quinta-feira, 26 de março de 2015

O "Secretário"

            Naquele liceu lisboeta todos ou quase todos os alunos desfrutavam de uma conta no Facebook. A Rita, uma linda garota de 17 anos, mas com corpo de mulher, não era exceção. Uma aluna exemplar e estudiosa que era respeitada pelos colegas, uma vez que namorar não estava nos seus planos, achando-se ainda muita nova e o apego aos livros era a sua prioridade. Queria acabar o liceu e seguir para a Universidade. Todos ambicionavam a sua companhia, a sua amizade e apenas isso lhes era oferecido.
            Num sábado de maio Rita abriu o seu computador ligando-se ao facebook. Um pedido de amizade aparece naquela rede social. Não era seu hábito aceitar estranhos no seu círculo de amigos, mas a curiosidade levou-a a investigar quem lhe pedia para a adicionar. Não havia amigos comuns nem frequentava já o liceu. Era um universitário em direito, com 21 anos. Rafael, assim se dizia chamar, tinha um charme que não passou despercebido à Rita. A sua fotografia era a de uma rapaz já homem e reconheceu que era um rapaz muito diferente dos seu colegas de liceu e dos amigos. Hesitou, mas logo de seguida o adicionou. De momento não estava em linha e Rita, já agora, gostaria de saber o que pretendia aquele encantador rapaz. No seu “currículo” meia dúzia de fotografias, duas delas em capa e batina. Estudava na Faculdade de Direito. Não tinha fotografia de amigos nem de familiares. Tão pouco dizia o local onde vivia. Provavelmente seria daqueles rapazes discretos que não gostam de contar a sua vida a estranhos, pensava Rita. Durante o resto da tarde não lhe saia do pensamento aquele Rafael. Jantou à pressa e correu para o computador. Rafael continuava a não se ligar à rede; que andaria ele a fazer? A ansiedade tornou-se tão obsessiva que Rita, se admoestou a si própria.
            Tentou esquecê-lo entretendo-se a comentar esta ou aquela fotografia inserida pelas amigas.
            Já tinha esquecido o Rafael se não lhe aparecesse no canto inferior do seu monitor a informação de que este estava em linha. Gostaria de entrar em contacto com ele de imediato, mas achou contraproducente. Aguardaria o seu contato.
            «Olá Rita!» Apareceu no computador.
            «Boa Noite Rafael, quem és tu?»
            «Desculpa ter-te pedido para me adicionares, mas, ao procurar uma amiga minha, Rita Xavier, vi a tua foto e não resisti. Parecias uma barbie.»
            «Está a gozar comigo?»
            «Rita! Não te conheço e mesmo se te conhecesse, não é meu hábito gozar com alguém. Apenas te quis dizer que te achei muito bonita, por isso te pedi para seres minha amiga.»
            «Está bem, aceito. Andas a estudar direito?»
            «Ando no 2-º ano, e tu?»
            «Ainda ando no liceu, no 11.º»
            «Chumbaste?»
            «Eu, porquê?»
            «Ainda andas no 11.º…»
            «Tenho 17 anos, querias que andasse já na Universidade?» Disse Rita, arrependendo-se de imediato de ter divulgado a sua idade.
            «Pensei que tinhas 19 ou 20 anos. No Facebook não tens o ano do teu nascimento…»
            «E agora, achas-me uma criança?»
            «Nem por isso. A tua fotografia e a maneira com escreves, sem as infelizes abreviaturas, mostram que és uma mulherzinha muito mais velha.»
            «Agora chamas-me velha?»
            «Tontinha… referia-me à tua avançada adolescência, quase uma senhora.»
            «Quase?»
            «Ritinha! É uma força de expressão. Claro que és uma senhora, uma senhora muito jovem, muito bonita e que não gosta de brincadeiras.»
            «Que sabes a meu respeito?»
            «Por enquanto nada ou quase nada, mas espero vir a saber muito, se me deres oportunidade.»
            «Olha, a minha mãe está a chamar-me. São hora de me deitar. Amanhã estás em casa?»
            «Sim, tenho muito que estudar, mas para ti arranjo um bocadinho.»
            «Ok, uma boa noite.» Respondeu Rita, mas sem desligar.
