quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O Enforcado

Prólogo
            Cerca das onze da manhã de uma segunda-feira dia 6 de maio, à porta do edifício onde morava a jovem e esbelta Fernanda, carros da polícia e bombeiros despertavam atenções dos moradores e vizinhos. Fernanda, a proprietária de um dos andares, acompanhava-os.
            «Eu não entro. Tenho medo.» Declarava a jovem.
            «Terá de nos acompanhar, não conhecemos a sua casa.» Admoesta um dos agentes.
            Dão a volta à casa sem nada de extraordinário verificarem.
            «Não está ninguém em casa D. Fernanda.» Exclama o inspetor Morais.
            Aparentemente receosa, Fernanda dá a volta à casa. Para defronte de uma porta e tenta abri-la.
            «Aqui é o nosso escritório, nunca vi esta porta fechada. Dá-me a impressão que está fechada por dentro senhor inspetor.»
            «Não tem outra chave?»
            «Não, nem sabia que havia uma chave.»
            Facilmente os bombeiros abriram a porta. O que viram fê-los recuar com um grito, um homem dependurado no candeeiro com uma corda em volta do pescoço jazia morto. Fernanda deu um grito e tapou os olhos com as mãos.
          
Parte I
            Fernanda, uma garota de 18 anos, responde a um anúncio para secretariar uma escola de condução. Armando de Sousa é o dono da escola e seu entrevistador. Fernanda, embora muito jovem, pareceu-lhe bastante competente. Era uma bonita e perfeita mulher. Vestia com gosto. Acabara o curso de secretariado e seria este o seu primeiro emprego. Foi admitida. Armando de Sousa, um homem de 52 anos, viúvo, não aparentava tal idade. Dois anos após a sua admissão, Fernanda começa a assediar o Patrão. Armado apreciava a catraia, mas evitava-a com receio das consequências. Todavia o inevitável aconteceu. Uma noite em que o trabalho obrigou a uma saída mais tardia, Fernanda dirige-se ao patrão e pergunta-lhe: «Senhor Armando, há aqui algum restaurante próximo onde eu possa jantar? É que a esta hora, para além de não ter cá os meus pais, já não vou a tempo de fazer o meu jantar.»
            Armando olha a garota e responde-lhe: «há aqui próximo um restaurante, mas… vais jantar sozinha?»
            «Se o senhor Armando me fizer companhia, já não jantarei sozinha.»
            Que mal fazia acompanhar à garota num jantar? Pensou Armando. «Está bem, vamos jantar.»
            Tarde de mais se arrependeu de ter levado a sua empregada àquele restaurante. O ambiente romântico, a luz das velas, o ar do mar, os olhos meigos da garota e o seu agradável sorriso, ajuntado ao vinho que tal refeição exigia, foi o princípio daquilo que ele evitara desde que a conhecera. Levou-a a casa perto da meia-noite.
            «Acompanhe-me até lá cima, moro no terceiro andar, não há elevador e tenho medo.» Disse Fernanda.
            Como cavalheiro, assim o fez
            «Não se vá embora sem eu abrir a porta.» Pediu Fernanda.
            Armando ali ficou esperando que ela abrisse a porta. Mal abriu a abriu, agarrou suavemente na mão de Armando e puxou-o para dentro. Armando não resistiu. A partir dessa data Fernanda mudou a sua residência para casa do patrão.
            Durante 2 anos a vida de amantes foi em lua-de-mel. Mas faltava qualquer coisa. Faltava a comunhão entre homem e mulher, aquela comunhão que a lei chama de matrimónio.
            «Querido, há dois anos que vivemos juntos, todavia há qualquer coisa que falta. Perante a sociedade sou tua mulher, mas judicialmente não passo de tua empregada e amante.»
            «Nandinha, que importa uma assinatura no papel, não é isso que me faz gostar mais de ti» e continuou «sabes perfeitamente que a diferença de idades entre nós é de 34 anos. Podia ser teu pai.»
