Decorria o ano de 1993, estava
eu ao serviço da Sociedade Portuguesa de Medalhística como vendedor. Vendia
medalhas, troféus e outros artigos afins.
Na altura a ADFA (Associação dos
Deficientes das Forças Armadas), estava sediada no palácio da Independência, no
largo de S. Domingos, desde 1974. As obras da nova sede na avenida Padre Cruz
estavam quase concluídas. Sou convidado a apresentar proposta para a elaboração
de uma medalha comemorativa para a sua inauguração.
Um simpático na altura capitão, também ele deficiente das
Forças Armada, cego e mutilado de uma mão na guerra em Moçambique, propõe-me a
feitura de uma medalha. A face “A” deveria apresentar uma escultura do Palácio
da Independência e a inscrição “AQUI NASCESMOS”. Na face “B”, as novas
instalações e a inscrição “AQUI PERPETUAMOS”. Todas as medalhas seriam
numeradas, a fim de maior valor lhes ser atribuído. As primeiras banhadas a
ouro ou prata, teriam a numeração mais baixa e seriam entregues por mim,
diretamente a esse senhor capitão.
Para aqueles que não tenham conhecimento dos passos a que
obriga a conceção de uma medalha, e a fim de melhor se aperceberem da causa
desta minha história, dou algumas dicas das passagens desde a encomenda até à
sua entrega.
O fabricante apresenta ao
interessado um ou mais esboços da medalha a fabricar. Após a sua aprovação são
elaborados desenhos com cerca de 30 cm de diâmetro. Nesses desenhos, um por
cada face da medalha, constará tudo o que será inserido na mesma. Quando esta obriga a escultura, normalmente rostos ou relevos arredondados, como era o caso, haverá a intervenção de um escultor que executa uma escultura, normalmente de gesso, com igual dimensão, mediante fotos ou desenhos apresentados.
Por cada
etapa vai sendo o cliente informado, que por sua vez vai aprovando as esculturas
ou os desenhos.
Das
esculturas são tirados negativos em resina líquida que depois de arrefecida
fica dura como pedra. Com o pantógrafo gravam-se os negativos em bolachas de
aço, com aproximadamente 10 cm de diâmetro (os cunhos), um para a primeira face
da medalha e outro para a segunda. Após os cunhos gravados é tirada uma
primeira amostra da medalha, normalmente em plasticina ou chumbo (materiais
macios). Mais uma vez a apreciação e aprovação final são do comprador.
O
vendedor é o porta-voz entre o desenhador, o escultor, o gravador e o cliente.
As informações recolhidas do cliente, alterações ou aprovações, terão de ser
transmitidas com todo o rigor e precisão aos intervenientes na fábrica.
No caso
apresentado, como seria óbvio, o responsável pela compra, o senhor capitão,
limitava-se a ouvir as informações ou opiniões dos seus colaboradores.
No dia
combinado a entrega é efetuada. As medalhas são entregues nos armazéns da ADFA
e as primeiras banhadas a ouro ou a prata, em estojo de luxo, são levadas por
mim, orgulhoso do bom trabalho executado.
Com uma
suavidade impressionante, reparo nos dedos do capitão que “liam” cada pormenor
da escultura (a face “A”, AQUI NASCEMOS). Parecia acariciar um rosto de uma
jovem, não a querendo magoar. Sorriu e comentou «está bonita». Virou a medalha.
O mesmo acariciamento demorado na escultura e o mesmo sorriso. Parecia contente
do trabalho que eu lhe tinha apresentado. Sorri também, satisfeito por ter
apresentado um trabalho digno da empresa que representava. De repente o seu
semblante toldou e virando-se para mim comentou:
«Que diz
aqui?»
«AQUI
PERPETUAMOS» comentei.
«Com um
C”?»
Olhei
novamente a medalha. Não havia dúvidas. O bom
trabalho apresentado continha uma lacuna, um erro ortográfico “PERPECTUAMOS”.
Como fora possível? Dezenas de pares de olhos tinham visto e revisto desenhos,
esculturas, medalhas e ninguém reparara no erro. Não me perdoei; eu que sempre
fora um perfecionista, um purista da língua materna, como permitira tal erro?
O erro
estava dado. A data da comemoração não podia ser alterada. As medalhas não podiam
ser retificadas e a entrega de novas medalhas demoraria num mínimo uma semana.
Com mil desculpas e uma “atenção” ao preço, as medalhas perpetuam para a eternidade.
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