            «Boa noite Ritinha. Vou sonhar contigo.» Ainda aguardou uns segundos antes de desligar na expectativa de mais uma mensagem da sua Barbie
 
            Rita e Rafael comunicavam-se agora em vídeo, por Skype. Tinha decorrido um mês desde a primeira conversa no Facebook. As conversas começaram a ser constantes e amorosas. Rafael era simpático, amável e terno e pretendia um encontro, mas sabia comportar-se como um verdadeiro cavalheiro e isso agradava sobremaneira à Rita que estava igualmente desejosa de um encontro. Curiosamente Rafael não lhe tinha pedido o número do telefone e Rita também não viu necessidade de lho dar, uma vez que se contactavam diariamente.
            «Gostava de te ver pessoalmente, tomar uma bebida contigo, sentir o teu cheiro, olhar-te nos olhos e dizer-te que és linda e como gosto de ti, Barbie.»
            «Estava a ver que não mo pedias, Rafael.» Disse entusiasmada Rita.
            «Receava que me interpretasses mal…»
            «Hoje é quinta-feira. Pode ser no sábado Rafael.»
            «Este próximo?» Perguntou embevecido Rafael.
            «Sim. Onde?»
            «Escolhe o sítio. Para mim qualquer um está bem.»
            «Moras em Sintra. Podes vir a Lisboa?»
            «Claro, não pretendo que venhas que venhas para aqui em transportes públicos
            «Conheces a Mexicana na Praça de Londres?»
            «Perfeitamente
            «Que tal às 4?»
            «Ótimo
 
            Rita, à entrada da Mexicana, não tirava os olhos da porta e do relógio, eram 4 horas e 10 minutos e ele não aparecia. Parecia impossível, num primeiro encontro e ele não aparecer. Começava a enfurecer-se e com uma vontade de abandonar aquele local. Não admitia aquela falta de educação. Olhou mais uma vez para o relógio e pediu a conta.
            «Perdoe-me.» Disse um cavalheiro bem vestido e correto, dirigindo-se a Rita. «É a Rita, a Barbie como lhe chama o Rafael, não é?»
            «Quem é o senhor?» Perguntou Rita admirada.
            O cavalheiro mete a mão ao bolso e tira a carteira mostrando a fotografia de Rafael.
            «Sou a pai de Rafael. Infelizmente não pôde vir, teve um pequeno acidente…»
            «Que lhe aconteceu?» Interrompe Rita com preocupação.
            «Nada de grave. Esta manhã tropeçou e torceu um pé. Levei-o ao hospital e deixei-o em casa agora mesmo, com o pé ligado. Ele estava preocupado consigo e pediu-me para cá vir, como não tinha o seu número…»
            «Oh, que pena. Era o nosso primeiro encontro pessoal.» Exclamou Rita pesarosa.
            «A Rita não gostaria de lhe fazer uma surpresa?» Indagou o cavalheiro bem vestido.
            «Sim, mas como?»
            «Posso levá-la lá a casa e fazemos-lhe uma surpresa. Depois trago-a novamente aqui ou levo-a a sua casa.»
            «É uma ideia.»
            Saíram da pastelaria e dirigiram-se para um faustoso Mercedes preto. O cavalheiro abriu a porta e ajudou Rita a entrar, deu a volta e sentou-se ao volante. Rita sorria e parecia feliz enquanto passava os dedos pelo tablier do carro.
            «É um bonito automóvel. É novo?» Perguntou inocentemente.
            «Comprei-o o mês passado. Gosta de automóveis?»
            «Hum… nem por isso. O meu pai também tem um Mercedes.»
            «Que faz o seu pai?
            «É gestor de empresas.»
            «Quer que ligue o rádio?»
            «Sim.»
            O diálogo manteve-se durante alguns minutos e Rita ia baloiçando o corpo com moderação ao ritmo da música enquanto o cavalheiro falava, mas Rita parecia não o escutar.
            Iam a meio de IC 19 em direção a Sintra e a Rita parecia preocupada.
            «Mas que estupidez a minha, não conheço o homem de lado nenhum e meti-me dentro do carro. Estamos quase em Sintra e eu aqui sozinha. Agora é tarde, vou tentar mostrar-me calma…»
            O seu pensamento foi interrompido pelo grito do condutor.