            «A tua idade nunca me importou, bem o sabes. Amo-te com a idade que tens. Apenas quero, não só perante o mundo, mas também para comigo mesma deixar de ser uma empregada amante do patrão. Para além de tudo é a minha família que nunca aceitou de bom grado esta união.»
            Estas conversas tornavam-se cada vez mais frequentes até que um dia, mais propriamente no aniversário de Fernanda, o seu 21.º ano, Armando deu-lhe como prenda a notícia do casamento para breve.
Parte II                       
            A escola de condução de Armando de Sousa era uma moderna escola bem apetrechada de kits e simuladores de condução computorizados num grande salão repleto de sinais de trânsito e semáforos. Ao fundo da sala, do lado esquerdo, uma outra sala com uma dúzia de cadeiras destinadas às aulas de código. Uma escada com seis degraus dada acesso a um varandim e este aos escritórios. Sob essa escada havia uma secretária onde uma rececionista dava assistência a quem entrasse.
            Cerca das 9 e meia Fernanda de Sousa entra na loja, cumprimenta a rececionista e sobe os degraus que a levam ao seu gabinete. Vestia um vestido muito justo e curto que se moldava ao corpo salientando as suas formas esculturais. Era uma jovem de 25 anos, mas o traje que nessa manhã trazia, para além de não ser habitual, não era muito apropriado para receber possíveis candidatos a uma carta de condução. Senta-se à secretária e, minutos depois sai, debruça-se sobre o varandim e pergunta:
            «Belita, o meu marido ainda não chegou?»
            «Não Fernandinha, estou bastante admirada. Fui eu quem abriu a porta»
            «Já lhe telefonaste?»
            «Não. Quer que lhe telefone?»
            «Deixa, eu telefono.» Disse Fernanda dirigindo-se para o gabinete do lado, escritório do seu marido e sócio ligando o seu computador. Sai 5 minutos depois e volta ao seu gabinete.
            «Ó BELITA» grita Fernanda do varandim e continua «OLHA O QUE RECEBI.
            A cara de Fernanda parecia transtornada. Belita sobe os seis degraus que a separam da patroa e pergunta: «que se passa?»
            Fernanda mostra-lhe uma folha A4 acabada de imprimir.
            «Olha este e-mail.»
            Belita pega no papel e lê:
                        Querida Nandinha. Quando receberes
                        este e-mail já cá não estarei. Não posso
                        continuar a viver assim. Só desejo que
                        sejas feliz ao lado de quem amas.
                        Perdoa-me, mas é o melhor para ambos
                        Amava-te muito
                       Armando de Sousa.
            Belita olha atónita para Fernanda. Sabia da relação extraconjugal da patroa, mas não esperava aquele e-mail.
            «Já lhe telefonou?»
            «Não.»
            Belita pega no telefone e liga para casa do patrão sem obter resposta. Liga para o telemóvel e o mesmo resultado.
            «A Fernandinha não veio de casa?»
            «Não, fui a uma festa com uma amiga e dormi lá. Vim diretamente para aqui.» Disse Fernanda lavada em lágrimas. 
           «Não será melhor telefonar à polícia?» Pergunta Belita.
            Fernanda não sabia o que fazer nem dizer. É Belita que telefona à polícia.
            Era segunda-feira. À porta do estabelecimento, a escola de condução, a azáfama era enorme com carros da polícia e bombeiros. O telefonema de Belinha e a informação do e-mail recebido pela patroa, antevia razões fortes para um desfecho muito sério.
            «A que horas chegou, D. Fernanda? Onde mora? Não veio diretamente de sua casa para aqui? Já telefonou para casa para o seu marido.
            As perguntas do inspetor sucediam-se umas atrás das outras que Fernanda mal conseguia responder.
            «Vamos a sua casa ver se está tudo em ordem. O meu colega fica aqui até chegarmos.» Disse o inspetor dirigindo-se de imediato para a saída.
            Belita parecia não saber o que fazer ou dizer, tremia como varas. As perguntas do inspetor eram idênticas às do seu colega e as respostas eram as esperadas. A D. Fernanda não viera de casa, tinha dormido com uma amiga, no escritório de momento estava apenas ela, os dois colegas instrutores tinham saído minutos antes de Fernanda ter entrado. Como era segunda-feira o movimento na loja era diminuto, não havia aulas de código. Nada mais sabia.
