Era um domingo de julho. Às seis da manhã o Sol já prometia
um dia de intenso calor. Ramiro levanta-se e prepara um pequeno-almoço de torradas,
café, leite, bolachas, ovos mexidos com presunto e um jarro com sumo de
laranja. Coloca tudo num tabuleiro e dirige-se novamente para o quarto, pousa o
tabuleiro dá um beijo à esposa e anuncia:
«Bom dia
Isa. São horas de levantar.»
«Que horas
são?» Pergunta Isabel ensonada e abrindo os olhos, vê o tabuleiro com o
pequeno-almoço na mesinha de cabeceira, continua «há muito que não me
obsequiavas com este miminho.»
«Hoje é um
dia especial, amor.»
«É verdade
querido, obrigada.» Disse puxando o marido e beijando-o ternamente.
Ramiro e
Isabel, um jovem casal ainda em lua-de-mel, seguiam pela marginal com destino a
uma praia de Cascais. Naquele dia comemoravam o primeiro aniversário de
casados. Seguiam alegres acariciando-se mutuamente. Bruscamente um autocarro de
turismo que rodava em sentido contrário, sai da sua faixa de rodagem e vem de
encontro ao carro de Ramiro. Este tenta desviar-se para a direita, mas a parede
de um prédio impede-o de fugir. Isabel dá um grito e desmaia.
Aquela
manhã de domingo tornara-se numa tragédia não só para os acidentados, como
igualmente para todos aqueles que pretendiam passar o dia num merecido descanso
à beira mar. O trânsito fora cortado nos dois sentidos. As ambulâncias, polícia
e carros dos bombeiros a custo chegaram e com dificuldade conseguiram retirar
os dois corpos de dentro do carro de Ramiro.
Ramiro, o
mais sinistrado, parecia ter partido ambas as pernas, enquanto que, Isabel,
apenas com alguns hematomas no braço direito, despertara do desmaio e soluçava
convulsivamente.
Três horas
após o acidente, já no hospital, Isabel foi informada da operação do marido a
ambas as pernas. Iria ficar paralisado por alguns meses.
Isabel
visitava todos os dias o seu amado e foi com alegria que recebeu a notícia
desejada. Seu marido estava curado. A operação correra bem, apenas precisaria
de fazer fisioterapia durante algum tempo.
Três meses
após a operação e não sentindo melhoras, recorreu ao hospital. Após prolongados
exames, os médicos foram perentórios:
«O seu
marido está bom. Os ossos solidificaram na perfeição. Os nervos estão ótimos,
sem danos. Trata-se de um caso psicológico. O seu marido tem medo de se por de
pé.»
«Senhor
doutor, ele não consegue levantar-se.»
«Têm de ter
paciência e forçá-lo a reagir. Os exames não mostram quaisquer danos.
Psicologicamente pensa que não está bem, tem medo de pôr-se de pé. Force-o a
levantar-se. Não é muito comum, mas por vezes acontece os pacientes
amedrontarem-se depois de algum tempo de inatividade.»
Isabel por
muito que incutisse essa informação ao marido com os maiores cuidados, apenas
recebia respostas agressivas.
«Eu não
estou maluco. Se te digo que não consigo pôr-me de pé, é porque não estou bem.
A operação não correu bem. Esses médicos são uns idiotas.»
«Mas
querido, fá fomos a três especialistas e todos confirmam as mesmas teorias.»
«Acreditas
mais nos médicos ou em mim?»
«Amor,
acredito em ti bem sabes, mas esforça-te um pouco.»
«Sou um
estorvo para ti, sou um aleijado que não posso sair desta maldita cadeira.»
«Não digas
disparates, querido. Sabes bem que te amo e nunca te abandonarei, mas é para
teu bem que te peço para te esforçares e tentes dar um passinho com as
canadianas.»
«Estás
cansada de me ver inativo. Vai para a tua mãe e deixa-me.»
«Nem parece
teu, querido. Sabes bem que nunca te deixaria mesmo que estivesses de cama.
Amo-te e por nada te abandonaria.»
«Perdoa-me
Isa, mas acredita que não consigo pôr-me de pé.»
Estas eram
as conversas constantes entre o casal. Isabel, com uma paciência de santa, ia
apaparicando o marido com ternura e paciência. Consultou psicólogos, terapeutas
e um sem número de amigos sobre o caso sem todavia receber patologia eficaz.
Cansada de ver o marido sem força de vontade suficiente, resolve tomar uma atitude
drástica. Iria pôr à prova as suas próprias capacidades, esperando um milagre.
«Querido, amanhã
vamos almoçar a casa de minha mãe? É o dia do seu aniversário, gostava de lá ir
se não te importasses.»
«Porquê
importar-me amor? Está bem, vamos. Compra-lhe uma prenda e, da minha parte, um
ramo de flores.»
«És um
querido, mas não te preocupes que já comprei tudo.»
