Pouco passava da meia-noite. Um pachorrento burro puxava uma carroça em direção ao cemitério. Transportava um caixão. Conduzia a carroça o velho coveiro da aldeia. Atrás, duas mulheres e um homem, todos na casa dos cinquenta, acompanhavam cabisbaixos a carroça. O morgado Fernando da Ribeira tinha falecido.
Tinha sido um cavalheiro que, apesar da sua riqueza era um tanto avaro e não muito amigo do seu vizinho. Poucas amizades angariava embora oferecesse amiudadas vezes suculentos almoços na sua quinta, não só ao presidente da Junta de Freguesia e ao pároco da aldeia, como também a meia dúzia de compadres.
«Eu sei que não tenho amigos» dizia Fernando da Ribeira numa das suas faustosas almoçaradas, «mas tenho este feitio, não gosto de dar aquilo que me custou a ganhar; porque não fazem como eu que toda a vida trabalhei no duro para ter o que tenho?»
O pároco que recebia chorudas oferendas em gado, trigo ou produtos hortícolas, dava-lhe razão. «Estes jovens não querem trabalhar, têm os terrenos e nada fazem e depois querem que os outros repartam os seus bens.»
Os amigos bebiam, comiam, davam palmadinhas nas costas do morgado e retorquiam: «vão trabalhar como nós fazemos.»
No norte do País, perto do Porto, numa das aldeias do concelho desenrolava esta história. O morgado Fernando da Ribeira, senhor de uma grande propriedade, viúvo, vivia com uma senhora muito mais jovem do que ele, a D. Amélia Brandão, solteira, não aparentando mais de 30 anos, cerca de metade da idade do seu companheiro. Era criticada por toda a vizinhança, mal vista pelos empregados da quinta, pelo pároco que a via como uma meretriz e eventual herdeira do senhor Fernando da Ribeira.
Num cartório da cidade do Porto, o senhor Fernando da Ribeira acompanhado por dois amigos, elaborava a seu testamento. Estava doente e o seu médico não lhe dava muitos anos de vida. Custava-lhe deixar os seus bens ao deus-dará e a sua companheira não era merecedora da sua herança. Os dois amigos, testemunhas do ato, convencidos de que seriam herdeiros pelo menos em parte, desiludiram-se quando a descrição da herança foi introduzida num envelope e selado a fim de ser aberto dois dias após a sua morte. Deixou um outro subscrito em envelope selado que deveria ser aberto logo após a sua morte.
Esse dia chegou e com ele a abertura do primeiro envelope.
«O meu desejo é ser enterrado entre a meia-noite e a uma da manhã.» Rezava assim o conteúdo daquele envelope.
A Maria Miquelina cozinheira, o João Madeira e sua mulher, caseiros da quinta do morgado, foram os únicos a acompanhar o enterro.
Quarenta e oito horas após a morte do morgado, todos os amigos, primos, tias, tios, pároco, Amélia Brandão a mulher com quem vivia e empregados, reuniram-se para a leitura do testamento constante do segundo envelope.
Nele constava: «todos os meus bens deverão ser distribuídos equitativamente por todos aqueles que me acompanharam na derradeira viagem ao cemitério.»
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