            O inspetor olhou mais uma vez para a folha de papel onde minutos antes D. Fernanda tinha imprimido o e-mail do marido.
            «De que computador veio este e-mail?» Perguntou o inspetor dirigindo à Belita.
            «Do computador de D. Fernanda.» Respondeu.
            «Onde está?»
            «Ali em cima.»
            «Gostava de dar uma olhada.»
            Subiram os poucos degraus e Belita aponta-lhe para o computador de Fernanda. Sem esperar convite o inspetor olha o monitor e senta-se à secretária. Verifica a caixa de correio eletrónico e constata a chegada do e-mail. Olha através do gabinete envidraçado e pergunta: «De quem é aquele gabinete?»
            «É do senhor Armando, o marido de D. Fernanda.»
            «O computador está ligado?»
            «Não sei. Só o senhor Armando e D. Fernanda é que mechem nele.»
            «Veja se está ligado.» Ordenou o Inspetor.
            «Está sim, deve ter sido a D. Fernanda.» Respondeu a rececionista
            Da mesma forma que entrou no gabinete de D. Fernanda sem pedir autorização, entrou no gabinete do marido.
            «Espere-me lá em baixo, por favor.» Ordenou o inspetor.
            Abriu o Outlook e procurou na pasta de “enviados”. Mandou para a impressora uma cópia do último e guardou-a no bolso. Desceu e massacrou novamente a rececionista com perguntas e mais perguntas. A Belita acabou por confessar a existência de um “amigo” na vida de Fernanda, aliás não era segredo e pelo teor do e-mail até o próprio marido sabia.
            Meia hora depois toca o telefone do inspetor. Sai para a rua onde se via ainda com um carro da polícia à porta, e atende. Era do seu colega em casa de Fernanda.
            «O marido de D. Fernanda está no escritório, enforcado. Vamos demorar ainda por aqui, o cenário é dantesco e dá-me a sensação que há um grande mistério neste caso, mas prefiro aguardar os resultados periciais. Daí tens novidades?»
            «E grandes, mas logo falamos.» Responde o colega.
Parte III
            No bar de um hotel, Fernanda sentada num sofá pediu um vermute. Fingindo ler uma revista, não tirava os olhos porta de entrada. Não podia esconder o anseio da chegada de alguém.
            «Espera alguém?» Pergunta repentinamente um cavalheiro por de trás do sofá.
            Fernanda dá um salto do sofá e olha para trás. «Que susto me pregaste Luís. Não te vi entrar.»
            «Estive embevecido a olhar-te lá do fundo. Estás cada vez mais bonita.»
            «Não sejas tonto amor, foi com esses teus piropos que me enfeitiçaste. Senta-te. Tenho novidades para ti. O Armando vai dar-me sociedade na empresa.»
            «Conseguiste?»
            «Consigo tudo o que anseio. Agora teremos de ter muito mais cuidado, não quero que o meu marido descubra a nossa ligação.»
            «Quando é que fazem a escritura?» Indaga Luís.
            «Na próxima semana.»
            Quatro meses após este diálogo, Armando aparece enforcado em sua própria casa.
Parte IV
            Cerca do meio-dia já na Judiciária, os agentes incumbidos do caso examinam as fotos e discutem entre si.
            «Repara nestas fotografias, se alguém pretende enforcar-se e se coloca em cima de um banco, ao derrubá-lo com os pés, nunca poderia estar caído com o assento para este lado, nem a tal distância. E a chave da porta em cima da secretária? Desde quando alguém se fecha por dentro e tira a chave da fechadura? Não há dúvida que se trata de um homicídio, mas aguardemos os resultados da autópsia.»
            «Morais, não sabes o melhor. Enquanto estavas em casa do “enforcado”, examinei os computadores da viúva e do falecido. Este e-mail recebido pela D. Fernanda às 10 e 15, sabes de onde foi enviado?» Perguntou Sarmento, o seu colega, mostrando-lhe uma cópia.
