terça-feira, 28 de outubro de 2014

Fuga para a Liberdade


           Tudo parecia calmo naquela noite de sábado. O telefone não dava mostras de existir. O pessoal de serviço entretinha-se a jogar às cartas. Repentinamente o telefone deu sinal da sua existência. Alguém resolvera interromper o sossego daqueles agentes ao serviço do público.
           «Por favor venham depressa, a minha mulher foi baleada. Está morta
            Carros da polícia e ambulância irromperam na pacata vila da Aroeira. A receção dos policiais foi a de um homem à beira da estrada, louro, com cerca de um metro e noventa e olhos de um azul que fazia lembrar um husky, que bramia e gesticulava como um louco.
            «Aqui, aqui. Fui eu quem telefonou.» Gritou ele à chegada dos automóveis da polícia.
            Toda a vivenda parecia arrumada, não fora o caso de a sala de estar apresentar vestígios de alguém que lutara naquela divisão. Uma mesa com tampo de vidro estava estilhaçada e voltada. Junto ao sofá viam-se cacos de uma jarra de porcelana que provavelmente forra arremessada contra um armário com portas envidraçadas agora feitas em cacos. No chão, contorcido em posição estranha, um corpo de mulher. O sangue jorrava pelo peito da vítima. Uma arma de fogo jazia perto. 
            Paulo Salgado, proprietário de um stand de automóveis em Almada, local onde vivia, recebe um telefonema da polícia para se apresentar na esquadra com a máxima urgência. Atribui o caso ao assassínio da mulher e de imediato acorre à esquadra.
            O inquérito durou mais de três horas. Paulo morava em Almada, era sócio de um stand de viaturas em segunda mão e em Aroeira tinha a sua casa de fim de semana. Alegava que não tocara na arma, que no momento em que ia a introduzir a chave na porta ouvira um tiro. De imediato entrou e deu com a sua mulher estendida no chão. Um ruído nas traseiras fê-lo correr e tentar apanhar o eventual intruso.
            «Não receou que, estando ele armado, lhe desse um tiro?» Indagou o inspetor.
            «Nem pensei em tal, corri atrás dele com um ferro da lareira.»
            «Não reparou na arma que estava junto ao corpo da sua mulher?»
            «Só reparei nela quando voltei.»
            «E não lhe tocou?»
            «Não, não.»
            «Então como explica esta meia impressão digital do seu polegar nesta cavidade da arma?» Interrogou o inspetor mostrando-lhe uma fotografia.
            Paulo Salgado corou e confessou.
            «Fui imprudente e tarde de mais me apercebi do erro, por isso limpei-a, mas pelo que vejo, não o fiz convenientemente. Desta forma vou contar-vos tudo em pormenor.»
            Paulo tirou o lenço do bolso, limpou a testa e começou:
            «Ao meter a chave à porta ouvi um tiro. Corri para a sala e dei com o corpo da minha mulher estendido no chão encharcado em sangue. De repente ouvi a porta das traseiras abrir-se. Peguei num ferro da lareira e corri atrás do assassino. Este, ao saltar a cerca, deixou cair a arma no lado de dentro do quintal e não se atreveu a voltar atrás para a recolher, pois viu-me com um ferro na mão. Aquela cara não me era estranha, aquele olhar já o tinha visto não me recordo onde. Tenho tentado todos estes dias recordar-me onde já vira aquele rosto, mas sem sucesso. Peguei na arma com o intuito de o ameaçar, mas ele embrenhou-se pelo pinhal e nesta altura sim, tive medo de continuar a persegui-lo. Voltei para casa e certifiquei-me que a minha mulher estava morta. Telefonei para o 112. De repente lembrei-me da arma. Tinha as minhas impressões digitais. Tentei limpá-la o melhor possível a fim de a polícia não pensar que era eu o assassino. Juro-vos que esta é a verdade.
               A história ostentada pelo viúvo não convenceu a polícia.
           «Se tem advogado contacte-o. Por agora vai ficar detido preventivamente.»
