terça-feira, 4 de dezembro de 2012

DA MINHA JANELA


São nove da manhã, uma manhã de outono do passado mês de novembro. Espreito através da janela e avalio o frio que deve estar lá fora. Muitas pessoas deslocam-se para o emprego agasalhadas com o guarda-chuva no braço adivinhando um dia chuvoso. Uma senhora amparada pelo guarda-chuva, já na quarta idade, caminha pela rua, fora do passeio, junto aos automóveis estacionados. É a minha vizinha do prédio fronteiriço, esposa do falecido vidraceiro, meu antigo fornecedor de vidros e espelhos de pequena dimensão. Dias antes, de dentro do meu carro, tinha-a aconselhado a seguir pelo passeio. «O passeio é para quem pode». Limitou-se a responder. Pretendia dizer-me que o passeio, mal calcetado, não era para os seus pés já trôpegos. A rua asfaltada era mais plana e de melhor piso. Várias vezes a tinha visto a caminhar pelo alcatroado sem saber o motivo.
Um homem de certa idade passava apressado com um saco de compras. Pelo seu aspeto sisudo e pelo tamanho do saco, devia ter sido obrigado pela mulher a sair em busca de pão para o pequeno-almoço. Um outro, igualmente vindo das compras, este com um ar alegre e pelo tamanho do saco, devia ter ido à mercearia comprar arroz, batatas e couves para a sopa do almoço. Pressinto que tenha dito à mulher: «querida fica um pouco mais na cama enquanto eu vou às compras».
Aquela, com o pequenito pela mão, por certo o vai pôr no infantário e depois segue para o escritório. Pelo seu aspeto deve ser funcionária da Junta de Freguesia ou, o mais provável, empregada num escritório privado das imediações de minha casa, dado que já passa das 9 e a Junta não permite uma entrada tardia. Um cavalheiro para o carro em segunda fila e dirige-se para o café. Veste bem; vem de fato e gravata. Deve ser diretor daquela empresa mais acima, na minha rua.
Para um bocado. Deixa de bisbilhotar a vida de cada um. Disse para comigo próprio.
Olhei em frente e vi o Cristo Rei de braços abertos, do lado esquerdo da ponte Salazar, mais tarde rebatizada por Ponte 25 de Abril. Parecia dizer-me: «vai fazer qualquer coisa, deixa-te de apreciações patetas».
«Está bem, tens razão. Deixa-me olhar um pouco o céu e o tempo e vou já ler um pouco».
Olhei o céu. As nuvens corriam devagar para Leste. Pareciam não ter pressa. Iam mascaradas de coelhos, outras pareciam monstros marinhos trazendo atrás de si pequenos monstros, provavelmente filhos; aquela grande, vinha em forma de girafa com uma cauda enorme.
As nuvens seguem para Leste e dão a volta à Terra? Com sua lentidão quanto tempo durará a circunvalação? Ou haverá uma fábrica de nuvens a Oeste? E, se assim for, quando derem a volta à Terra juntar-se-ão às já fabricadas? Pensei nisso durante bastante tempo, mas o Cristo Rei não me deu resposta. Tenho a impressão que me olhou e repreendeu.
Fique irritado com o seu silêncio e sentei-me à mesa, de costas para a janela ou seja, de costas para Ele e abri um livro: o 3.º e último volume do “1Q84” de Haruki Murakami (romance interessante do qual vos falarei mais tarde).

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