            «O remetente é o marido.» Confirmou Morais.
            «Exatamente. Repara na data e hora. 10 horas e 11 minutos, de hoje. O que quer dizer que só a D. Fernanda o pode ter envido para si própria. Ela tem acesso ao gabinete do marido, ao lado do seu. A D. Fernanda parece ser uma pessoa inteligente, mas tenho a impressão que não percebe nada de computadores.»
            «Temos de confirmar o seu álibi. Segundo parece passou a noite com um amigo, um tal Luís.»
            «A rececionista, a Belita, confirmou-me a existência de um caso com um “amigo”, mas não o conhece.»
            «Vamos chamar aqui a D. Fernanda para prestar declarações e pedir-lhe o contacto do seu “amigo”. Vamos ter de examinar os seus telemóveis e últimos contactos. Enquanto isso, tu irás falar com essa tal Belita e tentar averiguar quando casaram, as contas bancárias da empresa, desde quando são sócios, etc.. Investiga tudo, fala com o pessoal e recolhe o que conseguires. Creio que o assassínio tem a ver com a viúva e o amante. Vamos investigar os seus álibis. Se não foram eles, por certo estarão envolvidos com mais alguém.»
            Nessa mesma segunda-feira por volta da 3 da tarde D. Fernanda recebe um telefonema do inspetor Morais solicitando a sua presença na Judiciária. Teria de se apresentar de imediato.
            «Boa tarde, queria falar com o inspetor Morais.» Informou Fernanda à entrada da P.J.
            Após identificação foi conduzida a uma sala onde aguardaria a chegada do inspetor. Não tardou dois minutos e logo apareceu o inspetor que a cumprimentou e a conduziu a um outro gabinete.
            «Traz telemóvel?» Inquiriu o inspetor
            «Sim.»
            «Por favor deixe-o aqui fora ao meu colega, a nossa conversa irá ser gravada e neste gabinete não podem entrar telemóveis.»
            Fernanda retirou o telemóvel da carteira e entregou-o ao agente que os aguardava à porta. Entraram para uma pequena sala onde apenas uma mesa e duas cadeiras a ornamentava. O inspetor Morais sem mais preâmbulos disparou: «A que horas recebeu o e-mail do seu marido?»
           «Não me recordo, mas foi por volta das 10, logo após ter ligado o computador.»
            «A que horas é que o seu marido o enviou?»
            «Não faço a menor ideia.»
            «Pois eu sei. O seu e-mail foi recebido às 10 horas e 15 minutos e foi-lhe enviado 4 minutos antes.» Disse o inspetor mostrando-lhe a cópia desse e-mail.
            Fernanda olhou o inspetor apavorada. Não compreendia como ele descobrira aquilo.
            «É impossível.» Declara colérica, Fernanda.
            «Não é impossível se a senhora for ao computador do seu marido, no gabinete ao lado, e enviar um e-mail para si própria.
            Fernanda ficou mais vermelha que um tomate maduro. Gaguejou, tentou argumentar sem que as palavras se lhe aflorassem, até que tentando recompor-se, declarou:
             «Não fui eu quem matou o meu marido. Não sou uma assassina. Além disso não estive em casa desde domingo de manhã.»
            «Então quem cometeu o crime? O seu amigo com quem passou a noite?»
            «Não. Ele esteve sempre comigo. Podem confirmar.»
           «É isso que vamos fazer. Pode telefonar a esse seu amigo para se apresentar de imediato aqui. A senhora vai aguardar a sua chegada na sala aqui ao lado.»
            O inspetor levantou-se, abriu a porta e consultou o seu colega: «já está?»
            «Sim temos tudo no computador.» Segredou o agente.
            Voltando para o interior da sala convidou a D. Fernanda a acompanhá-lo, entregando-lhe o seu próprio telemóvel. «Tome, ligue ao seu amigo. Daqui a pouco já lhe devolvemos o seu telemóvel.