            Paulo Salgado, o loiro de olhos de husky, estava detido há 3 meses num estabelecimento prisional de Lisboa. O seu advogado pouco adiantara no processo de prisão domiciliária. As pessoas que o visitavam eram poucas, salvo o seu advogado e um amigo de longa data que amiudadas vezes lhe faziam companhia. O seu amigo, o Pedro Alexandre, era um cavalheiro de estrutura idêntica à de Paulo. Usava uma longa barba preta e uma vasta cabeleira da mesma cor. Os olhos negros condiziam com a barba.
            «Está tudo pronto. Abri-te uma conta no BES, em meu nome. Tenho já os cartões de crédito e de débito. Aluguei-te uma casa em Lisboa, Alvalade.» Disse Pedro Alexandre ao seu amigo Paulo.
            «Estás preparado para o plano? Não temes as consequências?» Indagou Paulo.
            «Tenho o plano bem estudado. Tu, é que tens de ter muito cuidado.»
            «Passei estes três meses a tentar recordar-me de onde conhecia o assassino de minha mulher. Já sei quem é. Esteve no meu stand a comprar um carro. Pagou em dinheiro. Logo que aceda ao meu computador dar-te-ei o seu nome e morada. Arranja um detetive e quero todas as informações sobre esse cavalheiro, o que faz, que sítios frequenta, etc.» 
            Despediram-se com um abraço e um até breve.
            Domingo após o almoço Pedro Alexandre entra na prisão com uma mala de computador à tiracolo e, após identificação, dirige-se para a sala de visitas. Há muitos familiares na sala, o que agradou a Pedro. Rapidamente se dirige ao amigo.
            «Estás pronto?» Segredou Pedro ao amigo.
            «Sim.»
            «Vou para a casa de banho. Dá-me um minuto.»
            Pedro afasta-se e dirige-se para o WC. Um minuto depois entra o Paulo. Dois minutos chegaram e o cavalheiro de longa barba escura e mala à tiracolo sai. Diz ao guarda que vai ao carro buscar um livro para o amigo. Sem dar mostras de pressa, dirige-se para o automóvel, entra e arranca. Cerca de três quilómetros depois estaciona, retira um volumoso envelope do porta-luvas e mete-o dentro da mala do PC, confirma que não é seguido. Sai e apanha um táxi. Pede que o leve à estação de Santa Apolónia. Entra na estação, mas sempre vigiando o taxista. Mal este desaparece, olha em redor, sai da estação e apanha outro táxi até à estação de comboios do Areeiro. Procede da mesma forma, sempre atento a alguma perseguição e apanha um terceiro táxi, desta vez para Alvalade. Manda parar junto à porta de uma pastelaria, na avenida de Roma. Acende um cigarro, olha discretamente em redor, anda cerca de duzentos metros para trás e segue para a sua nova casa numa transversal. Procura o n.º 35. Tira as chaves do bolso e sobe ao 1.º andar. Por detrás das cortinas espreita para a rua. Tudo lhe parece calmo.  
            Na esquadra o guarda ao portão estranha o não regresso do sujeito de barba. Fala com o colega e vai dar uma volta pelas redondezas. Volta e conta o sucedido. De imediato entram vários guardas na sala de visitas e procuram o detido Paulo. Vão à sua sela mas não o encontram. É dado o alarme. Repentinamente ouvem um grito vindo da casa de banho. Um prisioneiro espavorido diz que está um homem morto na casa de banho. Acorrem e deparam com um homem de barba negra estendido no chão em cuecas. Espalhado pelo chão, um casaco e umas calças, uma carteira e mais uns objetos jaziam perto dele. Neste preciso momento o homem abre os olhos e grita.
            «Que me aconteceu? O Paulo?»
            Os guardas olham estupefactos para o homem.
            «Isso perguntamos nós. O que aconteceu?»
            «Não sei, vim aqui, e logo de seguida entra o meu amigo Paulo. Não sei o que me fez que eu devo ter desmaiado. Acordei agora.» Disse Pedro mostrando-se muito confuso e concluiu «chamem-no e perguntem-lhe. Eu também quero saber.»
