A
família Gonçalves é composta pelo casal Fernando e Madalena e seu filho,
Augusto, um rapaz universitário. Vivem nos arredores de Lisboa e têm como empregada
doméstica a Albertina, uma jovem de vinte e poucos anos, alta, esbelta, embora
um pouco rude, cujo namorado, um homem na casa dos trinta, frequentemente a vai
buscar. Trabalha como serralheiro numa empresa perto da casa dos Gonçalves.
A
Albertina, sempre que o senhor Fernando chegava a casa, tentava evitá-lo e
apressava-se a arrumar tudo para sair. As discussões frequentes entre ele e a
sua patroa eram quase sempre pelo mesmo motivo: os gastos exagerados de
Madalena, com o seu cartão de crédito. Ela ouvia por tabela sem ter culpa de
nada.
«Mariana!
Isto não pode continuar. Ultrapassaste os limites. Este mês tenho quase 5.000 euros
para pagar do teu cartão de crédito.»
«Querido.
Não tenho nada para vestir, comprei apenas dois vestidos e umas calças. Não queres
que ande de qualquer maneira, pois não?» Defendia-se Mariana, da retórica do
marido.
Estas
discussões eram mensais, sempre que vinha o extrato bancário. Porém, um certo
mês, mais uma discussão de tal forma que o marido colérico pediu o cartão à
mulher e retalhou-o com uma tesoura.
«Pronto!
Acabou-se o cartão.»
Mariana
era uma mulher de trinta e muitos anos, alta, elegante e o seu cabelo louro
dava-lhe um aspeto mais juvenil. Vestia com gosto, como um manequim. O marido
já ultrapassara os 40. O filho Augusto de 19 anos andava na Universidade. Era
um jovem, tal como os pais, alto e bem-parecido. O pai oferecera-lhe um carro,
quando atingiu a maior idade.
Nesse
dia porém, antes pôr fim ao cartão de crédito da esposa, a empregada Albertina,
a medo tinha falado com o patrão, pedindo-lhe um aumento.
«Senhor
Gonçalves. Trabalho nesta casa há quase três anos e nunca lhe pedi um aumento.
Creio que mereço a sua atenção para este caso.»
«Ganhas
muito acima da média. Continuas ao nosso serviço por que a tua patroa gosta de
ti,» respondeu o senhor Gonçalves e continuou «fala com ela e depois se verá.»
Após
tudo isto vem o filho com a notícia de ter amachucado o carro num pequeno acidente.
«BOLAS!
Já não me bastavam a tua mãe a gastar rios de dinheiro em trapos, a Albertina a
pedir-me aumento e agora, tu com essa notícia. Anda com o carro amachucado.
Este mês não há dinheiro para ninguém. DESAPAREÇAM. ESTOU FARTO DISTO E DE
TODOS VOCÊS.
Cerca
de 15 dias após esta discussão, Fernando Gonçalves chega a casa. A esposa,
ainda de semblante carregado prepara o jantar. A empregada tinha saído mais
cedo.
Passava
da nove da noite e o filho não chegara ainda para jantar.
«Onde
anda o Augusto? Ainda não chegou para jantar?» Pergunta o pai.
«Não.
Já lhe telefonei, mas o telefone está desligado.»
Nesse
preciso instante soa o telemóvel de Fernando.
«É
o senhor Fernando Gonçalves?» Pergunta do outro lado da linha, uma voz de
mulher rouca, mas imperativa.
«Sim.»
«Ouça
e não argumente! O seu filho Augusto está raptado.»
«Mas…»
«Cale-se
e ouça. Tem 48 horas para arranjar 50.000 euros. Nada de polícia se quer ver o
seu filho vivo. Amanhã terá novas notícias.» O telefone foi desligado sem mais
pormenores.
O
semblante de Fernando Gonçalves transfigurou-se de tal forma que a mulher
assustada lhe perguntou:
«Que
aconteceu? Quem telefonou?»
«O
nosso filho foi raptado.»
«O
QUÊ!?»
«Temos
48 horas para entregar 50.000 euros pelo resgate.»
«Telefona
à Polícia. Já.»
«Não
podemos. Ela foi precisa na sua afirmação. Nada de polícia se quisermos ver o
Augusto vivo.»
Num
pranto Mariana agarra-se ao marido.
«E
agora Fernando, o que fazemos?»
«Não
podemos fazer nada por agora. Vamos aguardar novo telefonema, entretanto amanhã
vou passar pelo banco.»
Por
volta da hora de almoço do dia seguinte, Fernando recebe novo telefonema da
raptora (se na realidade de uma mulher se tratasse), pois, a voz, nitidamente
disfarçada, dava a impressão disso.
