quarta-feira, 30 de outubro de 2013

E, Por Isso, Fui Despedido

            O café Palladium na avenida da Liberdade junto ao elevador da Glória era, nos anos 50, um café muito frequentado por atores de cinema e teatro. Há duas personagens, frequentadoras desse espaço, que me ficaram na memória: Maria Olguim, grande intérprete no filme “Os Saltimbancos”, um filme de Manuel Guimarães, estreado a 25 de janeiro de 1952 no cinema Éden, e Andrade e Silva, também ator. Mais adiante explicarei o porquê destes nomes permanecerem no meu consciente.
            O imponente Café Palladium, com a sua larga entrada principal, mostrava-nos uma ampla sala repleta de mesas e cadeiras onde centenas de clientes aí tomavam o seu café ou lanchavam. Ao fundo um salão de chá, onde, principalmente senhoras, se encontravam a meio da tarde. Havia no primeiro andar uma galeria com vista para a sala principal do café. O segundo andar estava reservado a salão de jogos principalmente bilhar, onde dezenas de mesas de pano verde se encontravam sempre em utilização. No rés-do-chão, ao lado da sala principal e com uma segunda entrada mais modesta, estendia-se um comprido balcão e, defronte, uma dúzia de mesas com cadeiras e sofás. Era neste espaço que normalmente se reuniam os atores.      
            Na década dos anos 40, vivia eu com os meus pais e irmãos em Coimbra, junto à igreja de São Bartolomeu. Uma vida feliz para a época, mesmo decorrendo a Segunda Guerra Mundial com o racionamento dos bens alimentares bem patente, obrigando cada família a umas senhas para as compras diárias. Aí, frequentámos os primeiros 4 ou 5 anos de escolaridade. Se a memória não me falha, foi no final dessa década que o meu pai, o nosso papá como lhe chamávamos, nos disse adeus para sempre (vim a saber depois que não era o nosso pai que vivia connosco, mas sim o nosso padrasto). O seguro que deixou à minha mãe daria para vivermos uns escassos 5 ou 6 anos. Foi então que a minha mãe resolveu mudar-se para Lisboa e procurar emprego como modista ou costureira, a fim de fazer face à vida.
            Já em Lisboa, no bairro do Areeiro onde morávamos, andava eu no segundo ano, atual sexto, na escola preparatória Eugénio dos Santos. Os meus dois irmãos estavam empregados havia mais de um ano, quando, nas minhas férias escolares, a minha mãe me pede para eu me empregar durante esse período, a fim de prestar uma ajuda financeira ao orçamento familiar.
            Julho de 1951, tinha eu treze anos, começo o meu trabalho como groom (nome que naquele tempo davam aos paquetes) no café Palladium. Dada a grandiosidade do café, havia um batalhão de empregados de mesa, dois diretores comerciais, empregados de cozinha, copa, empregados de limpeza e três grooms. O meu serviço consistia em andar pelos corredores do café, fardado, dando aos clientes todo o apoio “logístico” que necessitavam, como levar uma carta ao correio, comprar um jornal, tabaco, chamar o engraxador ou o empregado de mesa. Por cada recado era compensado com uma gorjeta, normalmente 50 centavos. Havia um telefone público dentro do café que, para além de ser utilizado para fazer chamadas, tocava amiudadas vezes solicitando por este ou aquele cliente. Cedo comecei a conhecer o nome da maioria daqueles que recebiam chamadas. Na eventualidade de ser um desconhecido teria de andar de mesa em mesa: «chamam ao telefone o senhor Faustino Fonseca».
            Uma das muitas clientes habituais do café, a dona Maria Olguim, ofereceu-me um bilhete para ver o filme “Os Saltimbancos”. Era uma das clientes que me dava melhores gorjetas. 
