domingo, 27 de abril de 2014

Um Americano em Sintra


            A Vila de Sintra seduziu o turista americano. Ele e sua mulher, numa das suas visitas a Portugal, não puderam deixar de visitar a majestosa vila e por ela se enamorarem. Fascinados pela sua beleza, pela tranquilidade ali encontrada, pela sua vegetação, pelos palácios que a circundam e suas casas térreas harmoniosamente distribuídas pela vila, elegeram-na como sua segunda terra. Restava comprar uma pequena vivenda onde pudessem meter os seus tarecos e fazer dela a sua habitação.
 
            Não foi difícil, havia-as de sobra. Compraram uma velha casa numa aldeia das redondezas e de imediato meteram mãos à obra e toca de fazer obras de restauro. Em contacto com a população, contrataram um pedreiro e carpinteiro que vivia perto, exímio em arranjar desculpas para as frequentes faltas ao trabalho. O eletricista da zona, um biscateiro, lá ia fazendo o trabalho de eletricidade por tentativas e erros constantes.
 
            Sinalizou a compra em dinheiro, com a importância pedida pelo proprietário e sem que este lhe passasse uma quitação. Por sorte era uma pessoa séria.
 
            As desavenças com o pessoal das obras, as arrelias com o eletricista, as burocracias na Câmara de Sintra e as queixas apresentadas na G.N.R., por furtos das ferramentas de trabalho, deram azo a um livro. 
        
            Uma das prendas natalícias recebidas de um dos meus sobrinhos foi aquele livro. Bem escrito é verdade, mas carregado de censura e mesquinhez. A comparação daqueles trabalhadores por ele arranjados, pessoas humildes e sem arcaboiço para as obras exigidas, foi sinónimo do trabalho dos portugueses. Porque não contratou uma empresa de construção habilitada? Para poupar dinheiro? As burocracias a que o obrigou pelas obras da casa com mais de 200 anos, que comenta no livro, são de tal forma exageradas que nada me admiraria que a incompetência tenha partido dele e não de um funcionário camarário. Seria que apresentou de uma só vez todos os requisitos necessários à transformação de uma casa numa zona protegida? A queixa apresentada à G.N.R. pela falta de um martelo ou de uma chave de parafusos seria assim tão grave que obrigasse a Guarda a uma deslocação imediata ao local e averiguações urgentes? Além de tudo o americano sabia quem tinha sido o autor do furto, que de imediato o informou que se tinha apropriado das ferramentas para um trabalho caseiro.
 
            Gostaria de perguntar a este senhor americano se na América não há biscateiros e trabalhadores incompetentes. Se na América as obras se fazem sem autorização camarária. Se a polícia larga tudo para acorrer ao local de onde acaba de ser roubada uma carteira. Gostaria esse senhor americano que eu, vivendo no seu país, escrevesse um livro maldizendo dos senhores americanos? Desdenhasse do pessoal forense ou camarário?
 
            O nome do livro ou o seu autor não será por mim divulgado, por que a publicidade negativa também desperta a curiosidade, dando motivo para a sua procura e, consequentemente a sua venda.
 
 
            Senhor americano, não trabalho na Câmara nem tão pouco sou da G.N.R., por que se o fosse, compraria todos os exemplares do seu livro e enfiava-os pela sua garganta abaixo, para não dizer por outro lado acima.

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