«Já
está de posse do dinheiro?»
«Ainda
não,» respondeu Fernando e continuou, «vou ao banco agora, mas…» a voz
interrompeu-o.
«Este
é o último telefonema que lhe faço. Na caixa de correio do seu escritório tem
todas as instruções, bem como alguns pertences do seu filho. Se não seguir à
risca tudo, em vez de documentos verá pedaços dele próprio.»
A
chamada foi cortada abruptamente.
A
voz era deveras temerária, como a de um carcereiro a falar com um presidiário.
Fernando tremeu de medo. “Ela” parecia não brincar ou seria “ele”?
Correu
escada abaixo e ele próprio foi à caixa de correio.
Um
vulgaríssimo envelope sem remetente, apenas com o seu nome, tinha sido introduzido
no recetáculo. Subiu as escadas a correr. Trancou-se por dentro e abriu-o.
Cartão
de Cidadão, carta de condução, um fio de ouro que lhe tinha sido oferecido há
uns anos atrás, um mapa e uma mensagem feita em computador. Nessa mensagem
indicava a hora e o local assinalado no mapa que deveria ser respeitado ao pormenor,
sob pena de não voltar a ver o seu filho vivo. As ordens eram para comparecer
sozinho naquele local.
Durante
mais de meia hora olhou, releu, analisou tudo em pormenor. A ameaça parecia
ser real. Que fazer? Falar com sua mulher? Com a Polícia? Não, não faria nada
disto. Iria ao banco levantar o dinheiro e seguiria à risca as instruções. Logo
que tivesse o seu filho consigo apresentaria o caso à Polícia. E se o banco lhe
pusesse obstáculos no levantamento de tal valor? Iria falar com o gerente do
seu banco e mostraria a carta, com a condição de nada fazer até suas ordens.
Tinha 24 horas para resolver tudo.
Na
manhã do dia seguinte Fernando falava com o gerente do banco. Levava consigo
uma pasta, tipo das que contêm um computador. O dinheiro foi-lhe depositado na
pasta, em maços ainda cintados, retirados momentos antes do cofre-forte, com a
promessa do gerente não alertar as autoridades sem um seu telefonema. Ele
próprio se dirigiria à Polícia Judiciária e apresentaria queixa.
Fernando
sai do banco com os 50.000 euros dentro da pasta. Atira-a para o
porta-bagagens. Tem uma hora para chegar ao local indicado no mapa, tempo mais
do que suficiente para lá chegar. Prefere chegar adiantado do que tarde de
mais. O local escolhido pela “raptora” fora uma estrada secundária, onde pouco
trânsito circulava. Não conhecia o local, mas as coordenadas dadas e introduzidas
no GPS, levá-lo-iam lá.
1h45m
da tarde, no local assinalado no mapa, Fernando para o carro e aguarda. Tinha
ainda 15 minutos para estudar o terreno e pôr a cabeça a magicar no que fazer a
seguir.
Duas
em ponto. Toca o telemóvel e a voz informa:
«Tire
o casaco e feche o carro. Traga a mala com o dinheiro e as chaves da viatura
bem à vista. Siga 50 passos em frente até ver uma árvore do seu lado esquerdo
com uma seta feita a giz.»
A
voz grave e autoritária, nitidamente disfarçada, não o deixava argumentar. Não
via a sua interlocutora. Provavelmente estaria oculta pelas sebes, junto à
estrada ou atrás de um carro ao longe que deveria ser o dela.
«Já
estou junto à árvore assinalada.»
«Atravesse
a estrada. Caminhe em direção ao meu carro e fique a 100 metros dele.» Disse a
voz.
Fernando,
um pouco receoso foi-se aproximando com a pasta numa mão e as chaves do carro
na outra. O automóvel dela era um Ford, azul-escuro,
modelo recente. Dali conseguiu ver a matrícula.
Ainda
com o telemóvel ligado, ouviu:
«Pare
aí.» Obedeceu. Do carro saiu o seu filho com as mãos atadas atrás, uma venda
nos olhos e juntamente com ele, uma mulher elegante, alta, de calças de ganga
escuras, justas. Uma máscara negra cobria-lhe todo o rosto, mas deixava ver uma
longa cabeleira loira.
Enquanto
apontava uma arma à cabeça do rapaz, ordenou:
«Atire
a pasta e as chaves para aqui.»
Sempre
com a arma apontada e o rapaz agarrado por um braço, dá uns passos para recolher
a pasta. Deixa ficar as chaves no local onde tinham caído. Abre a pasta e
examina superficialmente o seu conteúdo. Pareceu satisfeita e ordena:
«Vou
dirigir-me para o meu carro. Logo que eu arranque, venha buscar o seu filho e
as chaves. Se algum de vós der um passo que seja, não hesitarei em disparar.» (Desta
vez a voz parecia outra).
