Muitas vezes indagamos como é
possível um casal, sem motivo aparente, acabar com um casamento ao fim de 18
anos de felicidade conjugal. Há sempre um motivo, tudo dependendo desse motivo
ser forte ou insignificante. Para um dos cônjuges é insignificante, mas para o
outro é deveras grave, sem perdão. Foi o que aconteceu entre Ezequiel e Alzira,
ele com 40, ela com 38, casados há 18 anos com um filho de 14.
Ezequiel trabalhava num escritório de representações. A
sua secretária, uma jovem de 25 anos, assediava Ezequiel de uma forma descarada
e persistente. Era uma interessante mulher e Ezequiel ia conseguindo disfarçar
o seu desejo de a possuir. Amava a sua mulher e não pretendia pôr em causa um
casamento feliz por uma aventura momentânea. Pensou mesmo em despedi-la, mas
Julieta, a sua secretária, fazia-lhe falta. Era uma empregada muito competente.
Numa noite de muito trabalho, tendo necessidade de ficar
até mais tarde no escritório, Julieta prontificou-se a ajudá-lo.
Seriam cerca das 8 da noite e Ezequiel telefonou à mulher
para não esperar por ele para jantar, iria comer qualquer coisa e voltaria para
o escritório. Era verdade, só não esperava que naquela noite aquilo que ele tanto
temia iria acontecer. Nessa noite não resistiu e, mesmo no escritório, entregou-se
nos braços da sua empregada.
Alzira preparou o jantar para si e para o seu filho
Pedro. Depois de tudo arrumado deitou o filho e disse-lhe: «a mãe vai levar um
petisco ao escritório do pai, mas não se demora.» Deu-lhe um beijo e saiu.
Chegou ao escritório do marido seriam perto das 11 horas. Tocou, mas ninguém
atendeu. Estranhou, voltou a tocar. Nada. Pegou no telemóvel e ligou-lhe.
«Onde estás?»
«No escritório-» Respondeu o marido.
«Porque não abres a porta?»
«Ah, eras tu que estavas a tocar?» Perguntou o marido com
perturbação mal contida. «Abro já.»
À Alzira pareceu-lhe uma eternidade o tempo que demorou a
concretizar o “abro já”. Finalmente o ruído elétrico do trinco da porta fez-se
ouvir. Subiu quase a correr a escadaria que a levava ao primeiro andar do
escritório. A porta do escritório estava entreaberta e espreitando por ela estava o
marido.
«Olá.» Disse ele com um sorriso forçado.
«Não abres a porta para eu entrar?»
«Desculpa» disse, abrindo a porta e afastando-se para lhe
dar entrada «que surpresa.» Concluiu.
Alzira olhou em volta num rápido olhar. Já lá tinha
estado mas agora parecia-lhe mais pequeno. Uma mesa de reuniões, uma secretária
com papelada e um computador, duas prateleiras com livros e arquivos e pouco
mais. Ao fundo uma casa de banho e era tudo. Ezequiel parecia um autómato, em
pé, sem saber se se deveria sentar ou manter-se de pé.
«Senta-te e continua o trabalho.» Disse ela com uma voz
imperativa.
Atabalhoadamente sentou-se. Não sabia se deveria teclar
no computador se mexer na papelada.
«Estás nervoso Ezequiel?»
«Oh, n… não.» Tentando acalmar-se perguntou: «a que devo
a honra desta visita?»
Com uma voz cheia de azedume debruçou-se sobre a
secretária e aproximando a cara do corpo do marido, fungando como se estivesse
e inalar um odor horrível disse num tom calmo, baixo, mas não tão baixo que não
pudesse ser ouvido na casa de banho.
«Cheiras mal. Cheira à rameira que está ali.» Disse isso apontando
com o olhar para a casa de banho que, de porta entreaberta, embora de luz
apagada, ela adivinhava estar lá. Atirou-lhe o embrulho do petisco que fizera
e, com o mesmo azedume de voz acrescentou: «depois disso deves estar com fome.»
Deu meia volta e dirigiu-se para a saída. Prontamente
Ezequiel levanta-se e, ato simultâneo, ela para, volta-se para ele e com a mão
como um sinaleiro a mandar para o trânsito disse: «Conheço a saída, mas vou-me
esquecer da entrada.»
