Era um final de mês, dia de
pagamento de ordenados e pensões. O banco estava de posse de umas dezenas de
milhares de euros para esse fim. Nada fazia prever o assalto àquela hora da
manhã, mas aconteceu. Dois homens encapuzados e armados perpetraram o feito. Um
terceiro aguardava dentro do carro à porta do banco. Poucos minutos bastaram
para consumarem o ato. Quando a polícia chegou já o carro iria longe. A
matrícula anotada por alguém de nada servira. Tratava-se de um automóvel preto,
provavelmente um Mercedes, com matrícula falsa. Os dois clientes que
presenciaram o sucedido e os dois empregados do banco, bem como as imagens das
câmaras de vigilância apenas podiam mostrar as estaturas dos assaltantes, já
que os capuzes não deixavam reconhecer as suas fisionomias.
Um telefonema para a polícia às duas da madrugada
denuncia um assassinato. O sobrinho da vítima, jovem na casa dos vinte, está em
histeria. Vivia com o tio deste a morte de sua mãe. Fernando, o assassinado,
rondava os quarenta e poucos anos. A arma do crime, uma pistola propriedade do
senhor Fernando, estava em cima de uma mesa.
«Cheguei há minutos senhor inspetor. Vi a arma em cima
desta mesa e peguei nela para a arrumar na gaveta quando deparei com tudo isto.
Telefonei-vos de imediato.» Disse Augusto, sobrinho do assassinado.
A casa estava numa desarrumação total, como se alguém
procurasse algo. O cão, um pastor alemão, uivava junto ao corpo inanimado. Tudo
apontava ter havido luta antes do tiro de morte.
«O cão é seu?»
«É sim-»
«Estava cá quando chegou?»
«Sim, ia agora levá-lo à rua.»
«Tocou em alguma coisa quando chegou, senhor Augusto?»
Indagou o inspetor.
«Apenas na arma que coloquei aí, em cima dessa mesa» e
continuou «a arma parece ser a do meu tio.»
«Tem onde dormir hoje?» Indagou o inspetor e continuou.
«Necessitamos de ficar aqui pela noite adentro. Quantas chaves há desta casa?
Não há sinal de arrombamento. Quem cá esteve tinha chave ou abriram-lhe a porta.
«Apenas as minhas e as do meu tio.»
O rapaz não pareceu muito convencido, alegando o passeio
com o cão, a roupa para o dia seguinte, etc.
«Pode alugar por esta noite um hotel ou uma pensão. Leve
a roupa que quiser para amanhã e compareça na esquadra a fim de prestar
declarações. Entretanto se quiser pode ir dar um passeio com o cão e volte cá
para levar a sua roupa.»
Augusto varreu a casa com o olhar como de desejasse levar
tudo com ele. O inspetor tinha pressa e apressou Augusto a sair, colocando-se
de costas para a cómoda junto à entrada da casa até Augusto recolher a trela do
cão e levá-lo quase a reboque. Mal o inspetor se viu só com o seu pessoal disse
para o seu ajudante: «repara nestas duas chaves aqui na cómoda. Parecem novas.
Serão do Augusto ou do tio?»
«Aguardemos a sua chegada e logo verificaremos.» «Entretanto guardo-as para as analisar
caso não sejam reclamadas pelo senhor Augusto.
Cinco minutos depois, chega Augusto com o seu cão. Estava
nervoso e deu mostras de não ter pressa em se retirar. Foi preciso o inspetor
dizer para o seu ajudante: «acompanha o senhor Augusto ao quarto para ele
recolher a roupa que necessitar e sair.» E dirigindo-se a Augusto informou:
«Fica cá um agente o resto da noite, por favor não volte cá a casa sem a minha
autorização.» Disse isto entregando-lhe um cartão-de-visita e completando, «amanhã
de manhã passe pela P.J.»
As declarações de Augusto pouco adiantaram ao que já
tinha dito. Não conhecia inimigos do tio nem fazia ideia do que o assaltante
procurava lá em casa. Viviam há uns anos naquela vivenda alugada, desde a morte
da mãe. A senhoria vivia num anexo da vivenda.