Com
passos decisivos e sem tirar os olhos de ambos, entra no carro e sem pressa
arranca rumo a norte.
Menos
de um quilómetro depois e oculta pela curva da estrada, mete o carro por uma
vereda à direita por detrás de uma vegetação. Abre a pasta e transfere o
dinheiro para um saco. Atira a máscara e uma longa cabeleira loura para dentro
da pasta já vazia, juntamente com a arma. Tira as matrículas falsas do carro
e atira-as para longe. Fecha a pasta e esconde-a no meio da vegetação. Descalça
as luvas e mete-as no saco juntamente com o dinheiro. Fica atenta e mal ouve o
barulho do carro de Fernando com o filho que, a alta velocidade segue rumo a
norte no seu encalço.
Sem
pressas e vendo que o carro de Fernando depois da prolongada curva já não a vê,
sai da vereda e volta para a estrada, rumo a sul. Quando dessem pelo logro
seria tarde, ela já iria longe.
Fernando
correu para o filho e abraçou-o, tirando-lhe a venda. Desamarrou-lhe as mãos,
pegou nas chaves e correram ambos para o carro.
«Estás
bem filho? Quem é aquela mulher? Fisicamente parecia a tua mãe ou a empregada
Albertina.»
«Oh,
pai.»
«Refiro-me
ao físico.»
«Nunca
lhe vi a cara.» Respondeu o filho.
«Como
aconteceu seres raptado por uma mulher?»
«Não
sei, pai. Ao sair do café senti uma mão, com provavelmente éter, na minha cara
e acordei num barracão, amarrado.»
Antes
de irem à Polícia, foram a casa. O Augusto queria tomar banho e mudar de roupa.
Estranharam não haver ninguém em casa. A Madalena apareceu meia hora depois e
mal viu o filho correu para ele.
Já
na Polícia Judiciária, pai e filho apresentavam queixa. Pouco adiantaram para
além do descrito. Mais tarde foram chamadas a depor a mãe e a empregada.
Madalena tinha ido ao supermercado nesse dia e a empregada Albertina já tinha,
há alguns dias atrás, pedido esse dia para tratar de assuntos pessoais.
Os
dias foram passando e as investigações continuaram. Soube-se que a matrícula do
Ford era falsa. O local do encontro
entre a raptora e Fernando foi vasculhado e encontradas as matrículas e a
pasta. A arma utilizada não passava de um brinquedo de criança. As impressões
digitais de nada serviram. A raptora usara luvas.
Nas
instalações da P.J., o agente e ajudante questionavam-se e tentavam chegar a
conclusões.
«Há
qualquer coisa que não bate certo. Como é possível que uma mulher tenha feito
tudo isto, sozinha? Por certo haverá mais alguém metido neste imbróglio.» Disse
o agente para seu ajudante.
«Ainda
mais, como é que uma mulher rouba um carro?» Retorqui o ajudante.
«Investiga
se houve nestes últimos dias alguma viatura com as características daquele
carro, roubado.»
«Também
se pode dar o caso do automóvel não ter sido roubado. Pode ser alugado ou ser
da própria raptora.» Acrescentou o ajudante.
«Não
me parece que ela tenha utilizado a sua própria viatura para o rapto.»
Alguns
dias depois.
«CHEFE!»
Grita o ajudante entrando no gabinete do agente encarregado do caso. «O
automóvel foi alugado pela raptora. Tenho aqui o contrato de aluguer com todos
os elementos dela. Falei com o encarregado da lavagem dos carros. O automóvel
foi-lhes entregue pejado de pó, as jantes sujas de lama e tojo. Dava a
impressão de ter feito um safari com ele. Agora repare no que o empregado
encontrou na matrícula.» O ajudante mostrou um íman.
«Não
há dúvida que este carro foi utilizado no sequestro. Este íman é igual aos
outros encontrados nas matrículas falsas.»
Após
investigações descobriram que a raptora, Deolinda Almeida, jovem alta de longa
cabeleira loira, na casa dos 20 anos, secretariava o departamento comercial
duma empresa de refrigerantes. Frequentadora de um ginásio de manutenção física
era uma pessoa de bom trato e bastante conceituada, não só no ginásio como
igualmente na empresa onde trabalhava. Que motivos a levaram a efetuar aquele
crime? A cabeleira postiça loira deixada na pasta seria uma forma de despiste
às autoridades.
