terça-feira, 14 de agosto de 2012

O Raptor Raptado

A família Gonçalves é composta pelo casal Fernando e Madalena e seu filho, Augusto, um rapaz universitário. Vivem nos arredores de Lisboa e têm como empre­gada doméstica a Albertina, uma jovem de vinte e poucos anos, alta, esbelta, embora um pouco rude, cujo namorado, um homem na casa dos trinta, frequentemente a vai bus­car. Trabalha como serralheiro numa empresa perto da casa dos Gonçalves.
A Albertina, sempre que o senhor Fernando chegava a casa, tentava evitá-lo e apressava-se a arrumar tudo para sair. As discussões frequentes entre ele e a sua patroa eram quase sempre pelo mesmo motivo: os gastos exagerados de Madalena, com o seu cartão de crédito. Ela ouvia por tabela sem ter culpa de nada.
«Mariana! Isto não pode continuar. Ultrapas­saste os limites. Este mês tenho quase 5.000 euros para pagar do teu cartão de crédito.»
«Querido. Não tenho nada para vestir, com­prei apenas dois vestidos e umas calças. Não queres que ande de qualquer maneira, pois não?» Defendia-se Mariana, da retórica do marido.
Estas discussões eram mensais, sempre que vinha o extrato bancário. Porém, um certo mês, mais uma discussão de tal forma que o marido colérico pediu o cartão à mulher e retalhou-o com uma tesoura.
«Pronto! Acabou-se o cartão.»
Mariana era uma mulher de trinta e muitos anos, alta, elegante e o seu cabelo louro dava-lhe um aspeto mais juvenil. Vestia com gosto, como um manequim. O marido já ultrapassara os 40. O filho Augusto de 19 anos andava na Universidade. Era um jovem, tal como os pais, alto e bem-parecido. O pai oferecera-lhe um carro, quando atingiu a maior idade.
Nesse dia porém, antes pôr fim ao cartão de crédito da esposa, a empregada Albertina, a medo tinha falado com o patrão, pedindo-lhe um aumento.
«Senhor Gonçalves. Trabalho nesta casa há quase três anos e nunca lhe pedi um aumento. Creio que mereço a sua atenção para este caso.»
«Ganhas muito acima da média. Continuas ao nosso serviço por que a tua patroa gosta de ti,» respondeu o senhor Gonçalves e conti­nuou «fala com ela e depois se verá.»
Após tudo isto vem o filho com a notícia de ter amachucado o carro num pequeno aci­dente.
«BOLAS! Já não me bastavam a tua mãe a gastar rios de dinheiro em trapos, a Albertina a pedir-me aumento e agora, tu com essa notícia. Anda com o carro amachucado. Este mês não há dinheiro para ninguém. DESAPA­REÇAM. ESTOU FARTO DISTO E DE TODOS VOCÊS.       
Cerca de 15 dias após esta discussão, Fernando Gon­çalves chega a casa. A esposa, ainda de semblante carregado prepara o jantar. A empregada tinha saído mais cedo.
Passava da nove da noite e o filho não chegara ainda para jantar.
«Onde anda o Augusto? Ainda não chegou para jantar?» Pergunta o pai.
«Não. Já lhe telefonei, mas o telefone está desligado.»
Nesse preciso instante soa o telemóvel de Fernando.
«É o senhor Fernando Gonçalves?» Pergunta do outro lado da linha, uma voz de mulher rouca, mas imperativa.
«Sim.»
«Ouça e não argumente! O seu filho Augusto está raptado.»
«Mas…»
«Cale-se e ouça. Tem 48 horas para arranjar 50.000 euros. Nada de polícia se quer ver o seu filho vivo. Amanhã terá novas notícias.» O telefone foi desligado sem mais pormenores.
O semblante de Fernando Gonçalves transfi­gurou-se de tal forma que a mulher assustada lhe perguntou:
«Que aconteceu? Quem telefonou?»
«O nosso filho foi raptado.»
«O QUÊ!?»
«Temos 48 horas para entregar 50.000 euros pelo resgate.»
«Telefona à Polícia. Já.»
«Não podemos. Ela foi precisa na sua afirma­ção. Nada de polícia se quisermos ver o Augusto vivo.»
Num pranto Mariana agarra-se ao marido.
«E agora Fernando, o que fazemos?»
«Não podemos fazer nada por agora. Vamos aguardar novo telefonema, entretanto ama­nhã vou passar pelo banco.»
Por volta da hora de almoço do dia seguinte, Fernando recebe novo telefonema da raptora (se na realidade de uma mulher se tratasse), pois, a voz, nitidamente disfarçada, dava a impressão disso.