            «RITA! RITA! Estava a dormir?» Perguntou baixando o tom.
            «Oh, não, desculpe, estava tão longe daqui…»
            «Será melhor eu telefonar lá para casa, não vá o Rafael estar a dormir.» Disse o cavalheiro pegando no telemóvel e, logo de seguida «só me faltava isto. Estou sem bateria. Empresta-me o seu?»
            «Não o trouxe, ficou também a carregar…» mentiu Rita com espontaneidade.
            «Não tem importância. Eu bato à porta antes de entrarmos.»
            Chegaram a Sintra e Rita cada vez mais nervosa, tentava sorrir disfarçando o receio, enquanto o carro saía da vila e metia por uma estrada que Rita conhecia como caminho para Colares.
            «Vocês não moram em Sintra?» Perguntou com um ligeiro tremor de voz.
            «O Rafael não lhe disse que morava em Galamares? É praticamente Sintra.»
            «Pensei que fosse mesmo na vila.»
            Depois de várias voltas dentro de Galamares, o Mercedes mete por uma estrada particular e poucos metros à frente deparam com um portão que dava acesso a uma vivenda. O portão abre-se à chegada do Mercedes e o cavalheiro bem vestido, com um sorriso exclama:
            «Já deram pela nossa chegada.»
            Aproximam-se da entrada principal da vivenda e o cavalheiro diz para a Rita.
            «Espere aqui um pouco que eu vou tocar à porta e saber se Rafael está a pé.» Disse saindo do carro e dirigir-se para a porta.
            Rita viu o homem tocar à porta e pareceu-lhe que falava para o intercomunicador. Olhou para trás e verificou que o portão se fechara após a entrada do carro. A vivenda era bonita, rés-do-chão e primeiro andar e tinha aspeto de estar habitada, duas das janelas estavam abertas e a brisa abanava os cortinados. Acalmou um pouco, sem contudo deixar de ter medo.
            «Estanho, abriram-lhe o portão e agora toca à porta. Teria ele um comando? E se eu agora fugisse? Ele iria atrás de mim? E se é verdade que moram aqui? Faria figura de parva.» Pensava Rita que só “acordou” quando a porta do carro se abre e o cavalheiro lhe diz:
            «Está acordado, está ao computador, venha.» Disse-lhe estendendo-lhe a mão.
            As pernas tremiam-lhe e ela disfarçou dizendo ter as pernas dormentes. Recompôs-se e lá saiu do carro. Entraram e seguiram por um pequeno corredor deserto, sem molduras ou quadros. O cavalheiro, sempre sorridente, convidou-a a entrar numa pequena salinha, acendendo a luz.
            «Espere aqui um pouco que vou chamar o Rafael.»
            A sala era pequena, uma secretária, uma cadeira, um armário com livros e um sofá enchiam-na por completo. Não tinha janelas para o exterior. Ficou de pé durante alguns minutos, olhou os livros através das vidraças e constatou tratar-se de livros de literatura estrangeira. Quem seria o pai de Rafael? Que faria? Que estaria ela própria ali a fazer? Sentou-se no sofá. Olhou o relógio eram quase cinco horas. Levantou-se, deu a volta à secretária e sentou-se na cadeira. Com cuidado abriu uma gaveta. Nada, estava vazia. Outra. Igualmente vazia. Levantou-se, apagou a luz e mergulhou na escuridão. Acendeu-a de novo. Voltou a espreitar para a vitrina dos livros e tentou descobrir a que diziam respeito. Tinham decorrido dez minutos e o Rafael sem aparecer. Voltou a sentar-se. Levantou-se de imediato e de mansinho foi abrir a porta e, qual o seu espanto, estava fechada à chave. Entrou em pânico. Bateu ligeiramente à porta e colocou o ouvido à escuta. Silêncio absoluto. Bateu com mais foça. Aguardou uns segundos. Nada. Pontapeou a porta, gritou, mas nada. Qualquer coisa estava errada.
            «Fui raptada.» Pensou.
            «Nada de pânico, pensa.» Disse para consigo própria.
