quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A Atribulada Viagem a Sevilha


            Decorriam os anos 60, trabalhava eu na Sanvik. Dois colegas meus, casados, planearam um fim de semana em Sevilha. Iriam de carro e, tendo um lugar vago (eles levavam as respetivas mulheres), convidaram-me. Na altura eu namorava com aquela que viria a ser minha mulher. O carro apenas leva 5 pessoas e não a podia levar, primeiro porque não havia lugar, segundo os tempos eram outros e as mentalidades também.
            Quinta-feira após o almoço partimos. Os cerca de 500 km, embora sem autoestradas, seriam feitos em 5 ou 6 horas, contando com as paragens para os cafés. Não marcámos hotel. Quando lá chegássemos trataríamos disso.
            A Lurdes, mulher dum já falecido colega, algumas horas após a partida perguntou: «quanto tempo falta?»
            «Daqui a uma hora estamos lá.» Respondi sem sequer saber a quantos quilómetros estávamos.
            Pouco tempo depois a mesma pergunta surgiu.
           «Quanto tempo falta?» A minha resposta foi a mesma. Mais uns quilómetros e a pergunta repete-se, e a resposta «daqui a uma hora estamos lá» foi dada mais uma vez. Cerca das 9 da noite avistei uma tabuleta com a indicação SEVILHA 7 KM quando a minha amiga Lurdes voltou à mesma questão. A resposta desta vez veio em coro. DAQUI A UMA HORA ESTAMOS LÁ. Risota geral.
            O condutor para à porta de um hotel de 3 estrelas. Como eu sabia dizer buenas noches e tienes habitacion, fui encarregado de falar com o rececionista.
            «Não, não, está esgotado.» Foi a pronta resposta e continuou «talvez aqui atrás, há um outro hotel.» Também estava esgotado. E o outro também e mais outro esgotado. Tentámos os de 4 estrelas, os de 5, mas em vão. Recorremos a pensões, hostales, mas parecia que todo o mundo tinha ido passar a semana Santa a Sevilha.
            Já desesperados pensámos ir para a estrada e procurar um motel ou regressar a Lisboa, quando num primeiro andar duma ruela estreita deparamos com um letreiro luminoso “Hostal Estrella”. Subi ao primeiro andar por uma escada estreita e suja. Numa receção que mais parecia um balcão de uma tasca, um sorridente empregado atendeu-me. Também estava cheio.
            «Nesta altura do ano Sevilha fica repleta de turistas, dificilmente conseguirão alojamento» disse-me o sorridente empregado continuando «cuántas noches se quedarán en sevilla
            «Apenas 3, partimos no domingo.»
            «Cuántas habitaciones necesitas
            «Dois casais e um solo. Três quartos chegam.»
           «À saída de Sevilha, na estrada para Madrid, a cerca de 15 km, há uma aldeia que não tem saída. Aí existe uma pensão onde se hospedam uns mineiros. Nesta altura do ano vão para casa. Se usted quiser posso telefonar». Agradeci. Que mais podia desejar?
            Enquanto o empregado telefonava olhei à minha volta repugnado. Quem dormiria em tal hostal? Olhei as paredes que escorriam uma humidade castanha. *Pareceu-me ver passar uma barata, mas provavelmente era impressão minha.
            «Sim o Pablo cede-lhe os 3 quartos. Terão de dormir nos quartos de mineiros, mas as gavetas e armários contêm a sua roupa.»
            Agradeci e depois das explicações do caminho a percorrer, saí.
            «Então? Também está esgotado?» Perguntaram-me assim que cheguei ao carro.
            «Está, mas mesmo que não estivesse por certo que ninguém lá quereria dormir. No entanto há uma possibilidade a cerca de 15 km.»
            Depois das explicações transmitidas pelo simpático empregado, lá seguimos para a pensão dos mineiros. Começava a chover. Tínhamos fome, eram quase 11 da noite, podia ser que na pensão nos servissem qualquer coisa.