«Já está de posse do dinheiro?»
«Ainda não,» respondeu Fernando e conti­nuou, «vou ao banco agora, mas…» a voz interrompeu-o.
«Este é o último telefonema que lhe faço. Na caixa de correio do seu escritório tem todas as instruções, bem como alguns perten­ces do seu filho. Se não seguir à risca tudo, em vez de documentos verá pedaços dele próprio.»
A chamada foi cortada abruptamente.
A voz era deveras temerária, como a de um carcereiro a falar com um presidiário. Fer­nando tremeu de medo. “Ela” parecia não brincar ou seria “ele”?
Correu escada abaixo e ele próprio foi à caixa de correio.
Um vulgaríssimo envelope sem remetente, apenas com o seu nome, tinha sido introdu­zido no recetáculo. Subiu as escadas a correr. Trancou-se por dentro e abriu-o.
Cartão de Cidadão, carta de condução, um fio de ouro que lhe tinha sido oferecido há uns anos atrás, um mapa e uma mensagem feita em computador. Nessa mensagem indicava a hora e o local assinalado no mapa que deveria ser respeitado ao pormenor, sob pena de não voltar a ver o seu filho vivo. As ordens eram para comparecer sozinho naquele local.
Durante mais de meia hora olhou, releu, ana­lisou tudo em pormenor. A ameaça parecia ser real. Que fazer? Falar com sua mulher? Com a Polícia? Não, não faria nada disto. Iria ao banco levantar o dinheiro e seguiria à risca as instruções. Logo que tivesse o seu filho consigo apresentaria o caso à Polícia. E se o banco lhe pusesse obstáculos no levanta­mento de tal valor? Iria falar com o gerente do seu banco e mostraria a carta, com a con­dição de nada fazer até suas ordens. Tinha 24 horas para resolver tudo.
Na manhã do dia seguinte Fernando falava com o gerente do banco. Levava consigo uma pasta, tipo das que contêm um computador. O dinheiro foi-lhe depositado na pasta, em maços ainda cintados, retirados momentos antes do cofre-forte, com a promessa do gerente não alertar as autoridades sem um seu telefonema. Ele próprio se dirigiria à Polícia Judiciária e apresentaria queixa.
Fernando sai do banco com os 50.000 euros den­tro da pasta. Atira-a para o porta-bagagens. Tem uma hora para chegar ao local indicado no mapa, tempo mais do que suficiente para lá chegar. Prefere chegar adiantado do que tarde de mais. O local escolhido pela “rap­tora” fora uma estrada secundária, onde pouco trânsito circulava. Não conhecia o local, mas as coordenadas dadas e introduzi­das no GPS, levá-lo-iam lá.
1h45m da tarde, no local assinalado no mapa, Fernando para o carro e aguarda. Tinha ainda 15 minutos para estudar o terreno e pôr a cabeça a magicar no que fazer a seguir.
Duas em ponto. Toca o telemóvel e a voz informa:
«Tire o casaco e feche o carro. Traga a mala com o dinheiro e as chaves da viatura bem à vista. Siga 50 passos em frente até ver uma árvore do seu lado esquerdo com uma seta feita a giz.»
A voz grave e autoritária, nitidamente disfar­çada, não o deixava argumentar. Não via a sua interlocutora. Provavelmente estaria oculta pelas sebes, junto à estrada ou atrás de um carro ao longe que deveria ser o dela.
«Já estou junto à árvore assinalada.»
«Atravesse a estrada. Caminhe em direção ao meu carro e fique a 100 metros dele.» Disse a voz.
Fernando, um pouco receoso foi-se aproxi­mando com a pasta numa mão e as chaves do carro na outra. O automóvel dela era um Ford, azul-escuro, modelo recente. Dali con­seguiu ver a matrícula.
Ainda com o telemóvel ligado, ouviu:
«Pare aí.» Obedeceu. Do carro saiu o seu filho com as mãos atadas atrás, uma venda nos olhos e juntamente com ele, uma mulher elegante, alta, de calças de ganga escuras, justas. Uma máscara negra cobria-lhe todo o rosto, mas deixava ver uma longa cabeleira loira.
Enquanto apontava uma arma à cabeça do rapaz, ordenou:
«Atire a pasta e as chaves para aqui.»
Sempre com a arma apontada e o rapaz agar­rado por um braço, dá uns passos para reco­lher a pasta. Deixa ficar as chaves no local onde tinham caído. Abre a pasta e examina superficialmente o seu conteúdo. Pareceu satisfeita e ordena:
«Vou dirigir-me para o meu carro. Logo que eu arranque, venha buscar o seu filho e as chaves. Se algum de vós der um passo que seja, não hesitarei em disparar.» (Desta vez a voz parecia outra).