            À época, o vencimento dos miúdos daquela idade rondava os duzentos escudos mensais. Eu, tal como os outros grooms, não tinha ordenado. O meu vencimento dependia das gorjetas. Não sei se a minha mãe guardava o dinheiro que diariamente lhe entregava e o contabilizava no final do mês, o certo é que no final de cada mês de trabalho a minha mãe me dizia: «este mês ganhaste 350 escudos, este mês quase chegaste aos 400».
            Os meses de férias acabaram, mas eu continuei a trabalhar no Palladium. Aguardaria pela idade de poder entrar para a escola noturna.
            Decorria pouco mais de um ano após a minha iniciação como prestador de serviços no grande império como groom, quando um colega, empregado de mesa, me anunciou: «no salão de bilhar, junto à escada, está um cliente que quer falar contigo». Corri. Mais uma moeda iria ganhar.
            «Chamas-te Carlos, não é?» Perguntou-me o cliente.
            O cavalheiro aparentava uns trinta anos, um homem vulgar, mas não gostei do seu aspeto, do seu sorriso, senti mesmo medo daquele personagem. Se não fosse o meu colega empregado de mesa que assistia com curiosidade e parecendo divertir-se com a situação, eu teria fugido pela escada abaixo.    
            «Sim senhor». Respondi, um pouco contrafeito.
            «Não me conheces?»
            «Não senhor».
            Enquanto isto, muito lentamente, abre a carteira e mostra-me a fotografia da minha mãe. Não sei o que senti naquele momento. Quem era aquele palerma que andava com a fotografia da minha mãe? Pensei.
            «E agora, já sabes quem eu sou?»
            Com aquela pergunta pressenti. Calculei quem seria. Nunca tinha conhecido o meu verdadeiro pai nem mesmo por fotografia. Apeteceu-me fugir, mas não consegui. Fiquei calado, a tremer, sem conseguir articular palavra. Com treze anos, apenas tinha conhecido o “meu papá”, aquele com quem brincava, que me comprava brinquedos e me ajudava nos trabalhos da escola, que me levava a passear no seu popó, que eu adorava e pelo qual chorei durante muito tempo após a sua morte.
            «Sou o teu pai, dás-me um beijo?».
            Revoltou-me. Recordo que não o beijei. Fiquei a olhá-lo atónito. Agora mais do que nunca queria desaparecer, fora um choque demasiado forte. Ele poderia ter-me abordado de uma forma mais suave. Eu era uma criança, mas ele sem querer magoou-me. O mal estava feito e pensando que me tinha cativado, alcançou o desprezo.      
            «Não, não és meu pai, o meu pai morreu». Pensei.
            Os dias foram passando, mas eu fiquei traumatizado, já não “trabalhava” com a mesma desenvoltura e simpatia a que habituara os “meus clientes”. Quase todos os dias o meu pai aparecia por lá e cada vez que isso acontecia piorava a minha aversão ao trabalho.
            Tinha contado à minha mãe o episódio do senhor Moisés (nome do meu pai) e, não me referindo ao caso, disse estar farto de ser moço de recados, queria trabalhar num escritório e aprender qualquer coisa. Ali, naquele café, não aprenderia nada, mas, na realidade, o que eu queria estar longe daquele senhor que dizia ser meu pai.  Só alguns anos depois o aceitei como tal.
            Por esta altura, um dos grooms saiu e um novo colega veio substituí-lo. O rapazito que aparentava ser mais novo do que eu, era, pensava eu, um palerma e como tal foi nele que eu descarreguei a minha ira. Constantemente o chateava, indicava-lhe clientes imaginários que o chamavam, até que um dia o pior aconteceu.
            O telefone tocou e mandei o novo groom atendê-lo. Segundos após vem perguntar-me pelo senhor Andrade e Silva, um ator de cinema que eu conhecia perfeitamente, mas que naquela altura não estava no café.
            «Diz que o senhor Andrade e Silva não está, foi preso.
            Foi exatamente o que o miúdo fez.
            Como é de calcular a família apareceu em peso no café.
            Nesse mesmo dia fui despedido.

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