Decorriam os anos 60,
trabalhava eu na Sanvik. Dois colegas meus, casados, planearam um fim de semana
em Sevilha. Iriam de carro e, tendo um lugar vago (eles levavam as respetivas
mulheres), convidaram-me. Na altura eu namorava com aquela que viria a ser
minha mulher. O carro apenas leva 5 pessoas e não a podia levar, primeiro porque
não havia lugar, segundo os tempos eram outros e as mentalidades também.
Quinta-feira após o almoço partimos. Os cerca de 500 km,
embora sem autoestradas, seriam feitos em 5 ou 6 horas, contando com as
paragens para os cafés. Não marcámos hotel. Quando lá chegássemos trataríamos
disso.
A Lurdes, mulher dum já falecido colega, algumas horas
após a partida perguntou: «quanto tempo falta?»
«Daqui a uma hora estamos lá.» Respondi sem sequer saber
a quantos quilómetros estávamos.
Pouco tempo depois a mesma pergunta surgiu.
«Quanto tempo falta?» A minha resposta foi a mesma. Mais
uns quilómetros e a pergunta repete-se, e a resposta «daqui a uma hora estamos
lá» foi dada mais uma vez. Cerca das 9 da noite avistei uma tabuleta com a indicação
SEVILHA 7 KM quando a minha amiga Lurdes voltou à mesma questão. A resposta
desta vez veio em coro. DAQUI A UMA HORA ESTAMOS LÁ. Risota geral.
O condutor para à porta de um hotel de 3 estrelas. Como
eu sabia dizer buenas noches e tienes habitacion, fui encarregado de
falar com o rececionista.
«Não, não, está esgotado.» Foi a pronta resposta e
continuou «talvez aqui atrás, há um outro hotel.» Também estava esgotado. E o
outro também e mais outro esgotado. Tentámos os de 4 estrelas, os de 5, mas em
vão. Recorremos a pensões, hostales, mas parecia que todo o mundo tinha ido
passar a semana Santa a Sevilha.
Já desesperados pensámos ir para a estrada e procurar um
motel ou regressar a Lisboa, quando num primeiro andar duma ruela estreita
deparamos com um letreiro luminoso “Hostal
Estrella”. Subi ao primeiro andar por uma escada estreita e suja. Numa
receção que mais parecia um balcão de uma tasca, um sorridente empregado
atendeu-me. Também estava cheio.
«Nesta altura do ano Sevilha fica repleta de turistas,
dificilmente conseguirão alojamento» disse-me o sorridente empregado
continuando «cuántas noches se quedarán en sevilla?»
«Apenas 3, partimos no domingo.»
«Cuántas habitaciones necesitas?»
«Dois casais e um solo. Três quartos chegam.»
«À saída de Sevilha, na estrada para Madrid, a cerca de
15 km, há uma aldeia que não tem saída. Aí existe uma pensão onde se hospedam
uns mineiros. Nesta altura do ano vão para casa. Se usted quiser posso telefonar». Agradeci. Que mais podia desejar?
Enquanto o empregado telefonava olhei à minha volta
repugnado. Quem dormiria em tal hostal? Olhei as paredes que escorriam uma
humidade castanha. *Pareceu-me ver passar uma barata, mas provavelmente era
impressão minha.
«Sim o Pablo cede-lhe
os 3 quartos. Terão de dormir nos quartos de mineiros, mas as gavetas e armários
contêm a sua roupa.»
Agradeci e depois das explicações do caminho a percorrer,
saí.
«Então? Também está esgotado?» Perguntaram-me assim que
cheguei ao carro.
«Está, mas mesmo que não estivesse por certo que ninguém
lá quereria dormir. No entanto há uma possibilidade a cerca de 15 km.»
Depois das explicações transmitidas pelo simpático
empregado, lá seguimos para a pensão dos mineiros. Começava a chover. Tínhamos
fome, eram quase 11 da noite, podia ser que na pensão nos servissem qualquer coisa.
