São
nove da manhã, uma manhã de outono do passado mês de novembro. Espreito através
da janela e avalio o frio que deve estar lá fora. Muitas pessoas deslocam-se
para o emprego agasalhadas com o guarda-chuva no braço adivinhando um dia
chuvoso. Uma senhora amparada pelo guarda-chuva, já na quarta idade, caminha
pela rua, fora do passeio, junto aos automóveis estacionados. É a minha vizinha
do prédio fronteiriço, esposa do falecido vidraceiro, meu antigo fornecedor de
vidros e espelhos de pequena dimensão. Dias antes, de dentro do meu carro,
tinha-a aconselhado a seguir pelo passeio. «O passeio é para quem pode». Limitou-se
a responder. Pretendia dizer-me que o passeio, mal calcetado, não era para os
seus pés já trôpegos. A rua asfaltada era mais plana e de melhor piso. Várias
vezes a tinha visto a caminhar pelo alcatroado sem saber o motivo.
Um
homem de certa idade passava apressado com um saco de compras. Pelo seu aspeto
sisudo e pelo tamanho do saco, devia ter sido obrigado pela mulher a sair em
busca de pão para o pequeno-almoço. Um outro, igualmente vindo das compras,
este com um ar alegre e pelo tamanho do saco, devia ter ido à mercearia comprar
arroz, batatas e couves para a sopa do almoço. Pressinto que tenha dito à mulher:
«querida fica um pouco mais na cama enquanto eu vou às compras».
Aquela,
com o pequenito pela mão, por certo o vai pôr no infantário e depois segue para
o escritório. Pelo seu aspeto deve ser funcionária da Junta de Freguesia ou, o
mais provável, empregada num escritório privado das imediações de minha casa,
dado que já passa das 9 e a Junta não permite uma entrada tardia. Um cavalheiro
para o carro em segunda fila e dirige-se para o café. Veste bem; vem de fato e
gravata. Deve ser diretor daquela empresa mais acima, na minha rua.
Para
um bocado. Deixa de bisbilhotar a vida de cada um. Disse
para comigo próprio.
Olhei
em frente e vi o Cristo Rei de braços abertos, do lado esquerdo da ponte
Salazar, mais tarde rebatizada por Ponte 25 de Abril. Parecia dizer-me: «vai
fazer qualquer coisa, deixa-te de apreciações patetas».
«Está bem, tens razão. Deixa-me olhar um
pouco o céu e o tempo e vou já ler um pouco».
Olhei
o céu. As nuvens corriam devagar para Leste. Pareciam não ter pressa. Iam
mascaradas de coelhos, outras pareciam monstros marinhos trazendo atrás de si
pequenos monstros, provavelmente filhos; aquela grande, vinha em forma de
girafa com uma cauda enorme.
As
nuvens seguem para Leste e dão a volta à Terra? Com sua lentidão quanto tempo durará
a circunvalação? Ou haverá uma fábrica de nuvens a Oeste? E, se assim for, quando
derem a volta à Terra juntar-se-ão às já fabricadas?
Pensei nisso durante bastante tempo, mas o Cristo Rei não me deu resposta. Tenho
a impressão que me olhou e repreendeu.
Fique irritado com o seu
silêncio e sentei-me à mesa, de costas para a janela ou seja, de costas para Ele
e abri um livro: o 3.º e último volume do “1Q84” de Haruki Murakami (romance
interessante do qual vos falarei mais tarde).
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