«Conhece estas chaves?»
«Provavelmente serão do meu tio.» Respondeu Augusto.
«As do seu tio estão lá em sua casa. Quem mais tem destas
chaves?»
«Não faço ideia, será a senhoria?» Retorquiu Augusto
parecendo seguro do que dizia.
«A arma que matou o seu tio tem as suas impressões
digitais. Porque pegou nela?»
«Pareceu ser a arma de meu tio e este se tivesse
esquecido de a arrumar. Nunca pensei ter havido um crime.»
«Costuma deixar a porta das traseiras fechada apenas no
trinco?» Indagou o inspetor.
«Aquela porta só abre por dentro… não há necessidade de a
fechar à chave.»
«O assassino entrou e saiu de casa provavelmente com
estas chaves ou outras iguais. Não há sinais de arrobamento.»
«É estranho, tanto que eu saiba, apenas havia dois pares
de chaves.»
«Emprestou as suas chaves a alguém?»
«Não senhor inspetor. E penso que o meu tio também o não
faria.»
«Onde esteve ontem entre as 11 e as 2 da manhã?»
«Estive com um amigo num bar, posso confirmar.»
«Ok, por agora é tudo, mas não se ausente do país sem
nossa autorização.»
«Sou suspeito?»
«Todos o são.» Respondeu secamente o inspetor.
«Falaste com a velhota que mora defronte?» Interrogou o inspetor
ao seu colega.
«Sim. Ela passa o dia espreitando o que se passa na
vizinhança e confirma que, no dia do assalto ao banco, o Mercedes preto da
senhoria do senhor Fernando, saiu muito cedo, mais cedo do que o habitual e
cerca das 10 horas da manhã voltou.
«Estranhei vir um
homem a conduzi-lo em vez da senhora Francelina, como era hábito. Vinha um
outro homem ao seu lado, provavelmente o filho de dona Francelina, filho esse
que, raramente lá vai a casa e quando lá vai é para discutir com a mãe,
coitada. Não consegui vê-los porque meteram o carro na garagem e a garagem tem
ligação com o interior da casa. Pouco tempo depois apercebi-me que mais uma vez
mãe e filho discutiam.»
«Palavras dela, e disse mais» continuou o 2.º inspetor.
«Tenho a impressão que o falecido senhor
Fernando andava de amores com a dona Francelina. Calcule senhor inspetor, que
quando um saía, logo o outro o seguia, para não darem nas vistas. Aquela mulher nunca me enganou, sabe fazê-lo
pela calada, a única coisa de bom que ela tinha era a condução, conseguia meter
o carro na garagem à primeira, de marcha atrás, sem qualquer dificuldade, etc.,
etc.»
«Vamos interpelar o sobrinho sobre essa possível
ligação.» Esclareceu o 1.º inspetor Olavo.
«Olavo, já me esquecia de um pormenor que me parece
importante» lembrou o 2.º inspetor João e continuou «o tal homem que ia a
conduzir o Mercedes não voltou a sair. Apenas saiu o filho e a pé, segundo a
vizinha apurou.»
«É muito estranho. Temos de descobrir o paradeiro desse
filho. É curioso a dona Francelina não me ter falado dele, esta manhã quando a
interroguei.»
As conclusões tiradas pelos dois inspetores após
inspecionada toda a casa do assassinado, foram de que as impressões digitais em
toda a casa eram do tio e sobrinho e as impressões digitais das chaves eram de
uma terceira pessoa, talvez do assassino caso este não fosse o Augusto.
Igualmente as impressões digitais na maçaneta da porta das traseiras, que
coincidiam com as das chaves, eram da mesma terceira pessoa. O móbil do crime
não parecera ser roubo, segundo informação de Augusto que não dera por falta de
nada.
«A dona Francelina conhece este homem?» Perguntou o
agente Olavo mostrando uma foto de corpo inteiro.
«Não. Não sei quem é.» Retorquiu Francelina devolvendo a
fotografia ao mesmo tempo que perguntava «quer tomar um café, senhor Olavo?»
