelho de vergonha.
Nessa manhã o respeitável cavalheiro comerciante entra numa perfumaria, da avenida da Boavista. Duas clientes na loja estão a ser atendidas pela jovem empregada, não menos atraente que as clientes. Habituado a lançar piropos às garotas, não resistiu à jovem loura e bonita de grandes olhos azuis.
«Que perfume usa? Gostaria de comprar um desses para oferecer.» A jovem loura olhou-o com uns olhos que o fulminaram. Virou-se para a amiga e sem mais o olhar comentou: «olha o velho.»
Vermelho de vergonha e de raiva saiu sorrateiramente sem uma palavra, não deixando de ouvir os risos de troça das três idiotas atrás de si. Aquilo era demais. Nunca o tinham tratado de tal forma. Ele, que tinha todas as namoradas que quisesse…
Não se atreveu a entrar no carro que lhe tinha emprestado um amigo, um vulgar Ford já com alguns anos, enquanto o seu Mercedes 300SL fazia a revisão. Amanhã passaria pela perfumaria e pararia mesmo defronte da porta para mostrar à parva da empregada que não era um pindérico qualquer. Pena era que as outras lambisgoias não estivem lá também.
O rapazinho, sorridente, passa pela mesa do cavalheiro comerciante e, sem o olhar continua.
Espantado, o cavalheiro não pôde evitar de o seguir com o olhar e verificar que todos aqueles olhinhos, gestos e boquinhas não tinham sido para si, mas sim para uma jovem que, exatamente atrás de si o esperava.
Não há dúvida que estou velho, nem mesmo os homens me ligam, pensou o cavalheiro.
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