Desceu as escadas a correr. As lágrimas rolaram-lhe pela
face. Correu para o carro. Acelerou como uma louca dando murros no volante. As
lágrimas eram tantas que deixou de ver a estrada. Acalma-te, tem cuidado, para um pouco e limpa os olhos. Lembra-te que
tens um filho. Obedeceu à consciência e parou e chorou mais. Tinha de
chegar depressa a casa antes do marido. Acalmou-se um pouco, tentado recordar
os momentos felizes que passara com o filho.
Chegou a casa e sem ruído para evitar acordar o filho
pegou numa pequena mala, depositou algumas peças de roupa e artigos de higiene
e deixou um bilhete ao marido. Dirigiu-se ao quarto de Pedrito e deu-lhe um
suave beijo. Saiu.
Ezequiel está colérico, grita com a sua empregada para se
despachar. Julieta vermelha de vergonha, não sabe o que dizer nem fazer.
«Despacha-te, espero-te lá em baixo.» Diz Ezequiel e sem
mais conversas, desce para a rua. Aí, telefona a chamar um táxi. Como Julieta
se demorava um pouco e o táxi tinha chegado, preparava-se para tocar à
campainha quando Julieta ainda rubra chega.
«Tens dinheiro para o táxi?» Indagou Ezequiel.
Julieta apenas respondeu sim, dirigindo-se para o táxi,
mas sem antes tentar receber um beijo de Ezequiel sem o conseguir.
Ezequiel meteu-se no seu automóvel. Apetecia-lhe ir para
um bar e embebedar-se, mas pensou melhor e dirigiu-se para casa. Iria rogar de
joelhos o seu perdão.
«Que estúpido fui,
como consegui atraiçoar a minha amada mulher?» Pensava Ezequiel pelo
caminho. Não esperava que ela lhe perdoasse hoje, mas talvez amanhã ou depois
as coisas se recomporiam.
Entra sem ruído esperando encontrar a sua mulher num
pranto no seu quarto. Não a encontrou em casa. O seu filho dormia. Deu-lhe um
beijo e quando se preparava para lhe telefonar reparou numa folha de papel com
algumas linhas manuscritas.
Não me telefones.
Amanhã ou depois eu entro em contacto contigo a fim de resolver o futuro do
nosso filho. Não tentes sequer telefonar de um outro telefone, porque mal oiça
a tua voz desligar-te-ei o telefona na cara.
Ezequiel sentou-se na mesa da cozinha. Não lhe
apetecia ir dormir. Conhecia bem a mulher e sabia que não valeria a pena
telefonar-lhe. Provavelmente tinha ido para casa da mãe. Levantou-se e rebuscou
os armários. Não deu por falta da roupa dela. Se levara algo tinha sido muito
pouco. Foi para a sala e aí ficou, não sabe quanto tempo. Não conseguia
raciocinar, não sabia o que deveria fazer. Olhou o relógio, três da manhã e ela
sem dar notícias. Resolveu ir deitar-se, teria de se levantar cedo para levar
o filho à escola. O amanhã viria e logo resolveria ou não o seu problema. Foi
então que, na casa de banho, deu por falta dos produtos de higiene de Alzira.
Não havia dúvida, tinha ido para casa da mãe. Deitou-se. Cinco da manhã. O sono
não vinha. À cabeça vinha-lhe tudo menos a solução para o seu comportamento com
aquela lambisgoia da Julieta. Levantou-se e bebeu um copo de água. Voltou a
deitar-se. Sete da manhã sem conseguir pregar olho. Levantou-se, arranjou-se,
preparou o pequeno-almoço para si e para o filho.
«Olá papá, bom dia. A mamã já se levantou?»
«Já sim, filho. Já saiu para o trabalho. Eu levo-te à
escola.»
Que irei dizer ao meu
filho logo à noite? Como reagirá ele quando souber que a mãe tinha saído de
casa não se sabe por quanto tempo nem mesmo se voltaria? Como acontecera isto?
Como fora possível a sua secretária conseguir aquilo que há tanto ensaiara?
Como tinha sido tão parvo em consentir que ela lhe fizesse companhia sozinha e
à noite? Caíra que nem um patinho. Era de prever que isso iria acontecer. Mas,
a culpa é pura e simplesmente minha. Seria que eu já preveria tal desfecho e
inconscientemente o preparara?