Para chegarmos à aldeola, tivemos de passar por um túnel
com um declive acentuado, sob a estrada principal. Segundo a informação a
pensão situava-se na rua principal, a meio, à esquerda. Não foi difícil
encontrá-la. Era uma modesta pensão e o dono gentilmente cedeu-nos os 3 quartos
com lençóis lavados. Não serviam refeições, mas ele próprio preparou-nos umas
couves salteadas, uns ovos com salsichas, pão, vinho e café. A fome era tanta
que elogiámos o petisco e comemos tudo. Subimos aos quartos, tomámos banho,
perfumámo-nos, vestimos fato e gravata (na altura era essa a moda) e as duas
senhoras vestidas com vestidos de noite e com casacos de pele, preparávamo-nos
para uma noite de farra. Descemos ao hall e a chuva continuava a cair desta vez
com mais intensidade. O Pablo olhou-nos
espantado. Deve ter pensado: onde vão a
esta hora, todos janotas?
Despedimo-nos agradecendo mais uma vez o suculento
jantar.
«Divirtam-se, venham à hora que quiserem, estou a pé.»
Corremos para o carro. A chuva não vinha nada a calhar.
Descemos a rua e quando nos aproximámos do túnel tivemos uma surpresa. Havia um
enorme poça de água não nos permitindo sair da aldeola.
«Só nos faltava isto. Que fazemos agora? Não há outra
saída…»
«Voltamos para trás, vamos comprar uma garrafa de whisky
e entretemo-nos a jogar às cartas ou a conversar.»
E voltámos. Parámos à porta de um café e mais uma vez sou
eu que vou falar com o dono do café para nos ceder uma garrafa de whisky.
«Solo tengo esto,
está quasi llena.»
«Quanto Vale.»
«30 Pesetas.
Era mais cara que uma garrafa cheia, disse que não
queria.
«Aquele palerma queria 30 Pesetas por meia garrafa de
whisky.» Disse eu ao chegar ao carro.
«Vamos dar uma volta e procurar noutro café.» Disse um
deles
Demos duas voltas à aldeia, mas cafés nem cheiro. Estava
tudo fechado. Voltámos ao mesmo.
«Ahora non te la
vendo.» Disse-me o dono do café.
Não restavam dúvidas. A viagem tinha começado mal. Só
havia uma solução. Voltar para a pensão. O simpático Pablo cedeu-nos uma garrafa de brande espanhol e emprestou-nos umas
cartas.
«Como se sai daqui quando chove?» Perguntei a Pablo.
«Só os jeeps é que conseguem sair. O Manolo, o dono do
café, tem uns barrotes para um caso de emergência e com a ajuda dos clientes
colocam-nos no túnel.»
«Estamos feitos.» Comentou um dos meus amigos.
«Vocês tinham alguma festa planeada para hoje?» Perguntou
Pablo.
«Não. Íamos apenas dar um passeio pela cidade.»
«Hoje está tudo fechado. E a chover como está…»
«Nem nos lembrámos disso.» Comentou um do grupo.
Despedimo-nos de Pablo e subimos ao primeiro andar. Havia
uma pequena sala onde nos sentámos a comentar a viagem.
«Se amanhã chover passamos aqui o dia?» Perguntou uma das
senhoras.
«Vamos ter de recorrer ao Manolo para nos emprestar os
barrotes.» Comentou alguém.
«Estou mesmo a ver. Amanhã Vou falar com o Manolo e
digo-lhe. «Manolo, empresta-me os teus barrotes?» E ele responde. «Estão ali,
leva-os.» Ou então, pede ajuda aos seus clientes, colocam os barrotes e ficam
de longe a apreciar a manobra do nosso carro passar por cima de dois barrotes
apodrecidos e ver o carro mergulhar na poça.» Todos riram, embora sem vontade.
«Amanhã vamos lá tomar o pequeno-almoço e fazemos as
pazes com o Manolo.» Disse um outro.
Por volta das oito acordei. Olhei à janela. O tempo
estava ótimo, sem chuva e o sol parecia convidar-nos a um passeio. A partir
dessa hora já ninguém dormiu devido aos meus gritos de “DESPERTAR”.
Fomos ao Manolo tomar o pequeno-almoço. À cautela fui o
último a entrar. Acolheu-nos muito simpaticamente e serviu-nos
principescamente.