            «Fugiu com a sua roupa e uma barba e cabelo postiços. Foi você que lhe trouxe esses objetos?»
            «QUEM?! EU?! Sou amigo dele, mas não pactuo com este tipo de coisas.» E olhando para o chão. «Olha! A minha carteira.» Baixou-se, apanhou-a e revistou o conteúdo. «Pelo menos deixou-me os documentos.»
            «Como se deslocou para cá?» Indaga um dos agentes.
            «Vim de carro.»
            «Veja se tem as chaves.»
            «Ou estão por aí espalhadas ou… não me digam que me roubou o automóvel.»
            Duas horas depois, após ter fornecido a identificação da viatura e prestadas declarações, saiu.     
            Paulo dirige-se à casa de banho. Tira a barba e cabelo postiços, as lentes de contacto castanhas escuras e olha-se ao espelho. «Já sou eu outra vez», diz para com ele próprio.
            A casa era enorme e ao longo do corredor havia dois quartos, uma sala, um escritório e uma boa cozinha e duas casas de banho. O frigorífico estava cheio.
            «Tenho comida para quinze dias.» Pensou.
            Abriu o volumoso envelope e verificou que continha mil euros em notas pequenas e dois cartões do BES em nome do seu amigo Pedro. Um envelope continha os códigos de acesso àquela conta, uma lista das despesas que Pedro tivera e a diferença para os 10.000€ que Paulo lhe tinha transferido, estariam à sua ordem no BES. Estava um telemóvel sobre a secretária. O amigo não esquecera nada. Apetecia-lhe telefonar para toda a gente, mas seria imprudência.
             Ligou o computador, o seu computador, que o amigo recolhera de sua casa em Almada. Tinha Internet. Abriu uma conta de correio eletrónico no gmail.com. Consultou o ficheiro de clientes do escritório do stand e procurou o nome daquele homem que lhe tinha adquirido o carro e pago em dinheiro. Ao fim de algum tempo descobriu o que procurava.
            Espreitou pela janela e tudo lhe parecia calmo. Tomou um banho e vestiu-se com a roupa que fora recolhida de sua casa. Serviu-se de um whisky, sentou-se no sofá e ligou a TV. O seu amigo Pedro por certo se teria desenvencilhado da encrenca em que fora obrigado a meter-se. Teria de o compensar.
            O noticiário em se nada referiu sobre a sua fuga, era ainda cedo. Estava nervoso. Aguardava um telefonema do seu amigo, não se atrevia a telefonar-lhe, seria perigoso. A sua cabeça não descansava, só pensava na sua mulher, no assassino, na prisão, no seu amigo. Bruscamente o telemóvel soa. Corre ao escritório, olha o mostrador e não reconhece o número, hesita. A sua hesitação foi tão longa que o telefone silenciou.
            «Que raio, porque não atendeste, se tens aqui um telefone é para atenderes.» Pensou Paulo.
            De pé, estático, olhando o telefone, não sabia o fazer. Levou-o para sala a sentou-se, mas de imediato se levantou. O telefone tocou. Desta vez não vacilou.
            «Sim?»
            «Sou eu o Pedro
            «Que alívio, de onde estás a telefonar?»
            «De uma cabina. Tenho receio que tenha o telemóvel sob escuta.»
            «Como decorreu a cena?»
            «Olha, agora és acusado de outro crime.»
            «O quê!?»
            «Sim, tive de te acusar de roubo da viatura. Não tive outro remédio e apresentei queixa. Onde o deixaste?»
            «No sítio combinado.»
            «Amanhã passo por lá, levo o carro e levanto a queixa. Ninguém te seguiu?»
            «Não, apanhei 3 táxis para despistar qualquer perseguição.»
            «Agrada-te a casa? Não te falta nada?
            «És um anjo. Não, tenho tudo o que preciso. Vou ficar por aqui 8 dias sem sair. Vou tentar engordar uns quilitos com a comida que me deixaste e vou mudar de visual.»