«Agradeço dona Francelina.»
Enquanto Francelina se deslocava à cozinha o inspetor
levantou-se, deu uns passos pela sala e aproximando-se de uma mesa onde várias
molduras com fotografias, provavelmente familiares, estavam expostas.
Discretamente fotografou uma. Quando Francelina regressou com 2 cafés numa
bandeja estava Olavo com a moldura onde se via Francelina ao lado de um rapaz
na casa dos 20 anos.
«É o seu filho?» Perguntou apresentando-lhe a moldura.
«É sim senhor inspetor. É o meu Rogério.»
«Não vive consigo?»
«Não. Sabe como são os jovens, gostam da sua
independência…»
«Ele esteve cá recentemente, não esteve?»
«Sim, veio visitar-me há dias.»
Inesperadamente o inspetor pergunta. «A senhora tem
carro?»
«Tenho um Mercedes, já um pouco velho, mas ainda em bom
estado.»
«Posso vê-lo?»
«Pode, mas por quê?»
«Ossos do ofício.»
Sem saber o que dizer Francelina pediu para que o
acompanhasse. Desceu à garagem, abriu a porta, acendeu a luz e com o olhar
apontou o carro. Olavo deu a volta ao carro olhou o interior.
«Está em muito bom estado de facto.» Concordou o agente.
Pelo caminho de regresso à sala agradeceu o café e pediu:
«Pode dar-me o contacto do seu filho?»
Francelina empalideceu, gaguejou e por fim exclamou.
«Sabe… a morada não sei bem, sei lá ir… não é longe daqui.»
«Basta o telefone.»
«Não o sei de cor, tenho-o no telemóvel.» Disse
sentando-se no sofá e tentando mudar de assunto.
«Já sabem quem matou o meu inquilino?»
«Ainda não, andamos a investigar» e continuou «dava-se
bem com o senhor Fernando?»
«Oh, sim, era cumpridor com as rendas e muito atencioso.»
«Conhecia os seus amigos?»
«Não. Apenas o sobrinho.»
«O seu filho conhecia-o?»
«Sim, conheceram-se cá em casa.»
«É por isso que eu preciso de falar com ele. Dê-me o
número do seu telemóvel, por favor.»
Francelina levantou-se, pegou no telemóvel e procurou o
número.
«É este.» Disse mostrando o telemóvel.
Olavo anotou o número e agradeceu. «Voltaremos a falar
dona Francelina.» Disse como despedida.
Já à porta, e depois desta fechada, pegou num cigarro,
acendeu-o muito próximo da porta e constatou que Francelina telefonava para
alguém.
Rogério, filho de Francelina, atendeu o telefone. Ficou
surpreendido ao saber que era da polícia. Tinha aquele número como privado,
poucas pessoas conheciam aquele número. Não podia esquivar-se ao convite de se
apresentar na P.J. conforme lhe fora pedido, seria muito mais grave não o
fazer.
«Boa tarde,» saudou Rogério ao entrar na P.J. «venho
falar com o inspetor Olavo.»
«Faça o favor de entrar» disse o agente que o atendeu
conduzindo-o para um gabinete concluindo «aguarde só uns minutos por favor.»
Olavo entra no gabinete e cumprimenta Rogério. A figura
de recém-chegado espanta o inspetor. Vestia com muito requinte, parecia uma
estrela de cinema.
«Senhor Rogério. Pedi-lhe para aqui vir a fim de
esclarecer algumas questões relacionadas com a morte do inquilino de sua mãe.»
Começou o inspetor.
«Já calculava. Uma morte trágica.»
«Como soube do caso?» Indaga o inspetor.
«Falei ontem com a minha mãe. Ela contou-me o caso.»
«Esteve recentemente em casa de sua mãe?»
«Estive sim, salvo erro anteontem.»
«Visita sua mãe com assiduidade?»
«Nem por isso, senhor inspetor.»
«O que fez nessa noite em que se deu o crime?»
Rogério olha o inspetor com ar interrogativo, mas
responde «passei o dia com a minha namorada e fomos jantar ao restaurante LX. Era
dia do seu aniversário.» Concluiu.