O
agente da P.J. deu instruções ao seu ajudante para não falar a ninguém sobre o
que descobrira de Deolinda Almeida. Não convinha despertar quaisquer suspeitas
sobre ela, mas sim seguir os seus passos 24 horas por dia. Era necessário saber
com quem andava e que sítios frequentava, a fim de se descobrir onde escondera
os 50.000 euros. A discrição agora era fundamental.
Poucos
dias após o sequestro, Deolinda Almeida entra num banco, acompanhada por um
rapaz aparentemente jovem. Ignora que, de longe, é fotografada pela polícia.
Saem do banco e dirigem-se a uma butique de senhoras, saindo com um saco de
compras.
Nessa
mesma tarde é recebido um telefonema na sede da P.J.
«Boa
tarde senhor agente. Fala o gerente da agência do banco X. Acabámos de receber
um depósito em numerário da butique Y cujas notas correspondem aos números de
série das notas transacionadas para o pagamento ao raptor.»
«Obrigado.
Passo já por aí.» Agradece o agente da P.J.
Não
restavam dúvidas. A compra na butique Y, efetuada pela Deolinda Almeida, tinha
sido paga em notas correspondentes às da transação.
«Vais
buscar a Deolinda e trá-la aqui.» Disse o inspetor ao seu ajudante.
«Como
a trago? O que lhe digo?»
«Diz-lhe
que tem de vir prestar declarações, nada mais.» Respondeu o chefe.
Deolinda
Almeida entrou no gabinete do agente da P.J. com um ar aterrador, sem disfarçar
o nervosismo que se apoderava dela. O agente olhou-a e reconheceu que na realidade
se tratava de uma elegante personagem. Nada fazia prever que tal pessoa pudesse
ser acusada de rapto e muito menos de ser uma ameaça para a sociedade.
«Deolinda»
começou o agente dirigindo-se à sua interlocutora «sabe por que a mandei
chamar?»
«Eu…
não.» Balbuciou a garota.
«Há
várias suspeitas que recaem sobre si. Primeiro, rapto, segundo, ameaças telefónicas,
terceiro portadora de arma de fogo. Quarto, roubo de automóvel.»
O
Agente enquanto ia enumerando os crimes de que era acusada, não deixava de a
olhar bem nos olhos. O pânico apoderava-se dela. Queria defender-se, mas
limitava-se a abanar a cabeça em sinal de negação.
«Tudo
isso é mentira!» Gritou Deolinda, rubra como um tomate.
«O
dinheiro extorquido, os 50 mil euros, foram depositados num cobre do banco X em
seu nome. Desses 50 mil já gastou perto de mil em compras, na butique Y. Também
é mentira?»
Deolinda
tremia de medo. Começou a chorar num pranto.
«Foi
o meu namorado que me convenceu a agir assim.»
«O
seu namorado é este?» Perguntou o agente mostrando uma fotografia onde se viam
ambos a sair da butique.»
«É
sim.» Confessou entre soluços e com as mãos pregadas no rosto.
«Os
crimes de que é acusada podem levá-la à prisão, a si e ao seu namorado. O
melhor é contar tudo em pormenor.»
A
pequena (pequena em idade, já que a sua altura era bem grande), mal conseguia
falar. O seu pranto era aterrador de tal forma que o agente lhe disse: «vou
mandar vir um copo de água, quer?»
«Sim,
obrigada.»
«Acalme-se
um pouco. Vou deixá-la por 10 minutos. Volto depois com um gravador para me
contar tudo. Concorda?»
»Oh,
sim, eu conto tudo.»
Conclusão
Deolinda
narra em pormenor tudo o que se tinha passado desde o dia em que o namorado a
convencera a levar por diante um rapto, convencendo-a de que daí não viriam
problemas para nenhum deles. Seria um crime perfeito. O namorado precisava de
dinheiro, para se casarem, segundo lhe dissera. Não contaram que os números de
série das notas entregues tinham sido anotados. As chamadas telefónicas tinham
sido efetuadas pelo namorado; a arma utilizada não passava de uma pistola de
plástico; o automóvel tinha sido alugado, tendo apenas afixado novas matrículas,
essas sim falsas. Foram utilizados ímanes para tapar as verdadeiras; o rapto
não tinha existido; o namorado estivera de livre vontade em sua casa aqueles
dois dias; alugara um cofre no banco, mas a chave estava em poder do namorado.
Este, por sua vez, prometera-lhe 5 mil euros para compras pessoais.
O
namorado era o “raptado”, o filho de Fernando Gonçalves, o próprio Augusto.
O casamento não se
efetuou claro está nem sequer essa ideia fazia parte dos planos de Augusto. O
seu pai perdoou-lhe a sua atitude e, graças ao advogado da família Gonçalves,
tanto o Augusto como a namorada foram condenados a pena suspensa.
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