Com passos decisivos e sem tirar os olhos de ambos, entra no carro e sem pressa arranca rumo a norte.
Menos de um quilómetro depois e oculta pela curva da estrada, mete o carro por uma vereda à direita por detrás de uma vegeta­ção. Abre a pasta e transfere o dinheiro para um saco. Atira a máscara e uma longa cabe­leira loura para dentro da pasta já vazia, jun­tamente com a arma. Tira as matrículas fal­sas do carro e atira-as para longe. Fecha a pasta e esconde-a no meio da vegetação. Descalça as luvas e mete-as no saco junta­mente com o dinheiro. Fica atenta e mal ouve o barulho do carro de Fernando com o filho que, a alta velocidade segue rumo a norte no seu encalço.
Sem pressas e vendo que o carro de Fernando depois da prolongada curva já não a vê, sai da vereda e volta para a estrada, rumo a sul. Quando dessem pelo logro seria tarde, ela já iria longe.
Fernando correu para o filho e abraçou-o, tirando-lhe a venda. Desamarrou-lhe as mãos, pegou nas chaves e correram ambos para o carro.
«Estás bem filho? Quem é aquela mulher? Fisicamente parecia a tua mãe ou a empre­gada Albertina.»
«Oh, pai.»
«Refiro-me ao físico.»
«Nunca lhe vi a cara.» Respondeu o filho.
«Como aconteceu seres raptado por uma mulher?»
«Não sei, pai. Ao sair do café senti uma mão, com provavelmente éter, na minha cara e acordei num barracão, amarrado.»
Antes de irem à Polícia, foram a casa. O Augusto queria tomar banho e mudar de roupa. Estranharam não haver ninguém em casa. A Madalena apareceu meia hora depois e mal viu o filho correu para ele.
Já na Polícia Judiciária, pai e filho apresenta­vam queixa. Pouco adiantaram para além do descrito. Mais tarde foram chamadas a depor a mãe e a empregada. Madalena tinha ido ao supermercado nesse dia e a empregada Albertina já tinha, há alguns dias atrás, pedido esse dia para tratar de assuntos pessoais.
Os dias foram passando e as investigações continuaram. Soube-se que a matrícula do Ford era falsa. O local do encontro entre a raptora e Fernando foi vasculhado e encon­tradas as matrículas e a pasta. A arma utili­zada não passava de um brinquedo de criança. As impressões digitais de nada servi­ram. A raptora usara luvas.
Nas instalações da P.J., o agente e ajudante questionavam-se e tentavam chegar a conclu­sões.
«Há qualquer coisa que não bate certo. Como é possível que uma mulher tenha feito tudo isto, sozinha? Por certo haverá mais alguém metido neste imbróglio.» Disse o agente para seu ajudante.
«Ainda mais, como é que uma mulher rouba um carro?» Retorqui o ajudante.
«Investiga se houve nestes últimos dias alguma viatura com as características daquele carro, roubado.»
«Também se pode dar o caso do automóvel não ter sido roubado. Pode ser alugado ou ser da própria raptora.» Acrescentou o ajudante.
«Não me parece que ela tenha utilizado a sua própria viatura para o rapto.»
Alguns dias depois.
«CHEFE!» Grita o ajudante entrando no gabi­nete do agente encarregado do caso. «O automóvel foi alugado pela raptora. Tenho aqui o contrato de aluguer com todos os ele­mentos dela. Falei com o encarregado da lavagem dos carros. O automóvel foi-lhes entregue pejado de pó, as jantes sujas de lama e tojo. Dava a impressão de ter feito um safari com ele. Agora repare no que o empre­gado encontrou na matrícula.» O ajudante mostrou um íman.
«Não há dúvida que este carro foi utilizado no sequestro. Este íman é igual aos outros encontrados nas matrículas falsas.»
Após investigações descobriram que a rap­tora, Deolinda Almeida, jovem alta de longa cabeleira loira, na casa dos 20 anos, secreta­riava o departamento comercial duma empresa de refrigerantes. Frequentadora de um ginásio de manutenção física era uma pessoa de bom trato e bastante conceituada, não só no ginásio como igualmente na empresa onde trabalhava. Que motivos a levaram a efetuar aquele crime? A cabeleira postiça loira deixada na pasta seria uma forma de despiste às autoridades.