«Pai! Pai! Olha as horas. Estavas a dormir?»
Ezequiel olha para o filho. Estava a sonhar acordado nem
reparando que o filho já há muito estava à porta à sua espera.
«Estava a pensar no trabalho, filho.» Mentiu Ezequiel.
Trim trim, trim trim. «Senhor Ezequiel, olhe o telefone.»
Grita Julieta para o patrão. Ezequiel tão apático estava que nem o ouvia. Olhou
o mostrador. Era a sua mulher, a sua queria Alzira. Levantou-se e foi para a
varanda atender.
«Olá querida.»
«Cala-te e ouve.
Esta semana vais levar e buscar o Pedrinho à escola. Prepara-lhe o jantar e
deita-o. Entretanto vou passar lá por casa para recolher a minha roupa. Estou
em casa da minha mãe. Não te atrevas a telefonar-lhe»
«Mas» ia Ezequiel interromper,
«Já te disse, ouve
e cala-te» interrompeu a mulher e continuou «na próxima semana eu vou buscá-lo para passar comigo. Eu telefone-te.
Tchau.» E desligou o telefone.
Não restavam
dúvidas, Alzira estava encolerizada com ele. Iria ser difícil a reconciliação. Faria
tudo para conseguir recuperar o seu amor. Despedir a sua secretária com uma
indemnização seria a primeira coisa a fazer e depois se veria. Pensou Ezequiel.
«Não, filho. A mamã está em casa da avó. Está zangada com
o pai.»
«Porquê? O que fizeste para a mãezinha se zangar?»
«A mamã pensa que o pai anda com outra mulher.»
«E andas?»
«Claro que não.»
«Então porque não a convences?»
«Terei de esperar uns dias para a mamã se acalmar.»
As conversas diárias entre pai e filho abordavam sempre o
mesmo tema. Ezequiel não conseguia convencer seu filho dos motivos que levam um
casal a uma separação. Sentia-se culpado, mas não ao ponto da atitude tomada
pela sua mulher. Se fosse o contrário? Se a mulher o tivesse atraiçoado
aceitaria o facto ou reagiria da mesma forma?
«Pai, tenho saudades da mãe. Quando é que ela volta?
Porque não a vais buscar?»
«A mãe vem buscar-te na próxima segunda-feira para
passares uma semana com ela» e continuando «tens falado com ela pelo telefone?»
«Tenho sim pai.»
«Quando voltares a falar-lhe diz-lhe que gosto muito
dela. Pede-lhe para voltar para casa.»
«Já o fiz pai, mas ela disse que não te quer ver mais.
Tens de ser tu a convencê-la.»
«Tens razão filho, mas tenho de lhe dar mais uns dias
para ela arrefecer as ideias.»
«Pai. É verdade que andaste com a Julieta?»
«Não meu querido. Não andei nem ando com ela. Apenas lhe
dei um beijo e a tua mãe descobriu. Já a despedi. Já não trabalha com o pai.»
«Porque lhe deste um beijo? Gostavas dela?»
«Não, não gostava, aconteceu.»
«Então porque a beijaste?»
«Ela pediu-mo…»
«Pai, mas quem paga sou eu, vejo-me privado da companhia
de ambos.»
Era doloroso ver que o filho tinha razão. A culpa era
dele, só dele. O filho estava a sofrer com aquela separação, mas era difícil,
pelo menos nos dias mais próximos, abordar a mulher e convencê-la a dar-lhe o
perdão.
Pedrinho não desistia em abordar tanto o pai como a mãe
para uma reconciliação conjugal. Estava na semana de passar em casa da avó e
mãe, e as conversas eram as mesmas:
«Mãe, o pai gosta muito de ti. Quer que voltes para
casa.»
«O pai foi mau para a mãe. Terá de ser castigado.»
«E quem paga sou eu?»
«Tu não tens culpa de nada, filho.»
«Mas, mãe, não quero estar uns dias contigo e outros com
o pai. Quero estar sempre com os dois.»
O telefone de Ezequiel toca e este repara que do outro
lado estava o filho.
«Sim Pedrito, que se passa?»
«Podes vir buscar-me à escola, pai?»
«Posso, mas a mãe não te vai buscar?»
«A mãe não pode, pediu para eu te telefonar.»
«Está bem. Até logo.»