Isabel
amava o seu marido e o seu sofrimento era o dela. Acreditava nos especialistas
e não tinha dúvidas de que o marido poderia curar-se, não fora o caso de psicologicamente
sentir-se um inútil incurável. Recorrera a psicólogos fingindo-se
fisioterapeutas, mas não resultara. Houve mesmo um dia em que o Ramiro dissera
à mulher.
«Querida,
eu sei que queres que eu me cure. Não o desejas mais do que eu. Acredita que eu
não estou maluco, não vale a pena levares-me a psicólogos disfarçados de
fisioterapeutas, como o fizeste da última vez. Vês bem que faço exercícios
diários e se não consigo pôr-me de pé é porque não estou ainda curado.»
«Como sabes
que era um psicólogo?»
«Conheço
demasiado bem os fisioterapeutas e este último nada percebia do assunto.»
«Perdoa-me
querido, mas gostava tanto que te curasses…»
«Estás
cansada de me ver assim, mas acredita que eu estou muito mais.»
Estas
conversas sucediam-se e Isabel, sempre carinhosa, tentava convencer o marido de
que estava curado.
«Repara nas
tuas pernas, amor. Estão musculosas como antes do acidente.» Dizia Isabel
apalpando-lhe as pernas.
«Mas não
tenho força nelas.» Queixava-se.
Estava uma
manhã fria de inverno. Isabel levantou-se cedo e como habitualmente ajudou o
marido a tomar banho e preparou-lhe o pequeno-almoço. Era o dia de aniversário
da mãe e tal como tinham planeado, iam almoçar a casa dela.
Durante o
almoço Isabel parecia longe, abstrata, alheia à conversa animada entre a mãe e
o marido.
«Isabel!
Estou a falar contigo, não me respondes.» Exclama a mãe.
«Desculpe
mãe. Estava tão longe…»
«É por
minha causa, mãe.» Interrompe Ramiro dirigindo-se à sogra.
«É sim, por
tua causa. Não tens força de vontade. Por muito que te incutam no teu cérebro
que estás curado, continuas apegado a essa cadeira como se fosses um inválido.»
Retorque Isabel num tom zangado.
«Então
filha, o teu marido não tem culpa do que aconteceu.»
«Tem sim
mãe, há mais de três meses que os médicos o deram como curado e eu não vejo
força de vontade suficiente para largar aquela maldita cadeira.» Diz Isabel com
as lágrimas a quererem brotar. Ramiro não respondeu. Limitou-se a olhar a sogra
e encolher os ombros. Já estava habituado àqueles desabafos da mulher.
O almoço
tinha-se prolongado e Isabel não querendo regressar a casa de noite despede-se
da mãe e conduz o seu marido para a saída. Mete o marido dentro do automóvel e
fecha a cadeira de rodas no porta-bagagens.
Isabel
estava revoltada, apetecia-lhe bater no marido, sacudi-lo, chamá-lo à razão.
Vingou-se na condução acelerando mais do que era seu hábito a ponto de o marido
exclamar:
«Cuidado
Isa, Vai muito depressa.»
«Quero lá
saber. Se tiver um acidente fico como tu, paralítica.» Gritou Isabel acelerando
mais.
«ISABEL!
PARA. Ainda nos matas.»
«É isso que
eu quero, morrer. Estou cansada, desiludida. Farta desta vida.» Profere Isabel
já lavada em lágrimas.
«Por favor
Isabel. Para um pouco até te acalmares. Vamos conversar.»
Isabel
afrouxa um pouco, mete por uma azinhaga e para o carro não muito longe da berma
de um rio sobre o qual atravessava uma ponte. Chora convulsivamente. O marido
tenta acarinhá-la, mas o resultado foi negativo. Isabel, desta vez aos gritos,
sai do carro. Senta-se sobre a frente do carro e bate com os punhos fechados
sobre o capot. Bruscamente corre em direção ao rio. Sobre à ponte e dirige-se
para a balaustrada. Ao tentar transportá-la ouve um grito do marido.
«ISA! OLHA,
ESTOU DE PÉ.»
Isabel
abandona do seu intento e olha para trás. O seu marido, de pé, tentava dar os
primeiros passos após tantos meses de inatividade. Isabel sorri e corre de encontro
ao marido.
Três meses
depois Ramiro estava completamente restabelecido, abdicando das canadianas que
o tinham ajudado na recuperação.
«Vês meu
amor que eu tinha razão? Foi preciso pregar-te um grande susto para tu acordares.»
«Foste a minha melhor terapia
querida. Atiravas-te da ponte se eu não me tivesse posto de pé?»
«És tonto
meu amor. Amo-te demasiado para perder-te. Não sou cobarde ao ponto de me matar
para não enfrentar os problemas. Tinha tudo estudado para ver se reagirias. A
farsa começou em casa da mãe, o choro, a velocidade, a corrida para a ponte e
pelo que vês… resultou.
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