            «Ok. Eu telefono-te sempre de uma cabina para saber de ti. Já descobriste o paradeiro do fulano?»
            «Já, toma nota.» Paulo deu a direção e nome do “cliente”.
            «Tens 8 dias para investigações, não olhes a despesas, antes disso não mexo uma palha.»
            «Fica bem. Se necessitares de algo urgente envia-me uma e-mail, mas discreto. É preciso muita cautela.»
            «Está descansado. Mais uma vez muito obrigado por tudo o que fizeste. Um abraço.» 
            Durante uma semana Paulo não fez a barba. Pintou o cabelo e a barba de preto e colocou as lentes de contacto. Olhou-se ao espelho. Havia qualquer coisa que não lhe agradava, era a barba. Aparou-a no pescoço. Voltou a examinar-se. Agora sim, tinha um aspeto mais agradável. Tinha engordado um pouco. Parecia outro. Seria que o reconheceriam? As notícias anunciavam a sua fuga e a sua fotografia aparecia nos ecrãs da televisão, um homem louro de olhos azuis. Não era ele. O homem louro dera lugar a um cavalheiro de moreno de olhos negros. O creme de bronzear dera resultado. Não tivera ainda notícias do seu amigo, deveria estar a contactá-lo em breve. Estava cansado de estar em casa. Resolveu sair e dar uma volta. Iria arriscar. Teria de o fazer mais cedo ou mais tarde. Vestiu-se a rigor e meteu o telemóvel no bolso.
            Na avenida de Roma apanhou um táxi e foi até à avenida da Liberdade. Entrou no hotel Tivoli e dirigiu-se ao bar. Sentou-se ao balcão e pediu um café e uma aguardente velha. Discretamente olhou em volta, mas tudo parecia normal. Meteu conversa com o barman e cavaqueou um bom bocado com ele. Tentou abordar o assunto das notícias com muita cautela, alegando ter estado fora há quase um mês. O caso do louro fugitivo da prisão não foi referido pelo empregado, o que lamentou, mas pelo menos não deu mostras de o ter reconhecido. Perguntou se podia telefonar. Foi-lhe apresentado o telefone fixo e discou ao amigo.
            «Viva, como tens passado? Já conseguiste o que te pedi?»
            «Onde estás!?» Pergunta surpreendido Pedro.
            «No hotel Ritz, cheguei hoje. Vou ficar por aqui dois ou três dias.» Mentiu Paulo.
            «Logo telefono-te.»
            «Está bem. Até logo»
            «Ok. Tenho novidades. Logo falamos.»
            Desligou, e Paulo continuou numa amena conversa com o barman.
            Paulo acabara de jantar e preparava-se para mais uma noite de tédio a ver televisão quando o telemóvel tocou. Era mais uma vez uma chamada de uma cabine telefónica. De imediato atendeu.
            «Sim?»
            «Sou eu, o Pedro. Abre a porta. Estou a chegar.»
            Segundos depois Paulo abre a porta da rua e aguarda que o amigo suba.
            Pedro olha estupefacto para o amigo.
            «Quem és tu? Não te reconheceria se te visse na rua.»
            «Folgo em saber isso.» Responde Paulo desviando-se para dar entrada ao amigo.
            «Vim de táxi, mas está descansado que não fui seguido ou melhor, se fui despistei-os bem. Parei nas traseiras do centro comercial Roma e saí pela frente. Apanhei novo táxi e parei a uns bons metros daqui.»
            «Bom, vamos ao que interessa, que novidades me trazes.»
            «É um fora da lei.» Responde Pedro.
            «O quê?»
            «Sim, o teu amigo é um fora da lei. Já esteve preso várias vezes, uma por assalto a uma residência à mão armada e outras por furtos e agressões. É também um carteirista. Tem um cadastro invejável. É uma fraca figura, ninguém diria.»
            «Ainda mora na Amadora?»
            «Mora e frequenta os melhores bares de Lisboa, principalmente estes.» Diz o amigo Pedro apresentando-lhe uma lista e continua. «Tens de ter cuidado. Lembra-te que és procurado pela polícia.»           