Estranho, pensou
Ezequiel, a Alzira deveria ter-me
telefonado. Vou-lhe telefonar. E telefonou. Resultado: chamada recusada. Bom vou busca-lo.
Pedrito olha o relógio do seu telemóvel. Escondido atrás
da janela da escola aguarda a chegada dos pais. Queria ver a reação de ambos
quando chegassem para o ir buscar. Vê a mãe à entrada e logo a seguir chega o
pai. O pai aproxima-se da mãe e parecem discutir durante uns segundos. A mãe
distancia-se do pai um bom par de metros. Ficam especados à espera do filho.
Resolutamente Pedrito sai da escola e dirige-se à mãe.
«Olá mãe.» E olhando o pai, «olá pai.»
«Porque telefonaste ao pai, Pedrito?»
«Tinha saudades dele, mãe.»
«Não voltes a fazer isso Pedrito.» Disse a mãe e logo de
seguida «despacha-te que temos de ir comprar as sapatilhas que me pediste.»
«O pai podia ir connosco para me ajudar a escolhê-los?»
«O pai não pode ir, tem muito que fazer lá no escritório.»
Declarou a mãe pegando na mão do filho arrastando-o para o carro a fim de
evitar mais conversas.
«Olá mãe» disse o filho logo que a mãe atendeu o telefone
«a escola ofereceu-me dois bilhetes para o cinema aqui ao lado. Queres vir
comigo?»
«Está bem Pedrito. Vou ter contigo à escola.»
«Não vale a pena vires à escola, mãe. Eu deixo o teu
bilhete na bilheteira. Vou estudar com o meu colega aqui e fazer horas para o
cinema.»
«Como queiras. Um beijinho, até logo.»
Logo de seguida Pedrito liga para o pai com a mesma
conversa.
«Não vale a pena vires aqui à escola pai, deixo-te o
bilhete na bilheteira.»
Pedrito tinha recebido três bilhetes, oferta da escola.
Iria juntar os pais dentro da sala do cinema. Escolheu o seu se forma a ficar
ao lado do pai e, assim juntava a mãe e o pai.
Já sentado no seu lugar no cinema, tendo chegado momentos
antes do início, Pedrito aguardava a chegada dos pais. Sabia que os pais não
discutiam e muito menos em público. Só esperaria que a mãe não se levantasse e
saísse antes do filme começar.
«Olá pai» disse baixinho Pedrito à chegada deste e
continuou «a mãe também vem. Esse lugar é para ela.»
Ezequiel olha espantado para o filho e pergunta: «A mãe
sabe que eu venho?»
«Não sei, eu não lhe disse.»
«A mãe ainda se zanga contigo por não lhe teres dito.»
Disse o pai, mas interiormente satisfeito perante a atitude do filho.
Entretanto a mãe chega segundos depois das luzes se terem apagado. Só momentos
depois repara no marido. Olha o filho mostrando-se zangada.
«Troca comigo de lugar para ficares entre nós os dois.»
Disse Alzira para seu filho.
«Nesse lugar não vejo tão bem como aqui. Esse senhor à
frente é muito alto.» Respondeu Pedrito muito baixinho.
Durante todo o filme Pedrito não tirava os olhos dos pais.
O pai olhava para a mãe, mas esta ignorava-o. Ao intervalo a mãe abordou o
filho dizendo-lhe que a deveria ter avisado da presença do pai.
«Se o fizesse a mãe provavelmente não viria e eu queria
vê-los juntos.»
«Eu não quero estar com o pai, sabes bem disso.»
«Ó mãe, não sejas má para mim. Tenho saudades de vos ver
juntos.»
Mais uma tentativa de Pedrito não lograda. Que poderia
ele fazer mais? Não desistiria.
Três meses decorridos após as desavenças dos pais,
Pedrito magicava num novo encontro a três. Teria de ser prudente a fim de não
despertar suspeitas. Estava prestes a completar o seu 15-º aniversário. A data
seria ótima para os unir num jantar, mas como? Com o pai não havia problema, já
reparara que ele até gostava, mas o pior era a mãe.
«Mãe. Na próxima semana faço anos, podíamos ir jantar
àquele restaurante onde servem aqueles bifes de que eu gostei muito.»
«Depois veremos Pedrito.»
Dias depois telefona ao pai. «Pai, na quarta-feira faço
anos, vem jantar comigo ao restaurante dos bifes.»