«Se for necessário já temos barrotes não apodrecidos para
passarmos o túnel.» Disse eu num português rápido para que o Manolo ou os
outros clientes não percebessem. Felizmente o caminho estava livre e saímos sem
problemas.
Sexta-feira Santa, tudo fechado. Apenas restaurantes e
cafés abertos. Aproveitámos para uma visita à cidade. Era a primeira vez que
íamos a Sevilha. À noite, encontrámos um recinto onde o “Tablao Flamenco” atuava para turistas. Como o tempo estava sem chuva
e o perigo de regresso à pensão parecia não problemático, assistimos ao
bailado. Regressámos bastante tarde, mas o Pablo lá estava sorridente à nossa
espera. No dia seguinte o tempo continuava ameno e dedicámos o dia em compras, caramelos,
garrafas de whisky e brande, bolachas e outras bugigangas. Um dos nossos amigos
comprou um sobretudo em pele de camelo e não mais o despiu. As adversidades da
viagem pareciam ter passado, pensava eu.
Domingo, cedo nos levantámos. O tempo estava bom, sem
chuva. Despedimo-nos do Pablo trocando cartões-de-visita. Tomámos o pequeno-almoço
no Manolo e prometemos voltar. Tínhamos conquistado um amigo. O nosso companheiro que comprara o sobretudo
continuava com ele vestido, provavelmente teria dormido com ele, nem mesmo no
carro o despiu.
Seria próximo do meio-dia quando chegámos à fronteira
espanhola. O guarda da fronteira olhou para dentro do carro e perguntou: “Tienes algo a declarar?»
«Não, não temos.»
«Por favor abra el
maletero del coche.»
Abrimos. Sacos com caramelos, garrafas e outras
bugigangas foram inspecionadas.
«Quantas garrafas levam?» Perguntou o guarda.
«Eu levo duas.» Disse eu.
«E ustedes?» Tínhamos
seis garradas ao todo. Por lei, apenas era permitido transportar uma por
pessoa. Pelo menos assim nos foi informado pelo guarda-fiscal. Resultado: ou
pagava direitos alfandegários pela garrafa extra (o que era uma exorbitância)
ou ficaria uma retida na alfândega para uma hipotética viagem breve a Sevilha.
Enquanto isto, já todos nós estávamos fora do carro para
desentorpecer as pernas. O do sobretudo sempre vestido, observava a cena
calado, olhando ora para nós ora para o guarda.
O guarda não satisfeito com apenas uma garrafa, olhou
mais uma vez o interior do carro.
«Qué es eso?» Disse
ele apontando para a traseira do carro onde se amontoavam volumes e sobre eles
um casaco de peles da minha amiga Lurdes.
«É o casaco da minha amiga.»
«Me muestra.»
A Lurdes entrou no carro e tirou o casaco apresentando-lho.
«Comprou-o em Sevilha?» Perguntou o guarda.
«Já o tenho há 2 ou 3 anos. Comprei-o em Lisboa.»
Respondeu a Lurdes com muita convicção.
«Parece novo, têm a fatura dele?» Perguntou o guarda
mirando e remirando o casaco.
«Ó senhor, não ando com as faturas das roupas que uso.»
Entretanto o amigo do sobretudo novo acercou-se muito
afoito e ajudou o guarda a investigar o interior do casaco na busca de uma
etiqueta.
«Vê-se bem que não é novo, senhor guarda» disse o meu
amigo, continuando na procura de uma etiqueta. Felizmente lá encontraram uma da
loja lisboeta onde tinha sido adquirido. Parecendo satisfeito com a garrafa de
whisky, lá nos deixou em paz desejando-nos buena
viaje.
Já em terras portuguesas os comentários foram alvo
de chacota, não só pela estupidez do guarda como pela coragem do meu companheiro
que de sobretudo novo se arriscou a participar naquela fantochada.
«Vocês não conhecem a história do contrabandista que
diariamente atravessava a fronteira de bicicleta com um saco de areia? Muitas
vezes a areia foi espiolhada, remexida e não passava de simples areia. Não há
nada como a descontração. O que é óbvio passa despercebido. O contrabandista
contrabandeava bicicletas. Todos rimos.
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