            Paulo conhecia alguns daqueles bares, eram bem frequentados, não teria problemas em entrar neles e beber uma bebida. Estava desejoso de ver a cara do assassino de sua mulher. Teria de começar de imediato. Optaria pelo primeiro da lista. Durante 3 noites foi assíduo do primeiro da lista sem que o cavalheiro aparecesse. Tentou o segundo, e o terceiro, e o quarto. Começava a desesperar.
            Era sexta-feira, o Pavilhão Chinês estava repleto. Tinha lá estado na noite anterior. Três semanas tinham decorrido sem vislumbrar o cadastrado. Havia um lugar ao balcão ocupado por mais 3 cavalheiros. Senta-se e pede um whisky com muito gelo, sem água. Bruscamente um homem de estatura média com aspeto respeitável senta-se ao seu lado. Paulo estremeceu. Era o homem que procurava. Tê-lo-ia reconhecido? Era cliente habitual dado o barman o ter cumprimentado.
            «Boa noite senhor Rafael. O costume?»
            Sem dizer palavra, acenou com um hum hum.
            Paulo estava nervoso, mas não o demonstrou. Agitou o gelo no copo com a ponta do dedo, enquanto de soslaio o mirava. Não lhe pareceu que o Rafael o tivesse reconhecido. Teria de começar o teatro como planeara.
            Acenou ao empregado de balcão.
            «Mais um, por favor. Deixe o balde do gelo se não se importa.»
            Atestou o copo de gelo e brincou com ele fazendo-o girar com a ponta dos dedos. Discretamente, sem ninguém notar, vaza o líquido do copo no balde. Pede um terceiro, e um quarto procedendo de igual forma. Olha para o Rafael e eleva ligeiramente o copo numa saúde, que foi retribuída. Decididamente não o reconhecera. Liga um número imaginário do seu telemóvel e finge falar com um ligeiro tremular na voz. Fala muito baixo, mas não tanto que o seu parceiro do lado não ouvisse.
            «Olá Xico, amanhã passa lá por casa antes da 10. Tenho de ir ao banco depositar o dinheiro e assim levas já a tua parte. Tenho de estar no aeroporto antes do meio-dia.»
            «… …» Paulo fingiu escutar o seu interlocutor.
            «Não não, estou bem, obrigado, apanho um táxi.»
            «… …»
            «Estou no Pavilhão Chinês.
            «… …»
            «Não digas disparates, daqui a pouco saio, arrivederci. Olha, não te atrases, até amanhã.» E desligou.
            Enquanto falava, Paulo discretamente olhava o Rafael que fingia pensar em algo brincado com a caneta rabiscando a base de cartão onde pousava do copo.
            «Mais um whisky por favor.» Já ia no sexto.           
            Decorrera mais de uma hora e Paulo pediu o último whisky e a conta. Pediu para lhe chamarem um táxi. O seu vizinho do lado deixou uma nota de 20 em cima do balcão, despediu-se do barman e saiu apressado. Momentos depois o empregado anuncia que tem o táxi à porta. Levanta-se e sem pressas, finge caminhar razoavelmente sem tropeçar muito. Antes de entrar no táxi dá uma discreta olhada em volta. Um Peugeot branco, parado em segunda fila, parece prestes a segui-lo. Esboça um discreto sorriso. Entra e dá a sua morada ao motorista. Pelo caminho vai reparando que o Peugeot continua no seu encalço.
            São duas da manhã quando mete a chave à porta. Fingindo-se embriagado demora algum tempo a dar com a fechadura. Sobe ao primeiro andar, abre a porta e, sem acender a luz, espreita através da cortina. Lá está o descarado com uma descontração incrível defronte do seu prédio.
            «Estás à espera que eu acenda a luz para veres em que andar eu moro. Podes subir que eu apenas fechei a porta no trincoDisse para si próprio.
            Acendeu a luz, e preparou o esquema para a receção do intruso. Tinha tempo, por certo que o cavalheiro esperaria que Paulo adormecesse para lhe invadir a casa no intuito de o assaltar. Iria ser uma longa noite.