            Sem poder argumentar e não vislumbrando outra saída, agarra no telemóvel do inspetor e marca um número. «Luís, estou na Judiciária, vem de imediato ter comigo. Não posso dar-te mais explicações.»
             Desliga o telemóvel e segue o inspetor até à sala de espera.
            Entretanto Sarmento, na escola de condução, aborda Belita com mais uma enxurrada de perguntas.
            «E a contabilidade, quem a faz?»
            «É a D. Fernanda, eu apenas faço os lançamentos.»
            «Tem acesso às contas bancárias?»
            «Apenas as visualizo. Não faço movimentos.»
            «Precisava de ver os últimos movimentos bancários.»
            «Posso tirar uma cópia dos extratos, se quiser.»
            Já de posse das cópias dos extratos bancários, o inspetor senta-se e analisa superficialmente os últimos movimentos.
            «Há aqui um levantamento de 20.000 € Belita, sabe a que diz respeito?»
            «Não sei, ainda não fiz esse lançamento, a que data se refere, senhor inspetor?»
            «É do dia 6 de abril, precisamente há um mês.»
            «Quando tenho dúvidas pergunto à D. Fernanda e é o que farei quando for lançar esse valor.»
            «E habitual haver levantamentos deste montante?»
            «Não, não é habitual.» Respondeu Belita com descontração.
            Despediu-se o inspetor com a promessa de voltar.
            Luís, amigo de Fernanda, chega à Judiciária e pergunta por Fernanda de Sousa. De imediato o inspetor Morais é chamado e, cumprimentando Luís, convida-o a acompanhá-lo à sala onde momentos antes estivera com Fernanda. Após as mesmas precauções no que respeita ao telemóvel, começa o interrogatório.
            As declarações de Luís pouco progrediram, estivera a jantar com a sua amiga Fernanda e dado a hora tardia que saíram do restaurante, resolveram passar a noite num hotel próximo, de onde saíram pouco antes das 9 da manhã.
            Os telemóveis foram-lhes devolvidos. Toda a informação de ambos estava já descarregada no computador da Judiciária. Foram aconselhados a não se ausentarem do país até nossas ordens.
            Qualquer conversa em ambos os telefones seria a partir daquele momento escutada.
            Os dois inspetores incumbidos do caso “o enforcado” analisavam provas, comparavam as declarações obtidas e conjeturaram as causas do crime, por que na realidade tratava-se de um crime e não um suicídio como tentaram fazer crer. A autópsia mostrara que Armando tinha sido sufocado com uma fio fino de nylon ou de aço, dado o golpe à volta do pescoço apresentar um fino corte e só depois enforcado na corda, já morto. Restava saber por quem. O álibi de ambos era consistente. Os empregados em princípio estavam afastados deste caso.
            «O e-mail enviado por Fernanda à 10 e 11 minutos, faz dela uma suspeita, mas ela nega o seu envio, alega que não foi ela que o enviou. Não temos provas concludentes para a acusar de um crime que foi cometido enquanto ela jantava. O Seu amante estava com ela e consequentemente também não matou. Terá de haver um terceiro personagem.» Expõe o agente Morais.
            «Há também o levantamento de 20 mil euros que, segundo o banco, foi levantado por Fernanda, em dinheiro. A lambisgoia alega a necessidade de ter de comprar roupa e preferiu pagá-la em dinheiro em vez utilizar o cartão de crédito, assim o marido não a chatearia com perguntas. O marido preocupava-se com os gastos do cartão e a conta bancária estava mais sua à disposição.» Declara Sarmento.
            «Temos os telemóveis sob escuta. Até ao momento nada abona em nosso favor. Provavelmente suspeitam de escutas. Comparaste as chamadas recebidas e efetuadas recentemente pelo “casalinho”?» Inquire Morais.
            «Sim. Há várias chamadas para familiares, mútuas e para pessoas que, em princípio, nada têm a ver com o crime, mas há um número que ando a investigar. Tenho a operadora telefónica a trabalhar nisso.
            Três dias depois o inspetor Sarmento corre ao encontro do colega Morais.