«Conhecia bem o falecido senhor Fernando?»
«Vagamente. Creio que minha mãe andava envolvida num caso
amoroso com ele.»
O inspetor agradece a visita e, ao despedir-se, informa:
«por favor deixe os seus elementos de identificação à saída, provavelmente
terei de incomodar outra vez. Deve compreender que estes casos causam sempre problemas
às pessoas. Já agora mais uma informação» diz o agente e retirando de um
envelope uma foto. «Conhece este homem?»
Rogério pega na foto, olha-a com atenção e devolve-a.
«Não faço a mais pequena ideia de quem seja.»
«Obrigado.»
O inspetor João, assistindo a tudo através de uma câmara
oculta, corre ao gabinete do colega e informa: «Olavo este Rogério não me é
estranho. Tenho a impressão de que já o vi.»
«Investiga tudo acerca desse “manequim”, o que faz, onde
trabalha e principalmente confirma no restaurante LX, a hora a que chegaram e
saíram.» Disse Olavo.
As investigações prosseguiam. A
velhota bisbilhoteira, uma senhora reformada, forneceu pormenores dos vizinhos
com horas e dias, o que faziam, quem visitavam, etc. Recordava-se da manhã em
que se deu o assalto ao banco o Mercedes da D. Francelina ter chegado conduzido
por um homem de bigode com chapéu de motorista e óculos escuros. Facto este
comprovado por testemunhas que presenciaram a fuga do carro escuro naquela
manhã. O estranho era: quem seria o homem de bigode que tinha entrado na casa
de Francelina e não ter saído? O filho de Francelina, Rogério, era suspeito de
um desfalque na empresa onde trabalhara, não tendo havido provas suficientes
para condenação. A D. Francelina, na noite do crime, entrara em casa do senhor
Fernando com uma caixa, aparentemente caixa de bolos, mas a vizinha não a viu
sair. Pouco tempo depois viu alguém entrar, mas não conseguiu distinguir quem.
Poucos minutos depois ouviu um silvo que lhe fez lembrar um tiro e correu à
janela. Poucos segundos após o silvo a mesma personagem sai da casa.
Os inspetores debatiam-se com
as dúvidas_
- Estaria o assalto ao banco
relacionado com o assassínio?
- Quem seria o misterioso
condutor do Mercedes?
- Que fora fazer a dona
Francelina na noite do crime a casa do senhor Fernando com uma caixa de bolos?
- Quem mais entrara em casa
antes da chegada do sobrinho Augusto?
- Qual o papel do filho de
Francelina no meio de tudo isto?
- Estaria o sobrinho de
Fernando inocente como parecia?
Havia muitas questões que
precisavam de ser esclarecidas. Teriam de recomeçar tudo de novo, voltar a convocar
todos os intervenientes e principalmente rebuscar todos os cantinhos das casas
de Francelina e seu filho, e a do falecido Fernando. As imagens das câmaras de
vigilância do banco foram dissecadas com minúcia. As horas de entradas e saídas
eram analisadas ao pormenor. As distâncias entre as casas dos suspeitos e do
restaurante XL foram cronometradas.
Foram conseguidos mandados de
buscas às casas, mas os inspetores preferiam fazê-lo na ausência dos seus
proprietários. Por isso foram convocadas as presenças dos suspeitos na P.J. e
enquanto isso os agentes aproveitaram esse período para rebuscarem tudo em
pormenor.
Resultaram bastantes frutíferas as
buscas, principalmente na casa de Fernando, o assassinado. O facto da dona
Francelina ter entrado na casa de Fernando com uma caixa, aparentemente de
bolos, conforme descrição da vizinha, deu muito que pensar ao agente. As buscas
em casa de Rogério foram igualmente valiosas, o filho de Francelina
provavelmente estaria implicado no assalto ao banco, por essa razão convocou
uma nova reunião nas instalações da P.J. com mãe e filho.
«Dona Francelina. Pode dizer-me
o que foi fazer a casa do senhor Fernando na noite do crime com uma caixa cheia
de não sei o quê?» Francelina corou, gaguejou, mas acabou por confessar.