«A tua mãe vai?»
«Ó pai, vai lá ter e logo verás.»
Ezequiel nem protestou. Tinha a certeza de que Alzira lá
estaria, mas também não se importaria, muito pelo contrário.
A quarta-feira chegou e com ela o aniversário de Pedrito.
A mãe, tal como prometera no dia anterior, foi buscar o filho à escola, deram
uma volta pela baixa e aproveitaram para umas compras fazendo assim horas para o
jantar.
«A que horas vamos jantar, mãe?»
«Estás com fome? Ainda é cedo. Jantamos às 8.»
Estavam dentro de um centro comercial e Pedrito pediu à
mãe para ir à casa de banho. Uma vez sozinho enviou uma mensagem ao pai a
informá-lo da hora de jantar.
Mãe e filho entram no restaurante e pedem uma mesa para
dois. Poucos minutos depois entra o pai.
«Mãe. Olha o pai…» disse Pedrito fingindo-se admirado e
grita. «Pai, estamos aqui.»
A mãe olha para o marido e em simultâneo para o filho.
Não sabe o que fazer. Fica perplexa. O marido aproxima-se e o filho convida-o a
sentar-se. A mãe boquiaberta nada diz. Ezequiel pede licença e Alzira encolhe
os ombros. O marido senta-se.
«Pedrito convidou-me, se não te importas jantamos os três
uma vez que é esse o seu desejo.»
«Este nosso filho é demais. Já o avisei várias vezes e
ele continua a teimar em juntar-te a mim.»
«Querida, não me castigaste já o suficiente?»
«Mãezinha, o pai gosta de ti. Devias perdoá-lo. Ele até
despediu a sua secretária…»
«E eu despedi-o a ele.» Disse Alzira, virando-se para o
filho.
«Não o podes despedir mãe, ele é o meu pai» e continuou
«além disso faço anos hoje e deveria ser eu a convidar quem quisesse.»
Ezequiel passou a mão pela cabecita do petiz e olhou a
mulher com ternura.
«Esta é minha melhor prenda de anos, mãezinha. É tão bom
ter os dois ao pé de mim…»
Alzira sorriu para o filho e disse-lhe: «está bem, por
hoje perdoo-te, mas promete que não voltas a fazer convites sem me avisar, está
bem?»
«Sim mãe.»
O jantar decorria em silêncio, apenas o tagarela do petiz
teimava em manter uma conversação entre pai e mãe.
«Estás contente mãe?»
«Estou sim filho.»
«E tu, pai?»
«Claro que sim. Ao pé de vocês estou sempre contente.»
«Ó mãe… quando é que voltas para casa? Era tão bom que
voltasses. Seria o dia mais feliz da minha vida.» Alzira compreendia o filho.
Custava-lhe aquela situação, mas não perdoara ainda a tirania do marido.
«Querido. És muito novo ainda para te aperceberes de
quanto custa uma humilhação.»
«Mas mãe, quem sofre sou eu. Não posso continuar a viver
uns dias contigo outros com o pai. Não tenho culpa do que fazem os adultos.»
«Tens razão filho», apoiou o pai e continuou «a mãe está
zangada com o pai e não é fácil perdoar o que fiz, embora eu esteja
arrependido.» Disse isto olhando a sua esposa como que a pedir-lhe desculpa.
«Mas a mãe é boa e perdoa, não perdoa mãe?»
Alzira olha o filho com ternura. Faz-lhe uma carícia, mas
não responde à sua pergunta.
«A mãe vai pensar no assunto e depois diz-te.» Responde o
pai pela mãe.
«Olha mãe. Na próxima semana é a festa de Natal na
escola, gostava que o pai e a mãe estivessem presentes. Prometem-me que vão os
dois?» O pai sorriu e a mãe disse que ela iria.
«E tu, pai? Também vais.»
«Vou sim filho.» Respondeu o pai olhando Alzira com um
sorriso.
Pela primeira vez após a malfadada noite de traição, Ezequiel
vislumbrou um ligeiro sorriso na mulher. Pedrito reparou, nem lhe podia ter
passado despercebido dado nunca tirava os olhos de ambos. O jantar terminou e
Ezequiel perguntou se Alzira queria que os levasse a casa.
«Não obrigada, trouxe o carro.»
