quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Em Terra de "Cegos", quem tem Dedos é Rei.


               Decorria o ano de 1993, estava eu ao serviço da Sociedade Portuguesa de Medalhística como vendedor. Vendia medalhas, troféus e outros artigos afins. 
            Na altura a ADFA (Associação dos Deficientes das Forças Armadas), estava sediada no palácio da Independência, no largo de S. Domingos, desde 1974. As obras da nova sede na avenida Padre Cruz estavam quase concluídas. Sou convidado a apresentar proposta para a elaboração de uma medalha comemorativa para a sua inauguração.
            Um simpático na altura capitão, também ele deficiente das Forças Armada, cego e mutilado de uma mão na guerra em Moçambique, propõe-me a feitura de uma medalha. A face “A” deveria apresentar uma escultura do Palácio da Independência e a inscrição “AQUI NASCESMOS”. Na face “B”, as novas instalações e a inscrição “AQUI PERPETUAMOS”. Todas as medalhas seriam numeradas, a fim de maior valor lhes ser atribuído. As primeiras banhadas a ouro ou prata, teriam a numeração mais baixa e seriam entregues por mim, diretamente a esse senhor capitão.
            Para aqueles que não tenham conhecimento dos passos a que obriga a conceção de uma medalha, e a fim de melhor se aperceberem da causa desta minha história, dou algumas dicas das passagens desde a encomenda até à sua entrega.
            O fabricante apresenta ao interessado um ou mais esboços da medalha a fabricar. Após a sua aprovação são elaborados desenhos com cerca de 30 cm de diâmetro. Nesses desenhos, um por cada face da medalha, constará tudo o que será inserido na mesma. Quando esta obriga a escultura, normalmente rostos ou relevos arredondados, como era o caso, haverá a intervenção de um escultor que executa uma escultura, normalmente de gesso, com igual dimensão, mediante fotos ou desenhos apresentados.

           Por cada etapa vai sendo o cliente informado, que por sua vez vai aprovando as esculturas ou os desenhos.
           Das esculturas são tirados negativos em resina líquida que depois de arrefecida fica dura como pedra. Com o pantógrafo gravam-se os negativos em bolachas de aço, com aproximadamente 10 cm de diâmetro (os cunhos), um para a primeira face da medalha e outro para a segunda. Após os cunhos gravados é tirada uma primeira amostra da medalha, normalmente em plasticina ou chumbo (materiais macios). Mais uma vez a apreciação e aprovação final são do comprador.
           O vendedor é o porta-voz entre o desenhador, o escultor, o gravador e o cliente. As informações recolhidas do cliente, alterações ou aprovações, terão de ser transmitidas com todo o rigor e precisão aos intervenientes na fábrica.
          No caso apresentado, como seria óbvio, o responsável pela compra, o senhor capitão, limitava-se a ouvir as informações ou opiniões dos seus colaboradores.
           No dia combinado a entrega é efetuada. As medalhas são entregues nos armazéns da ADFA e as primeiras banhadas a ouro ou a prata, em estojo de luxo, são levadas por mim, orgulhoso do bom trabalho executado.
           Com uma suavidade impressionante, reparo nos dedos do capitão que “liam” cada pormenor da escultura (a face “A”, AQUI NASCEMOS). Parecia acariciar um rosto de uma jovem, não a querendo magoar. Sorriu e comentou «está bonita». Virou a medalha. O mesmo acariciamento demorado na escultura e o mesmo sorriso. Parecia contente do trabalho que eu lhe tinha apresentado. Sorri também, satisfeito por ter apresentado um trabalho digno da empresa que representava. De repente o seu semblante toldou e virando-se para mim comentou:
           «Que diz aqui?»
           «AQUI PERPETUAMOS» comentei.
           «Com um C”?»
           Olhei novamente a medalha. Não havia dúvidas. O bom trabalho apresentado continha uma lacuna, um erro ortográfico “PERPECTUAMOS”. Como fora possível? Dezenas de pares de olhos tinham visto e revisto desenhos, esculturas, medalhas e ninguém reparara no erro. Não me perdoei; eu que sempre fora um perfecionista, um purista da língua materna, como permitira tal erro?
          O erro estava dado. A data da comemoração não podia ser alterada. As medalhas não podiam ser retificadas e a entrega de novas medalhas demoraria num mínimo uma semana. Com mil desculpas e uma “atenção” ao preço, as medalhas perpetuam para a eternidade.

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