O agente da P.J. deu instruções ao seu aju­dante para não falar a ninguém sobre o que descobrira de Deolinda Almeida. Não convi­nha despertar quaisquer suspeitas sobre ela, mas sim seguir os seus passos 24 horas por dia. Era necessário saber com quem andava e que sítios frequentava, a fim de se descobrir onde escondera os 50.000 euros. A discrição agora era fundamental.
Poucos dias após o sequestro, Deolinda Almeida entra num banco, acompanhada por um rapaz aparentemente jovem. Ignora que, de longe, é fotografada pela polícia. Saem do banco e dirigem-se a uma butique de senhoras, saindo com um saco de compras.
Nessa mesma tarde é recebido um telefonema na sede da P.J.
«Boa tarde senhor agente. Fala o gerente da agência do banco X. Acabámos de receber um depósito em numerário da butique Y cujas notas correspondem aos números de série das notas transacionadas para o pagamento ao raptor.»
«Obrigado. Passo já por aí.» Agradece o agente da P.J.
Não restavam dúvidas. A compra na butique Y, efetuada pela Deolinda Almeida, tinha sido paga em notas correspondentes às da transação.
«Vais buscar a Deolinda e trá-la aqui.» Disse o inspetor ao seu ajudante.
«Como a trago? O que lhe digo?»
«Diz-lhe que tem de vir prestar declarações, nada mais.» Respondeu o chefe.
Deolinda Almeida entrou no gabinete do agente da P.J. com um ar aterrador, sem disfarçar o nervosismo que se apoderava dela. O agente olhou-a e reconheceu que na realidade se tratava de uma elegante personagem. Nada fazia prever que tal pessoa pudesse ser acusada de rapto e muito menos de ser uma ameaça para a sociedade.
«Deolinda» começou o agente dirigindo-se à sua interlocutora «sabe por que a mandei chamar?»
«Eu… não.» Balbuciou a garota.
«Há várias suspeitas que recaem sobre si. Primeiro, rapto, segundo, ameaças telefónicas, terceiro portadora de arma de fogo. Quarto, roubo de automóvel.»
O Agente enquanto ia enumerando os crimes de que era acusada, não deixava de a olhar bem nos olhos. O pânico apoderava-se dela. Queria defender-se, mas limitava-se a abanar a cabeça em sinal de negação.
«Tudo isso é mentira!» Gritou Deolinda, rubra como um tomate.
«O dinheiro extorquido, os 50 mil euros, foram depositados num cobre do banco X em seu nome. Desses 50 mil já gastou perto de mil em compras, na butique Y. Também é mentira?»
Deolinda tremia de medo. Começou a chorar num pranto.
«Foi o meu namorado que me convenceu a agir assim.»
«O seu namorado é este?» Perguntou o agente mostrando uma fotografia onde se viam ambos a sair da butique.»
«É sim.» Confessou entre soluços e com as mãos pregadas no rosto.
«Os crimes de que é acusada podem levá-la à prisão, a si e ao seu namorado. O melhor é contar tudo em pormenor.»
A pequena (pequena em idade, já que a sua altura era bem grande), mal conseguia falar. O seu pranto era aterrador de tal forma que o agente lhe disse: «vou mandar vir um copo de água, quer?»
«Sim, obrigada.»
«Acalme-se um pouco. Vou deixá-la por 10 minutos. Volto depois com um gravador para me contar tudo. Concorda?»
»Oh, sim, eu conto tudo.»
Conclusão
Deolinda narra em pormenor tudo o que se tinha passado desde o dia em que o namorado a convencera a levar por diante um rapto, convencendo-a de que daí não viriam problemas para nenhum deles. Seria um crime perfeito. O namorado precisava de dinheiro, para se casarem, segundo lhe dissera. Não contaram que os números de série das notas entregues tinham sido anotados. As chamadas telefónicas tinham sido efetuadas pelo namorado; a arma utilizada não passava de uma pistola de plástico; o automóvel tinha sido alugado, tendo apenas afixado novas matrículas, essas sim falsas. Foram utilizados ímanes para tapar as verdadeiras; o rapto não tinha existido; o namorado estivera de livre vontade em sua casa aqueles dois dias; alugara um cofre no banco, mas a chave estava em poder do namorado. Este, por sua vez, prometera-lhe 5 mil euros para compras pessoais. 
O namorado era o “raptado”, o filho de Fernando Gonçalves, o próprio Augusto.
 
O casamento não se efetuou claro está nem sequer essa ideia fazia parte dos planos de Augusto. O seu pai perdoou-lhe a sua atitude e, graças ao advogado da família Gonçalves, tanto o Augusto como a namorada foram condenados a pena suspensa.

Sem comentários:

Enviar um comentário