sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Diálogo no CCB

O polémico Centro Cultural de Belém admirado por uns, contestado por outros, é o lugar ideal para umas horas de prazer, onde a arte impera, a cultura predomina e o tempo passa tão depressa que são necessárias horas infinitas para percorrer as dezenas de salões onde centenas de artistas expõem a sua arte.
 
  À entrada do CCB dois amigos discutiam arte: «Repara o contraste do Mosteiro dos Jerónimos com este “caixote” do CCB.» Dizia o Manuel para o seu amigo Pedro.
«A arte e a vida são feitas de contrastes. A arte é tudo aquilo que o homem faz; quer pintura, escultura ou uma ideia apresentada em papel ou mesmo em filme. Podes gostar ou desgostar.» Retorquiu Carlos.
«Mas já não há artistas como aqueles do século XVI que construíram aquele Mosteiro.»
«Não digas isso. O Mosteiro dos Jerónimos foi construído no século XVI, com o seu estilo Manuelino de facto, mas depois das guerras napoleónicas no início do século XIX, que devastaram uma boa parte dos Jerónimos, quem foi que tomou a cargo as obras de restauro? Foram os artistas da época, não é verdade?» E continuou «o edifício do CCB é de uma arquitetura moderna, linhas direitas, verticais e horizontais. Tudo tem a sua época, não por falta de artistas ou de gosto, mas por falta de tempo ou dinheiro. Como classificarias a Sé de Lisboa? Não é igualmente uma obra de arte? Todavia o estilo românico é também composto de linhas direitas.» Concluiu Pedro. 
A discussão prolongou-se até que, depois de ambos concordarem que o motivo da sua ida ali era a exposição no interior do CCB e não a sua arquitetura. Entraram. Percorreram demoradamente as longas salas, parando aqui ou ali para melhor apreciação de um quadro ou uma escultura. Olharam demoradamente para um quadro de Picasso. Pararam numa sala para apreciarem “Os Núcleos”, obras suspensas no espaço, algumas delas compostas de várias peças, um novo conceito de arte; um telefone, escultura de Salvador Dali.
O Manuel questionava-se sobre o tipo de arte que as centenas de artistas lhes queriam mostrar; olhava uma sequência de um filme sem o compreender, via dezenas de tijolos sobrepostos ou umas pedras colocadas no chão aparentemente ao acaso; uma escultura de ferro em forma circular ocupava toda uma sala. Por fim desabafou:
«Nunca pensei que uma exposição fosse para além de umas pinturas, uns quadros pendurados e pouco mais. Sem entender de arte, tenho de reconhecer que admiro a versatilidade desta exposição. Não há dúvida que a arte é muito para além de uma pintura ou escultura.» Confessou.
«Imagina que te dão uma tela e uma lata com tinta branca e te pedem para pintares um quadro, que responderias ou fazias?» Indagou Pedro.
«Sei lá? Por certo que pensaria que estavam a galhofar comigo.» Respondeu Manuel.
Pedro pegou-lhe num braço e dirigiu-se para o fundo da sala pespegando Manuel defronte de um quadro, uma tela branca pintada de branco.
«Repara neste quadro. Piero Manzoni pintou a branco sobre uma tela branca. Parece um paradoxo, mas na realidade só a um génio isto lembraria.»
Pedro, olhando a cara de Manuel que parecia extasiado, continuou:
«E se te pedissem para expor uma construção?»
«Para te ser franco, a partir de agora, tudo o que me possas mostrar nada me irá surpreender.» Informou Manuel.
Percorreram mais umas salas. Esculturas, quadros tridimensionais, películas de filmes, iluminação a néon ou lâmpadas fluorescentes, iluminação a gás, etc. etc., patenteavam arte e deliciavam quem os olhasse.
Pedro, satisfeito com a apreciação demonstrada pelo seu amigo, parou defronte de um amontoado de gravilha de pedra, tijolos, tábuas de madeira e disse para o seu amigo. «Eis, uma escultura de uma construção.»
Manuel não pode esconder a sua admiração.
«Na realidade a arte é tudo aquilo que possamos imaginar. Não faria ideia de como apresentar esta escultura. É fascinante.» Confessou.
«Mas há mais» informou Pedro e continuou «tudo o que viste é demasiado valioso, não lhes podes tocar e em alguns casos nem te aproximar demasiado, existindo os separadores para não os ultrapassar.»
«Que mais poderá haver?» Pergunta espantado Manuel.
«Se um artista te pedisse para tocar nos objetos expostos, pisasses o seu trabalho, te deitasses em cima dele, entrasses no seu espaço, acreditarias?»
«Não é possível!» Exclamou Manuel.
«Anda daí e verás como é possível.» Finalizou Pedro.
Não, não era possível, Pedro estava agora a ensandecer. Pensou Manuel.
Entraram numa sala e percorreram alguns metros com quadros de ambos os lados. Ao fundo, um amontoado de seixos, arreia, plantas. Uma gaiola enorme alojava um casal de papagaios. Algumas alcovas envoltas em tule ou outro tecido translúcido mostravam um colchão de flocos de esponja, palha, folhas secas, areia e até de livros. À entrada podia-se ler: ÉDEN, 1969.
Entrávamos na “Tropicália”, obra do artista Hélio Oiticica, que nos aconselhava a entrarmos descalços para sentir a textura do chão de seixos e areia, a saltar para cima dos colchões e pisarmos a palha, os flocos de esponja, areia, livros velhos e se pretendêssemos, deitarmo-nos nesses espaços para meditar ou sentir a natureza sob os nossos corpos.
Pedro e Manuel não resistiram em entrar no paraíso de “Hélio Oiticica”. Descalços, pisaram aqueles chãos entrando nas cabinas envoltas em tecidos translúcidos. Pisaram livros, flocos de esponja, areia, palha e sentiram uma sensação de prazer que há muito não sentiam.
Não resistiram e entraram na tenda de campismo. Sentaram-se no chão e colocaram os auscultadores que ali se encontravam e ouviram música. O tempo parou. Deram poi isso quando saíram e chegaram à rua. Começava a entardecer. Tinham entrado no CCB pelas 3 da tarde.


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