Despediram-se. Ezequiel estava radiante. Alzira
parecia-lhe menos distante e tudo graças ao seu querido filho.
O dia da festa na escola chegou e novamente os pais se
juntaram. Pedrito conduziu-os a um lugar marcado. Olharam em volta. O seu filho
tinha-lhes reservado um ótimo lugar onde poderiam apreciar em pormenor todas as
atividades do filho. Não tiraram os olhos do filho durante toda a sua
representação, ginástica e outros atividades realizadas. Por seu lado o filho
fazia o mesmo de tal forma que muitas vezes a distração fazia-o errar num ou
noutro momento. Duas horas depois o filho junta-se aos pais.
«Gostaram paizinhos?»
«Gostámos muito.»
«Ó mãe, hoje gostei muito de te ver. Estavas sorridente,
parecias muito feliz. Ficas tão bonita assim…»
Alzira sorriu para o filho apertando-o contra si. Virou a
cara para que este não lhe visse uma fortuita lágrima a querer saltar dos
olhos.
«Olá querida.»
«Olá Ezequiel. O Pedrito fez uma fita tremenda, quer
passar a noite de Natal em “nossa casa”, diz que é a melhor prenda que lhe
poderemos dar. Que me dizes? Onde pensavas ir passar a noite de Natal?»
«Desde que passasse contigo e o nosso filho, qualquer
lado me serviria.»
«Bem, a minha mãe vai passar connosco aí, e prepara a
ceia. Achas bem?»
«Claro que sim. Sabes bem que adoro a tua mãe. Será
também para mim uma prenda muito valiosa ter a família junta.»
«Está bem. Aí estaremos no dia 24. Um beijo.» E desligou
o telefone.
Ezequiel estava radiante. Ao fim de 5 meses a sua mulher
tinha-lhe mandado um beijo. Os dois dias que antecediam a noite de Natal iriam
ser muito longos. Seria finalmente a reconciliação ou voltariam ao mesmo após
aquela noite? Mais dois dias de sofrimento e de esperança. Agradecia a Deus por
lhe ter dado um filho que tudo fizera para os juntar. Amava-o muito. Era um
garoto meigo, terno, inteligente e estudioso. Eram uma família feliz, apenas
perturbada por uma insensatez acidental.
Ezequiel chega a casa naquela tarde de 24. O seu filho
corre a abraçá-lo. Pega-lhe na mão e leva-o à sala e mostra-lhe a árvore de Natal.
«Fui eu que a montei, pai.»
«Que bonita está.» Disse o pai com toda a sinceridade e
continuou «a mãe?» Sem largar a mão do pai e com um sorriso de grande
felicidade corre para a cozinha onde mãe e avó, de avental, preparavam a
consoada. A sua sogra com um sorriso beija o genro e sua esposa olha-o com um sorriso
beija-o também. O filho olhava-os com ternura metendo-se entre ambos a dando
uma mão a cada.
«Que bom, estamos novamente cá em casa, juntos, com os
meus queridos pais, não achas paizinho? Não achas mãezinha?» Os olhos do petiz
irradiavam felicidade. Pai e mãe abraçaram o filho, a sogra sorria.
O jantar decorreu animado, o filho olhava o pai, olhava a
mãe, sorria feliz. Por duas vezes se levantou da mesa para beijar os pais.
«Ó vovó. Eu também gosto muito de ti, mas hoje a noite é
dos meus pais.»
«Eu sei, meu querido.» Disse-lhe a avó, afagando-lhe a
cabeça.
Perto da meia-noite Pedrito grita:
«Está na hora de abrir as prendas.» Disse correndo para a
árvore de Natal e trazendo três pacotinhos que distribuiu pelos pais e avó.
«Vai abrir as tuas, Pedrito.» Disse a mãe enquanto abria
o pacotinho do filho.
Alzira levanta-se e dirige-se ao quarto. Trás uma mão
cheias de papéis e diz para o marido: «estes são os e-mails, que me enviaste. Desculpa não te ter respondido nunca, mas
vou fazê-lo agora.»
Agarra-se ao marido e beija-o com ternura. «Agora vais
ter de me amar muito mais.»
Pedrito chora de alegria agarrado à avó que chora também.
Entre soluços e sorrisos Pedrito corre para os pais
agarra-os com força e diz: «Este foi o presente que pedi ao Menino Jesus.
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