«Tinha uns dinheiros em casa e
como o meu filho bisbilhotava tudo, tive receio que me levasse as minhas
economias e, por esse motivo, resolvi escondê-las em casa do senhor Fernando.
Há lá um lugar secreto que só eu conhecia. Sabia que Fernando não estava em
casa e aproveitei a sua ausência para o fazer.»
Enquanto decorria esta conversa
com o inspetor Olavo, o 2.º inspetor João, numa outra sala da P.J., interrogava
o filho de Francelina.
«Senhor Fernando. Confirmámos
que o senhor e sua namorada jantaram juntos no restaurante LX na noite da morte
do senhor Fernando, no entanto o senhor ausentou-se por cerca de vinte minutos.
Pode informar-nos aonde foi?»
Rogério com um à vontade
surpreendente informou:
«Fui a casa buscar a carteira
que me tinha esquecido.»
«Obrigado senhor Rogério, por agora é tudo. Tenha uma boa
tarde.»
Os dois inspetores encarregados do caso conferenciavam e
estudavam todos os depoimentos e resultados das buscas. As impressões digitais
deixadas nas chaves e na maçaneta da porta das traseiras pertenciam a
Francelina. Ela tinha entrado em casa de Fernando pela porta da frente e saído
pelas traseiras, deixando as chaves em cima da mesa do Hall de entrada.
«Repara Olavo, uma senhora não tem bolsos e como tal, ao
sair de casa com uma caixa mão e umas chaves na outra com a ideia de ir a uma
casa ao lado, não leva carteira, não tendo onde guardar as chaves. Abre a
porta, pousa as chaves em cima da mesa, faz o que tem a fazer e volta para a
saída, pega nas chaves e sai. Provavelmente, depois de esconder o dinheiro,
alguém entra em casa. Fica com receio que a vejam lá dentro e corre para as
traseiras e sai. A vizinha não a vê sair, pois esperava vê-la sair pela porta
da frente.»
«É nessa altura que entra o senhor Fernando e pouco depois
o filho da dona Francelina com as chaves que tinha mando copiar na casa das
chaves, conforme investigação, dando-se então o assassinato» alvitra o inspetor
Olavo.
«Vamos recapitular tudo, e reunir os culpados. Contaremos
a história como nos parecer mais verosímil e aguardaremos as suas versões.»
«Sentem-se por favor.» Convidou o inspetor Olavo. O
inspetor João pede autorização para que a conversa na reunião seja gravada.
Entreolham-se os três mas nenhum se opôs.
«Dona Fernanda. Vou começar por contar a nossa versão
sobre o que se passou desde a manhã do assalto ao banco e a noite em que o
senhor Fernando foi assassinado. No final, agradeço que me corrijam se não
estiver de acordo com a verdade.» Olavo olhou demoradamente para cada um dos
três e concluiu. «Estão de acordo?» Mais uma vez o silêncio foi total.
O inspetor começa: Cerca
das 9 da manhã, dona Francelina coloca um falso bigode, uns óculos de sol,
esconde o cabelo sob um boné de motorista e sai. Um pouco adiante apanha o
senhor Fernando e sobrinho e dirigem-se para o banco. Enquanto o senhor
Fernando e seu sobrinho Augusto assaltam o banco, aguarda à porta. Consumado o
feito arranca em alta velocidade já com os assaltantes dentro do carro. Uns
quilómetros mais adiante para o carro, substitui a matrícula falsa, deixa o
senhor Augusto perto do café e regressa a casa com o senhor Fernando. Enquanto
guardam o dinheiro juntamente com a pistola de Augusto, dentro de uma caixa,
chega o seu filho. Discutem, provavelmente para saber quanto rendeu o assalto.
Entretanto seu filho sai sozinho.
Neste momento o inspetor faz
uma pausa o observa o semblante de todos. Apenas Francelina mostra um ar
preocupado.