            Meio minuto bastou e elaborou um plano. Começou por esconder o seu telemóvel debaixo do sofá. Fingiu telefonar para a mãe. Com a mão na orelha, como se falasse ao telefone, gritou junto à porta.
            «Mãezinha! Estou fechada num quarto em Galamares. ESTÁS A OUVIR?» Calou-se por segundos e encostou o ouvido na porta. Silêncio absoluto. Tentou novamente, mas desta vez aos gritos, saídos com vontade. Não, não estava ninguém em casa, por certo que se houvesse alguém já lhe tinham vindo tirar o telemóvel. Aguardou uns longos segundos e voltou ao sofá, pegou no telemóvel e acocorou-se atrás da secretária. Escreveu uma mensagem ao pai.
            «Paizinho, envio esta mensagem para ti para não assustar a mãe. Fui raptada. Estou em Galamares, perto de Sintra, numa vivenda, dentro de uma sala sem janelas para a rua. Vai à polícia e tentem localizar-me por favor. Tenho de desligar antes que saibam que tenho comigo um telemóvel. Vou deixá-lo ligado, mas em silêncio. Estou cheia de medo. Adoro-te pai. Salva-me por favor.»
            De seguida liga para o pai e muito baixinho diz:
            «Paizinho vê a mensagem que te enviei. Adeus.» Desliga de imediato o telemóvel sem esperar resposta e atira-o para debaixo do sofá. Tem esperanças que o pai e a polícia a localizem por GPS
Alguns meses antes
            Na rua da Sofia, a dois passos do Mondego em Coimbra, vivia Feliciano num quarto alugado. Era estudante na Faculdade de Direito. Uma certa manhã alguém bate à sua porta. Não estando presente, a sua senhoria abre a porta e recebe uma encomenda destinada ao seu inquilino, Dr. Feliciano. Recebeu-a e colocou-a em cima da secretária, no quarto do seu inquilino.
            «Boa tarde doutor Feliciano. Esta manhã chegou uma encomenda para si, deixei-a no seu quarto.» Disse a dona da casa ao ver entrar o seu inquilino.
            «Quem a trouxe?» Perguntou Feliciano ao ver o embrulho na sua secretária.
            «Não sei, era um rapazito, mas parece que vem junto uma carta dirigida a si.»
            A embalagem era a de um computador, Toshiba, e na realidade, uma carta sem remetente acompanhava a encomenda. Abriu e leu:
            «Caro Dr. Feliciano. Pretendemos fazer um estudo sobre o relacionamento dos jovens nas “Redes Sociais” via Internet e foi por nós o escolhido. Por razões óbvias o nosso nome não será divulgado e aconselhamo-lo a fazer o mesmo, utilizando um pseudónimo, por exemplo Rafael. Tão pouco deverá dar a sua verdadeira localização. O computador é nossa oferta e para o ligar deverá introduzir a palavra passe 20Rafael14. Tem todos os programas de acesso às redes sociais instaladas, tais como Facebook, Twitter e outras. Também foi instalado o Skype.
            A sua colaboração será recompensada e quinzenalmente receberá, a título de prestador de serviço, uma quantia que poderá ser aumentada dependendo da evolução do seu trabalho. Entraremos brevemente em contacto via Skype, para o seu novo computador. Bons êxitos. “Secretário”.
            Feliciano era um estudante de fracos recursos financeiros. Os seus pais viviam da lavoura, numa aldeia próximo de Leiria, mas dado o bom rendimento escolar de seu filho e a vontade que mostrara num curso superior, não hesitaram em fazer um esforço e enviar o seu filho único para a Universidade de Coimbra.
            Feliciano estava delirante com a oferta do PC de elevado valor que lhe era oferecido. Desconhecia qual o trabalho que iria ter de prestar, mas aguardaria o contacto.
            Jantou à pressa e dedicou a noite a inspecionar o computador. Tentou mudar a palavra passe sem sucesso. Não se preocupou muito. Era fácil de decorar: um “Rafael” no meio de 2014, ano em curso. Utilizaria esse nome para os seus futuros contactos.
            Já passava da uma da manhã quando reparou num contacto via Skype, aparecer em linha. O “Secretário”.