            Para chegarmos à aldeola, tivemos de passar por um túnel com um declive acentuado, sob a estrada principal. Segundo a informação a pensão situava-se na rua principal, a meio, à esquerda. Não foi difícil encontrá-la. Era uma modesta pensão e o dono gentilmente cedeu-nos os 3 quartos com lençóis lavados. Não serviam refeições, mas ele próprio preparou-nos umas couves salteadas, uns ovos com salsichas, pão, vinho e café. A fome era tanta que elogiámos o petisco e comemos tudo. Subimos aos quartos, tomámos banho, perfumámo-nos, vestimos fato e gravata (na altura era essa a moda) e as duas senhoras vestidas com vestidos de noite e com casacos de pele, preparávamo-nos para uma noite de farra. Descemos ao hall e a chuva continuava a cair desta vez com mais intensidade. O Pablo olhou-nos espantado. Deve ter pensado: onde vão a esta hora, todos janotas?
            Despedimo-nos agradecendo mais uma vez o suculento jantar.
           «Divirtam-se, venham à hora que quiserem, estou a pé.»
            Corremos para o carro. A chuva não vinha nada a calhar. Descemos a rua e quando nos aproximámos do túnel tivemos uma surpresa. Havia um enorme poça de água não nos permitindo sair da aldeola.
            «Só nos faltava isto. Que fazemos agora? Não há outra saída…»
            «Voltamos para trás, vamos comprar uma garrafa de whisky e entretemo-nos a jogar às cartas ou a conversar.»
            E voltámos. Parámos à porta de um café e mais uma vez sou eu que vou falar com o dono do café para nos ceder uma garrafa de whisky.
           «Solo tengo esto, está quasi llena.»
            «Quanto Vale.»
            «30 Pesetas.
              Era mais cara que uma garrafa cheia, disse que não queria.
            «Aquele palerma queria 30 Pesetas por meia garrafa de whisky.» Disse eu ao chegar ao carro.
           «Vamos dar uma volta e procurar noutro café.» Disse um deles
           Demos duas voltas à aldeia, mas cafés nem cheiro. Estava tudo fechado. Voltámos ao mesmo.
            «Ahora non te la vendo.» Disse-me o dono do café.
            Não restavam dúvidas. A viagem tinha começado mal. Só havia uma solução. Voltar para a pensão. O simpático Pablo cedeu-nos uma garrafa de brande espanhol e emprestou-nos umas cartas.
            «Como se sai daqui quando chove?» Perguntei a Pablo.
            «Só os jeeps é que conseguem sair. O Manolo, o dono do café, tem uns barrotes para um caso de emergência e com a ajuda dos clientes colocam-nos no túnel.»
            «Estamos feitos.» Comentou um dos meus amigos.
            «Vocês tinham alguma festa planeada para hoje?» Perguntou Pablo.
            «Não. Íamos apenas dar um passeio pela cidade.»
            «Hoje está tudo fechado. E a chover como está…»
            «Nem nos lembrámos disso.» Comentou um do grupo.
            Despedimo-nos de Pablo e subimos ao primeiro andar. Havia uma pequena sala onde nos sentámos a comentar a viagem.
           «Se amanhã chover passamos aqui o dia?» Perguntou uma das senhoras.
            «Vamos ter de recorrer ao Manolo para nos emprestar os barrotes.» Comentou alguém.
            «Estou mesmo a ver. Amanhã Vou falar com o Manolo e digo-lhe. «Manolo, empresta-me os teus barrotes?» E ele responde. «Estão ali, leva-os.» Ou então, pede ajuda aos seus clientes, colocam os barrotes e ficam de longe a apreciar a manobra do nosso carro passar por cima de dois barrotes apodrecidos e ver o carro mergulhar na poça.» Todos riram, embora sem vontade.
            «Amanhã vamos lá tomar o pequeno-almoço e fazemos as pazes com o Manolo.» Disse um outro.
            Por volta das oito acordei. Olhei à janela. O tempo estava ótimo, sem chuva e o sol parecia convidar-nos a um passeio. A partir dessa hora já ninguém dormiu devido aos meus gritos de “DESPERTAR”.
            Fomos ao Manolo tomar o pequeno-almoço. À cautela fui o último a entrar. Acolheu-nos muito simpaticamente e serviu-nos principescamente.