            Paulo segue até ao meio do corredor, abre a porta do escritório e acende a luz. Volta até à sala e apaga a luz. De uma outra janela espreita. Lá estava o cavalheiro deambulando para a frente e para trás de cigarro na boca. Manteve-se à espreita. Nisto vê que se dirige-se para o carro e entra.
            «Então, vais-te embora? Desististe? Não me faças essa desfeita camarada.» Pensou.
            Mas não, não se foi embora, permaneceu dentro do carro.
            «Vais voltar daqui a uma hora? Duas?» Pensou Paulo.
            Iria esperar. Dirigiu-se para o escritório, encostou a porta a fim de não deixar sair a claridade. Abriu um livro e olhou o relógio, eram duas e meia. Começou a ler embora o seu sentido fosse mais para qualquer ruido do que para a leitura.
            Não decorrera meia hora e já alguém tentava meter uma chave na sua porta. Apagou a luz e colocou-se num lugar estratégico. A escuridão era total. Aguardou no interior de um quarto junto à porta. O assaltante iria tropeçar no fio de nylon a meio do corredor. Um minuto bastou para que o larápio abrisse a porta. Sentiu a porta fechar-se e muito de mansinho uns passos aproximam-se. Repentinamente um tropeção. Acende a luz do corredor e depara com o cavalheiro estendido de barriga para baixo ao comprido e uma arma a poucos centímetros do corpo. Dá um pontapé à arma e outro nos rins do homem que se contorce com dores. Apoiou-lhe o joelho nos rins e com a mão esquerda apertou-lhe o pescoço contra o chão. Com a direita agarrou-lhe o braço e torceu-lho atrás das costas sempre com o joelho sobre o corpo enquanto ele gemia e esperneava. Amarrou-lhe os pulsos e logo de seguida os pés que não paravam de se agitar. Arrastou-o até ao escritório. Sentou-o numa cadeira. O homem transpirava e os seus olhos mostravam surpresa com um misto de terror. Não parecia o mesmo cavalheiro com ar respeitável ao balcão do bar.
            Paulo sentou-se em frente com um ar ameaçador.
            «O que me vai fazer?» Gemeu o homem.
            «Depende de como te portares.»
            «Quer dinheiro?»
            «O teu dinheiro roubado? Não. Quero que confesses o crime.»
            «Qual crime?
            «O crime de assassínio.»
            «Não matei ninguém.» Gaguejou o homem.
            Paulo levanta-se e dá-lhe tamanha bofetada que o sangue lhe jorrou pelo nariz.
            «Então? Confessas ou queres outra do outro lado?»
            O homem gemeu e a medo balbuciou qualquer coisa ininteligível.
            «Eu avivo-te a memória. Na noite de 24 de novembro mataste uma senhora, em sua casa na Aroeira.»
            «Eu não a queria matar, mas ela atirou-se a mim com uma jarra e a arma disparou-se.»
            «Sabes que alguém está preso pelo teu crime?»
            «Sim, sei.»
            «Então queres confessar o teu crime ou não?
            «Já confessei.»
            «Vais pô-lo por escrito, agora.»
            «O senhor é da polícia?»
            Paulo não respondeu. Dirigiu-se à secretária, colocou algumas folhas de papel e uma esferográfica sobre ela.
            «Queres escrever agora ou queres levar mais?»
            «Tenho de falar com o meu advogado.» Gaguejou.
            Paulo não se conteve e nova bofetada desferiu na cara do desgraçado. «O teu advogado é este.» Disse-lhe Paulo ameaçando-o com o punho cerrado.
            «Pode matar-me, mas eu não escrevo nada.» Sussurrou.
            «Não te quero matar. O mínimo que te posso fazer é enviar-te para o hospital com as pernas e braços partidos. Lembra-te que acabaste de assaltar a minha casa, armado.» E, dizendo isto, pegou num ferro da lareira mostrando-lho. O sujeito olhou o ferro e tremeu encolhendo-se todo.