            «Boa noite Feliciano
            «Boa noite senhor…»
            «Secretário, trate-me por Secretário.» Respondeu uma imagem contra luz que não deixava reconhecer o seu interlocutor e continuou: «gosta do seu computador?»
            «É Ótimo. Por que mo oferecem?»
            «Para trabalhar para nós, precisa de um bom computador
            «Que pretendem que eu faça?
            «É simples. Vamos enviar-lhe contactos de jovens que aderiram ao Facebook. Só terá de as cativar e conseguir um encontro com elas no local que elas quiserem. Depois falaremos com os seus pais e serão eles a comparecer no local. Assim, alertaremos não só as próprias como também as suas amigas e família do perigo desses encontros com desconhecidos
            «Mas se eu contactar essas jovens não posso mostrar a minha fotografia nem falar via Skype, pode haver jovens de Coimbra que me conheçam.»
            «Não lhe enviaremos contactos de Coimbra, apenas de Lisboa e Porto. Por cada entrevista pessoal que consiga receberá, para além do que receber, um bónus extra. Por agora é tudo, muito boa noite.» O contacto de imediato foi cortado.
            Feliciano não podia acreditar no que lhe estava a acontecer “engatar miúdas” e receber dinheiro. Parecia-lhe fácil.
      
            Dois dias após este contacto, Feliciano recebe por correio eletrónico um nome e uma foto de uma jovem que deveria contactar via Facebook, “Rosa Inocêncio”. Três semanas depois um novo contacto. Ainda não conseguira encontro com a primeira e já lhe estavam a mandar uma segunda.
            Em três meses já tinha contactado seis jovens e conseguira encontro com três, 2 no Porto e 1 em Lisboa.
            Certa manhã, no restaurante onde almoçava, uma notícia na televisão aterrorizou-o. A fotografia de uma jovem que tinha desaparecido era exatamente aquela que ele contactara, havia um mês e com quem marcara um encontro, a Nela Ferreira, de Lisboa. Correu para casa e ligou o computador. O contacto dessa jovem tinha desaparecido. Temeu o pior, andaria ele a colaborar com alguém sem escrúpulos? Iria a Polícia descobrir que ele marcara um encontro com essa jovem? Algo de muito grave se estava a passar e certamente com a sua inocente colaboração. Aguardou pela noite para contactar o “Secretário”.
            De repente lembrou-se da Rita, a Barbie, com quem tinha marcado um encontro na Mexicana, em Lisboa, para o dia seguinte. Tentou contactá-la, mas sem sucesso. Nem no Skype nem no Facebook estava presente. Deixou-lhe uma mensagem para entrar em contacto urgente. Lamentou o facto de não lhe ter pedido o número do telemóvel.
            Cerca das onze da noite, o “Secretário” liga-se, como habitualmente, através do Skype.
            «Olá Feliciano, tudo bem?»
            «Boa noite Secretário. Ouviu a notícia na televisão do desaparecimento de Nela Ferreira?»
            «Ouvi, sim. Já a tinha ouvido alguns dias atrás e por isso a cortámos dos seus contactos a fim de não o incriminar. Nada receie, estamos a colaborar com a Polícia Judiciária. Ela não chegou a compareceu ao encontro que lhe marcou. Desapareceu nesse dia.»
            «Estou bastante apreensivo com tudo isto. Provavelmente vou desistir desta minha colaboração convosco.»
            «O Feliciano pode desistir quando quiser. Deixará de receber o dinheiro, mas pode ficar com o computador. Já o mereceu
            «Obrigado, vou pensar no assunto, mas confesso estou cheio de medo.»
            «Durma descansado e lembre-se que somos um departamento da P.J. que trabalha na sombra. Até amanhã.» Disse desligando de imediato.
            Feliciano não conseguiu dormir nessa noite, agarrado ao computador na esperança de falar com a sua Barbie, a quem começava a amar. Adormeceu agarrado ao computador. Acordou de madrugada e olhou o relógio, cinco da manhã. Foi deitar-se.