            «Se for necessário já temos barrotes não apodrecidos para passarmos o túnel.» Disse eu num português rápido para que o Manolo ou os outros clientes não percebessem. Felizmente o caminho estava livre e saímos sem problemas.
            Sexta-feira Santa, tudo fechado. Apenas restaurantes e cafés abertos. Aproveitámos para uma visita à cidade. Era a primeira vez que íamos a Sevilha. À noite, encontrámos um recinto onde o “Tablao Flamenco” atuava para turistas. Como o tempo estava sem chuva e o perigo de regresso à pensão parecia não problemático, assistimos ao bailado. Regressámos bastante tarde, mas o Pablo lá estava sorridente à nossa espera. No dia seguinte o tempo continuava ameno e dedicámos o dia em compras, caramelos, garrafas de whisky e brande, bolachas e outras bugigangas. Um dos nossos amigos comprou um sobretudo em pele de camelo e não mais o despiu. As adversidades da viagem pareciam ter passado, pensava eu.
         Domingo, cedo nos levantámos. O tempo estava bom, sem chuva. Despedimo-nos do Pablo trocando cartões-de-visita. Tomámos o pequeno-almoço no Manolo e prometemos voltar. Tínhamos conquistado um amigo.     O nosso companheiro que comprara o sobretudo continuava com ele vestido, provavelmente teria dormido com ele, nem mesmo no carro o despiu.
            Seria próximo do meio-dia quando chegámos à fronteira espanhola. O guarda da fronteira olhou para dentro do carro e perguntou: “Tienes algo a declarar?»
            «Não, não temos.»
            «Por favor abra el maletero del coche
            Abrimos. Sacos com caramelos, garrafas e outras bugigangas foram inspecionadas.
            «Quantas garrafas levam?» Perguntou o guarda.
            «Eu levo duas.» Disse eu.
            «E ustedes?» Tínhamos seis garradas ao todo. Por lei, apenas era permitido transportar uma por pessoa. Pelo menos assim nos foi informado pelo guarda-fiscal. Resultado: ou pagava direitos alfandegários pela garrafa extra (o que era uma exorbitância) ou ficaria uma retida na alfândega para uma hipotética viagem breve a Sevilha.
            Enquanto isto, já todos nós estávamos fora do carro para desentorpecer as pernas. O do sobretudo sempre vestido, observava a cena calado, olhando ora para nós ora para o guarda.
           O guarda não satisfeito com apenas uma garrafa, olhou mais uma vez o interior do carro.
            «Qué es eso?» Disse ele apontando para a traseira do carro onde se amontoavam volumes e sobre eles um casaco de peles da minha amiga Lurdes.
            «É o casaco da minha amiga.»
            «Me muestra.»
            A Lurdes entrou no carro e tirou o casaco apresentando-lho.
            «Comprou-o em Sevilha?» Perguntou o guarda.
            «Já o tenho há 2 ou 3 anos. Comprei-o em Lisboa.» Respondeu a Lurdes com muita convicção.
            «Parece novo, têm a fatura dele?» Perguntou o guarda mirando e remirando o casaco.
            «Ó senhor, não ando com as faturas das roupas que uso.»
            Entretanto o amigo do sobretudo novo acercou-se muito afoito e ajudou o guarda a investigar o interior do casaco na busca de uma etiqueta.
          «Vê-se bem que não é novo, senhor guarda» disse o meu amigo, continuando na procura de uma etiqueta. Felizmente lá encontraram uma da loja lisboeta onde tinha sido adquirido. Parecendo satisfeito com a garrafa de whisky, lá nos deixou em paz desejando-nos buena viaje.
            Já em terras portuguesas os comentários foram alvo de chacota, não só pela estupidez do guarda como pela coragem do meu companheiro que de sobretudo novo se arriscou a participar naquela fantochada.
            «Vocês não conhecem a história do contrabandista que diariamente atravessava a fronteira de bicicleta com um saco de areia? Muitas vezes a areia foi espiolhada, remexida e não passava de simples areia. Não há nada como a descontração. O que é óbvio passa despercebido. O contrabandista contrabandeava bicicletas. Todos rimos.

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