«Continuando.» Diz o inspetor. A dona Francelina teme o regresso do seu filho e que este a apanhe
sozinha em casa podendo extorquir-lhe a sua quota-parte do dinheiro roubado, já
que o planeamento do assalto era de sua autoria. Por isso resolve esconder o
dinheiro em casa de Fernando numa gaveta disfarçada num degrau da escada que
separa a sala dos quartos no primeiro andar. Quando está pronta para sair, ouve
alguém a entrar. Temendo ser vista, corre para a porta das traseiras e sai
deixando as chaves daquela casa em cima da cómoda.
Nesta altura Francelina
remexe-se inquieta. Fernando e Rogério sorriem, embora mostrando uma ligeira
preocupação que não passou despercebida aos inspetores.
«Querem tomar um café ou preferem que eu continue?»
Perguntou o inspetor.
«Continue senhor inspetor. Estamos a gostar da história.
O senhor tem uma imaginação prodigiosa.» Disse Augusto com um sorriso forçado.
«Muito bem. Continuando.» São 11 horas da noite. O senhor Rogério sai do restaurante XL,
dirige-se a casa do senhor Fernando, abre a porta com as chaves que mandara
copiar no dia anterior, procura o dinheiro remexendo tudo e eis que chega o
senhor Fernando. Discutem. O senhor Fernando pega na arma e aponta ao senhor
Rogério. Lutam. O senhor Rogério domina o senhor Fernando e dispara contra ele.
Limpa as impressões digitais e pousa a arma em cima da mesa. Sai. «Fim.»
Disse o inspetor.
«A história foi muito bem contada senhor inspetor,
mas recorde-se que eu tenho testemunhas que abonam o que lhe tinha já dito.
Estive a jantar sempre acompanhado. Além disso o que leva a pensar que eu
estive envolvido no assalto?» Indagou Rogério.
«Claro, claro senhor Rogério. Não se esqueça que se
ausentou por cerca de 20 minutos para ir a casa buscar a carteira, tempo
suficiente para ir e a casa do senhor Fernando e voltar enquanto a sua namorada
o esperava no restaurante.» Retorquiu o inspetor e, retirando de um envelope
algumas fotografias, apresentou-as a Rogério. A sua cara transfigurou-se. As
fotos apresentadas mostravam plantas do banco, horas, setas, e outros elementos
próprios de um esquema de entrada e saída daquele estabelecimento bancário.
«Como conseguiu estas fotografias? Esteve em minha casa
na minha ausência?» O inspetor não respondeu.
«O que o leva a acusar-me de homicídio quando acabou de
dizer que a arma tinha sido limpa das impressões digitais?»
«Sim, foi limpa e as impressões digitais visíveis são as
do senhor Augusto, por ter pegado nela para a arrumar, mas o senhor quando a
limpou esqueceu-se do gatilho, onde o seu dedo indicador deixou bem marcada a
sua impressão digital.»
«Como sabe que é a minha impressão digital?»
«Pela fotografia que lhe apresentei de um homem,
perguntando-lhe se conhecia o cavalheiro.»
«Senhor inspetor, que tenho eu a ver com tudo isto?»
Interrompe Augusto.
Uma vez mais o inspetor rebusca outra fotografia, uma
foto de uma arma onde está bem visível uma gravação a pantógrafo com a letra
‘A’. «Esta arma é sua, não é verdade?»
«Sim, mas continuo a perguntar, que tenho eu a ver com
isto?»
Novamente o inspetor apresenta outra fotografia. «Como
pode verificar senhor Augusto, esta fotografia ampliada foi obtida através do
vídeo do banco. É bem visível a sua mão enluvada apontar esta arma.»
«D. Francelina. Há alguma alteração que queira introduzir
à minha história?» Indaga o inspetor.
«Eu não assaltei o banco.»
«Mas ficou à porta para recolher os assaltantes,
colaborando desta forma no assalto.»
Os restantes arguidos ficaram em silêncio. Reconheciam
que a história estava muito próxima da realidade.
«Por agora é tudo. Ficam desde já em prisão preventiva
até julgamento. Aconselho a que arranjem um bom advogado, pois vão bem precisar
dele.»
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