            Sábado, 11 horas e 30 minutos da manhã. Feliciano acorda com um pesadelo. Olha o relógio. Corre para o computador, mas a sua Barbie continuava desligada. Procura os contactos anteriores das jovens recomendadas pelo “Secretário”, mas não as encontra. Tinham sido apagadas. Apenas lhe restavam as 3 recentes com quem iniciara contacto. Volta a tentar o contacto com Rita e, com grande espanto, o seu já nome não aparece nos seus contactos. Tinha igualmente sido apagado. Entra em pânico. O que fazer? Tem uma ideia. Lava a cara, veste qualquer coisa decente e corre para a estação dos comboios. Desilusão. Não havia comboios a essa hora para Lisboa. Olha o relógio. São 3 da tarde, nem de táxi chagaria a Lisboa antes das 4. Volta para casa e abre o computador. Rita, nem sombra. O “Secretário” não estava ligado e mesmo que estivesse o que lhe diria? Desesperado, sem saber o que fazer, dá passos pelo quarto dando palmadas na cabeça.
            «Em que sarilhos me meti.» Pensa.
            Mais uma vez olha o relógio. São 4 horas. De repente lembra-se: «vou à Polícia.» Corre direito à esquadra.
            Atabalhoadamente conta tudo, desde a receção do computador, o desaparecimento de Nela Ferreira, o encontro em Lisboa com Rita para essa tarde. Enquanto falava, o agente ia anotando todos os pormenores.
            «Isto é um assunto muito grave. Enquanto contactamos com a Judiciária vá a casa e traga-me o seu portátil, teremos de o investigar. São quase 5 horas. Se a sua amiga foi inteligente, a esta hora estará em casa, caso contrário… não sei.» Diz o agente.                
 
            Na vivenda isolada de Galamares Rita chorava, de minuto a minuto consultava o seu relógio amaldiçoando a sua ingenuidade. Como fora tão parva e se deixara raptar daquela mameira? Sim, tinha sido raptada, estava fechada há quase meia hora. Não tinha janelas para a rua e já gritara o suficiente para que, se houvesse alguém por perto, já a teriam ouvido. Tinha esperanças que a Polícia e o seu pai aparecessem rapidamente. Quem seria aquele Rafael de quem começava a gostar? Estaria ele a colaborar com os raptores? Lembrou os bons momentos que passara naqueles últimos trinta dias, falando com o jovem universitário. Recordou-se que tentara tirar-lhe uma foto sem o conseguir. Nada lhe dissera, não pretendendo passar por inexperiente em computadores e também para que ele não pensasse que queria a sua fotografia. Tinha sim, a sua fotografia, tirada com o seu telemóvel. Desligara o seu vídeo para ele não se aperceber disso. Tinha-a ali mesmo no seu telemóvel, mas temia ir busca-lo aonde o escondera. Muitas vezes o olhava e beijava-o. Lembrou-se do malfadado Mercedes que tinha a matrícula com um 45, idade de seu pai. Lembrou-se do pai que faria aquela idade dentro de dias e prometera-lhe um jantar num luxuoso restaurante.
            Um barulho ao longe despertou-a dos seus pensamentos. De imediato colocou-se atrás da porta com uma cadeira pronta a rachar a cabeça ao primeiro que entrasse.
            Agora o barulho era mais audível, pareciam carros da Polícia e ambulâncias. Pôs-se à escuta. Ouviu tocar à campainha da porta e momentos depois uma voz através de um megafone, anunciava que iriam arrombar a porta se esta não fosse aberta. Correu a recolher o seu telemóvel. O pai tinha conseguido localizá-la. Telefonou-lhe.
            «PAIZINHO.» Gritou
            «Sim filha, estás bem?»
            «Sim paizinho. Está aqui à porta?»
            «Sim, estou com a Polícia.»
            «Oh que bom, não deve haver ninguém em casa, estou farta de gritar e o silêncio é total. Estou num quarto interior, sem janelas.»
            «Só mais uns minutos e já te cubro de beijos querida.»
            Já na Polícia Judiciária, Rita conta toda a história desde o conhecimento de Rafael até àquele momento. A Polícia pede ao pai de Rita que vá a casa recolher o computador da filha a fim de o examinar.
            «Não, não sei o nome do homem, apenas reparei que tinha aspeto de um cavalheiro, muito educado, com pouco mais de 40 anos.» Declarou Rita ao seu interlocutor. E continuou. «Reparei no Mercedes que parecia novo e ele disse-me que o comprara o mês passado. Também reparei que a matrícula terminava em 45, idade do meu pai.»