            «Tenho novidades fantásticas. Descobri o telefone do misterioso cavalheiro. É um cadastrado. Tenho de obter um mando de busca a sua casa. Enquanto tu o convidas para vir falar contigo, eu levo uma equipa ao seu apartamento e averiguo o que conseguir.»
Conclusão
 
            Na Judiciária juntam a D. Fernanda, o seu amante Luís e Zeferino, o cadastrado.
            Sem mais preâmbulos, um dos inspetores declara:
            «Estão todos aqui como suspeitos de um crime.»
           Entreolham-se todos e declaram não falar sem a presença dos respetivos advogados.
            Zeferino declara mesmo. «Não tem provas para suspeitar de nós.»
            «Não precisam de falar, mas sim de ouvir. Além disso é ao tribunal que compete julgar se as provas são válidas ou não.» Declara um dos inspetores.
            «No dia 5 de maio, um domingo, o senhor Luís e D. Fernanda vão jantar e acabam a noite dormindo num hotel. O senhor Zeferino, aproveitando a ausência de mais pessoas em casa de D. Fernanda, abre a porta do apartamento desta com a chave de D. Fernanda ou outra, falsa, apanha o senhor Armando distraído e aperta-lhe um fio de aço em volta do pescoço. Pendura-o a uma corda fazendo crer tratar-se de um suicídio. Dias antes tinha recebido 20 mil euros pelo trabalhinho…
            «Mas…» interrompe Zeferino.
            «Calma, ainda não acabei.» Afirma o inspetor e continua. «A D. Fernanda, um mês antes do fatídico dia, vai ao banco, levanta 20 mil euros, entrega-os ao seu amante que, por sua vez, os entrega ao senhor Zeferino. Na manhã de segunda-feira 6 de maio, D. Fernanda sai do hotel, segue diretamente para o escritório. Forja um e-mail enviado pelo marido. Telefona-nos muito abalada.»
            «Não fui eu que o enviei.» Grita Fernanda.
           «Mais ninguém entrou no gabinete segundo informação da rececionista.» Afirma o inspetor.
            «As provas encontradas em casa deste senhor» disse o inspetor apontando com o olhar o Zeferino e continuou «19 mil euros embrulhados em papel de jornal e escondidos num fundo de uma caixa de ferramentas fazem parte do processo.»
            «São poupanças minhas. Além disso violou os meus aposentos.»
            «Guarde essas informações para o senhor doutor juiz.»
            «Os senhores» disse olhando o casal, «têm conhecimentos destas notas?»
            «Não andamos a bisbilhotar casa alheia.» Declarou Luís exaltado.
            «E a D. Fernanda?»
            «Eu!?»
            «A minha pergunta faz algum sentido, meus senhores. As impressões digitais de todos vós estão bem patentes nos maços de notas ainda cintados.»
            Todos permaneceram calados entreolhando-se sem articular palavra.
            Enquanto o inspetor Morais apreciava a fisionomia de cada um, o inspetor Sarmento abre a pasta e retira uma fotografia de um objeto dentro de uma saqueta de plástico transparente. Dirigindo-se a Zeferino atirou. «Conhece este objeto?»
            Zeferino levantou-se como se impulsionado por uma mola e aos berros dirige-se ao inspetor.
            «Andaram a vasculhar o meu apartamento.» E logo repentinamente muda de atitude, senta-se e declara. «Nem sei se isso é meu.»
            Tratava-se de um fio de aço com pouco mais de meio metro de comprimento e em cada ponta uma pega de madeira.
            «Tem as suas impressões digitais que o senhor nem se deu ao cuidado de as limpar.»
            «Não é meu costume limpar tudo o que pego.»
            «Também não limpou o sangue que ainda permanece no cabo de aço, sangue do senhor Armando.»
            Dizendo isto os inspetores levantam-se e dirigem-se para a saída desviando-se para dar entrada a dois agentes. O inspetor Morais, já do lado de fora da sala, olha para os três suspeitos e diz: «Tenham uma boa estada. Voltaremos a ver-nos em tribunal.

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