            Paulo pegou na cadeira com o corpo do desgraçado e colocou-o junto à secretária.
            «Queres escrever ou queres levar?» Perguntou ameaçador Paulo.
            «Escrevo, mas terá de me libertar as mãos.» Implorou Rafael.
            Paulo libertou-lhe as mãos e recomendou.  
            «Vê o que escreves, quero que contes tudo em pormenor e assina com a assinatura igual à do teu cartão, caso contrário faço-te engolir a carta. Demora o tempo que quiseres, não tenho pressa.»
            «E depois de eu escrever, o que me vai fazer?»
            «Pôr-te na rua. Estou saturado de ti.»
            Dito isto sentou-se no sofá atrás de Rafael, fingindo ler.
            Rafael começou a escrever, riscou, rasgou o papel e pegou noutra folha, olhando para trás constantemente. Paulo fazia de conta que não via, continuando a sua leitura.
            «Já escrevi.» Vociferou Rafael.
            Sem pressa, Paulo levanta-se e pega na folha manuscrita. Lê a confissão e com um ar muito natural olha o seu prisioneiro. Sem desviar o olhar rasga em pedaços a folha acabada de escrever e com uma voz muito natural, ordena-lhe que abra a boca.
            «O quê!?»
            «Vais engolir todos estes papelinhos. Depois vais escrever novamente, mas a verdade, toda a verdade, sem esquecer um pormenor.»
            Rafael olhou atónito o seu carrasco e, pegando noutra folha, ia começar, mas uma forte bofetada fê-lo tombar juntamente com a cadeira. Com Rafael ainda no chão Paulo baixou-se e com o mesmo tom de voz calmo, disse.
            «Não ouviste o que eu disse?»
            «Sim, ouvi e ia começar a escrever.»
            «Disse-te para engolires todos estes papelinhos e só depois é que irias escrever.»
            Paulo levantou o homem amarrado e sentou-o novamente à secretária. Rafael chorava como uma criança, enquanto Paulo de braços cruzados se mantinha de pé do outro lado da secretária olhando o desgraçado.
            Rafael meteu dois ou três pedaços de papel na boca.
            «Não consigo engolir os papéis.» Gemeu.
            Sem dizer palavra, Paulo abrir o pequeno frigorífico de escritório, retirou uma garrafa de água e atirou-lha. Alguns minutos depois todos os fragmentos da carta tinham sido engolidos.
            «Vou sentar-me a ler, quando tiveres acabado diz-me, mas olha que, se faltar uma vírgula que seja à tua confissão, faço-te engoli-la, mas desta vez não é com água, é com os teus próprios dentes.» Verbalizou Paulo dirigindo-se par o sofá. Olhou o relógio. Cinco e meia da manhã.
            «O senhor dá a sua palavra que após eu acabar me posso ir embora?»
            «Só digo as coisas uma vez. Cala-te e concentra-te.» Desta vez a resposta foi tom ameaçador.
            Enquanto Rafael escrevia Paulo ia olhando para as costas de Rafael que parecia muito empenhado na escrita. Já ia pelo menos na terceira folha.
            «Coitado do homem acreditou mesmo na minha ameaça. Estou admirado comigo mesmo como consegui ser tão duro, mas tinha eu outra alternativa? Se não fosse assim não conseguiria a sua confissão.» Pensou.
            De dez em dez minutos Rafael parava e parecia pensar na frase seguinte.
            Já a luz do amanhecer espreitava pela janela quando Rafael deu por concluída a confissão.
            Paulo levantou-se, pegou nas folhas e voltou ao sofá, leu sem pressas. Estava tudo bem patente, desde a sua entrada na casa, a luta com a sua querida mulher, o disparo da arma, a entrada do marido e a fuga pelas traseiras. A arma caída no lado interior do quintal e o seu embrenhamento no pinhal com receio de levar um tiro com a sua própria arma fora apresentado na perfeição. Levantou-se, dobrou as folhas de papel e meteu-as no bolso. Rafael murmurou.
            «Era isso que queria? Não omiti nenhum pormenor. Posso ir?»