            Os inspetores sorriram e deram instruções aos colegas.
            «É muito útil essa informação, Rita. Se o carro não é roubado, em breve o encontraremos.»
            Entretanto chega o Pai de Rita com o seu computador.
            O inspetor pede a Rita para o ligar e procurar esse “amigo” Rafael.
            «É estranho. Não aparece o seu contacto.» Admira-se Rita.
            «Já calculava, devem tê-lo apagado.» Respondeu um dos inspetores.»
            «Não tens uma fotografia do Rafael?» Indagou outro inspetor.
            «Tentei tirar-lhe uma fotografia, mas não consegui, tive de recorrer a uma foto ao monitor. Está aqui no meu telemóvel.» Disse Rita mostrando-a ao agente.
            «Antunes. Digitaliza esta fotografia.» Disse o inspetor para o colega, entregando-lhe o telemóvel da Rita.
            «Que sabes desse Rafael?» Pergunta um outro inspetor.
            «É um estudante de direito. Anda no 2.º ano da faculdade, segundo ele disse.»
            «O nome deve ser falso, mas se a fotografia tiver um mínimo de qualidade e se de facto frequenta a Universidade, chegaremos lá.»
            Dois dias após as declarações de Rita na Judiciária, seu pai recebe um telefonema da Polícia. Pede a sua comparência com a filha na esquadra a fim de identificarem o presumível autor do rapto.
            «É o número 4.» Declarou Rita que através do vidro o reconheceu entre os 5 homens de número ao peito.
            «Tens a certeza?»
            «Absoluta.» Declara Rita bastante convicta.
            No dia seguinte toda a comunicação social falava do desmantelamento de uma rede de tráfico humano, operando em Lisboa e Porto, num total de 9 elementos, 4 portugueses e 5 estrangeiros.
            O método utlizado era angariar jovens estudantes de fracos recursos financeiros, incentivando-os a contactar garotas dos liceus através das redes sociais, seduzindo-as e marcando encontro com elas. Os seus serviços eram remunerados com a oferta de um computador, controlado por uma central, e um valor periódico que dependia dos encontros conseguidos. Os jovens estudantes eram convencidos de que estavam a colaborar com a Polícia no intuito de, nesses encontros, serem prevenidas as garotas, pela Polícia ou os próprios familiares que compareciam no local escolhido, do perigo a que ficariam sujeitas.
            Posteriormente a jovem era seduzida por um cavalheiro atraente e educado que comparecia ao encontro, intitulando-se pai do rapaz, a uma visita ao seu amigo que sofrera um pequeno acidente e não pudera comparecer.
            O grupo de sequestradores atuava há poucos meses, mas tinham já conseguido dois raptos, uma jovem de 16 anos, da qual descobriram o paradeiro e uma outra, uma garota de 17 anos que conseguira iludir o seu raptor, escondendo o seu telemóvel e contactando o pai que de imediato pôs a Polícia em busca da filha.
            Os contactos dos jovens eram apagados do computador logo que o encontro fosse marcado ou gorado.
          
            O “secretário” era o cabecilha desta rede. Tinha sido apanhado na sua casa em Lisboa. No seu escritório foi encontrado o servidor e através dele foi fácil identificar todos os computadores a ele ligados, as jovens contactadas, os estudantes que as seduziam e apanhar todos os implicados. Feliciano, após 2 dias de interrogatórios, foi considerado inocente.
            «Podes crer Rita, se não me recebesses eu dormiria à tua porta até o conseguir.» Declarou Feliciano muito ternurento.
            «És um tonto. Pensavas que te deixaria dormir ao relento? Trazia-te um cobertor.» Disse rindo Rita.
            «Agora nunca mais falo com ninguém desconhecido via Internet.»
            «E eu que saiba Feliciano. Ou Rafael? Brincou Rita.
            «Oh! Barbie, nunca mais me fale desse malfadado Rafael. Morreu. Agora sou eu quem te ama, minha querida.» Declarou Feliciano com afeto.
            Feliciano vive agora em Lisboa, num quarto alugado, bem perto da sua amada. Continua na Faculdade.

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