segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Debaixo da Ponte

Quem vem na marginal no sentido Belém/Lisboa, na Rocha Conde de Óbidos, depara com uma estrutura metálica, pintada de branco debaixo da ponte. Parece uma escultura e o seu aspeto é agradável à vista. A finalidade desta estrutura, para além de decorativa, destina-se igualmente à proteção da queda de objetos como parafusos ou outros provenientes dos carros ou comboios que circulam na ponte, para a via pedonal.
Decorria o mês de outubro e o verão teimava em não dar lugar ao outono. Estava uma tarde quente e desloquei-me até às Docas no intuito de aí passar uma tarde relaxante. Percorri o espaço comprendido entre Belém e Rocha Conde de Óbidos. Sob a ponte deparamos com a marina, dezenas de restaurantes, esplanadas, bares, etc., num espaço de laser onde alguns turistas a pé ou de bicicleta percorriam aquele espaço, olhando o estuário do Tejo. Do outro lado do rio, no alto do monte, Cristo de braços abertos parecia abraçar todos os que O olhavam.
Os restaurantes e esplanadas aguardavam a hora de jantar na esperança de alguns dos transeuntes ocuparem as mesas quase desertas. A crise parecia estar presente naquela tarde quente e agradável que convidada a uma bebida refrescante. Sentei-me e pedi um sumo fresco enquanto apreciava os poucos turistas que num vai e vem iam passando. Numa mesa próximo um casal de ingleses discutia com o filho por atirar parte da sua sandes ao rio e se deliciar a olhar as dezenas de tainhas que se atropelavam na caça aos bocados de comida que lhes eram oferecidos. Achei graça e apetecia-me fazer o mesmo.
Reparo num casal que, quase da minha idade, desce a plataforma que o leva ao barco acostado na marina. Pela idade e aspeto deveriam ser turistas reformados, aliás, quase todas as pessoas que por ali deambulavam pareciam ser turistas, embora muitos de aspeto jovem e endinheirados. Olhei à minha volta e reparei que, ao longe, também havia quem trabalhasse. As gruas não paravam. Carregavam e descarregavam os navios que partiam ou chegavam. Naquele espaço de laser o paradoxo estava presente: enquanto uns gozavam a tarde quente, outros trabalhavam.
Debaixo da ponte não só dormem os sem-abrigo, também há o outro lado da vida, os que trabalham nos bares e restaurante para satisfazerem aqueles que têm a merecida reforma ou gozam as suas férias. O mundo é feito destes contrastes.   
   

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