            «Espera um pouco. Vou lavar a cara e volto já. Não quero ouvir nenhum ruido.»
            Paulo dirigiu-se à casa de banho, tirou as lentes de contacto, barbeou-se e dez minutos depois regressa. Rafael parecia dormir, amarrado e recostado na cadeira. Pega no telemóvel e liga ao seu advogado falando em voz baixa.
            «Dr. Albuquerque, desculpe ligar-lhe tão cedo…»
            «Onde está!?» Interrompeu o advogado num sobressalto.
            «Oiça doutor, tenho comigo o assassino de minha mulher. Quero entregar-me às autoridades, mas levo comigo o verdadeiro assassino. Vou telefonar à polícia.»
            «Paulo, diga-me onde está que seguirei para aí de imediato. Não telefone a ninguém sem eu chegar.»
            Após ter dado a sua morada ao Dr. Albuquerque desliga o telemóvel e volta ao escritório.
            Rafael acorda ou finge acordar, olha com espanto para o homem à sua frente, sem barba e de olhos azuis.
            «Que é isto? Você é o dono do stand onde comprei o carro. Porque estava disfarçado?»
            «Sim, sou eu mesmo, mas deixa-te de perguntas.»
            «Esteve a telefonar para a polícia?» Interroga Rafael lívido.
            «Não, estive a falar com um amigo.»
            «Prometeu que me deixava ir embora. Pode desamarrar-me?»
            «Ainda não. Espera mais um pouco.»
            «Fiz o que me pediu, escrevi a minha confissão. Cumpri a minha parte, terá de cumprir o que prometeu. Liberte-me.» Implorou Rafael.
            «Eu cumpro o que prometo. Terás de esperar mais um pouco até à chegada do meu amigo.» Declarou Paulo dirigindo-se novamente para o sofá.
            Rafael ia ripostar, mas Paulo foi perentório quando o manda calar e esperar.
            Eram oito horas da manhã quando a campainha da porta soa. O Dr. Albuquerque entra de rompante, olha o Paulo com espanto.
            «Pintou o cabelo?»
            «Tive de me disfarçar, para poder investigar.»
            «Onde está o homem?»
            «Está lá dentro, amarrado.»
            «Bom, conte-me tudo.»
            Paulo sintetiza as três semanas que passou fora da prisão.
            «Arranjou a bonita e meteu o seu amigo Pedro em maus lençóis. Agora, em vez de um tenho de defender dois.»
            «Ó Dr., o Pedro é como um irmão e fez o que achou justo para que eu me pudesse defender.»
            «Bom. Para já devo avisá-lo que vai ficar detido por alguns dias. Acompanho-o à esquadra e vou tentar que fique em prisão domiciliária até julgamento. Não diga nada sem a minha presença, tudo o que disser poderá ser usado contra si. Dê-me a confissão do cavalheiro e telefone à polícia.»
            Pouco tempo depois aquela artéria da avenida de Roma parecia uma romaria com carros da polícia e espectadores.  
            Na esquadra o advogado, num gabinete, prestava esclarecimentos do sucedido, enquanto Paulo e Rafael aguardavam silenciosamente, até que este se queixou.
            «Você prometeu-me que me libertaria se eu lhe entregasse a confissão.»
            «E libertei-o, quem o prendeu foi a polícia.»
            Uma hora depois regressa o advogado de Paulo.
            «Vou preparar o processo este fim de semana. Até lá vão ficar os dois detidos.» Declarou em surdina o avogado ao seu cliente e continuou. «Tenha cuidado com as declarações que presta, de preferências nenhumas. Só na segunda-feira é que regresso com as alegações.» 
            Paulo ainda cumpriu três meses de prisão, grande parte em sua casa. O julgamento teve lugar 4 meses após a sua fuga. O Dr. Albuquerque alegou um forte motivo para a fuga do seu cliente que pretendia provar a sua inocência, para além de ter estado detido três meses sem culpa formada. Para além de tudo conseguira a captura do verdadeiro assassino.
 
            Rafael não sairia da prisão nos próximos anos.

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