A Vila de Sintra seduziu o
turista americano. Ele e sua mulher, numa das suas visitas a Portugal, não
puderam deixar de visitar a majestosa vila e por ela se enamorarem. Fascinados
pela sua beleza, pela tranquilidade ali encontrada, pela sua vegetação, pelos palácios
que a circundam e suas casas térreas harmoniosamente distribuídas pela vila,
elegeram-na como sua segunda terra. Restava comprar uma pequena vivenda onde
pudessem meter os seus tarecos e fazer dela a sua habitação.
Não foi difícil, havia-as de sobra. Compraram uma velha
casa numa aldeia das redondezas e de imediato meteram mãos à obra e toca de
fazer obras de restauro. Em contacto com a população, contrataram um pedreiro e
carpinteiro que vivia perto, exímio em arranjar desculpas para as frequentes
faltas ao trabalho. O eletricista da zona, um biscateiro, lá ia fazendo o
trabalho de eletricidade por tentativas e erros constantes.
Sinalizou a compra em dinheiro, com a importância pedida
pelo proprietário e sem que este lhe passasse uma quitação. Por sorte era uma
pessoa séria.
As desavenças com o pessoal das obras, as arrelias com o
eletricista, as burocracias na Câmara de Sintra e as queixas apresentadas na
G.N.R., por furtos das ferramentas de trabalho, deram azo a um livro.
Uma das prendas natalícias recebidas de um dos meus sobrinhos
foi aquele livro. Bem escrito é verdade, mas carregado de censura e mesquinhez.
A comparação daqueles trabalhadores por ele arranjados, pessoas humildes e sem
arcaboiço para as obras exigidas, foi sinónimo do trabalho dos portugueses.
Porque não contratou uma empresa de construção habilitada? Para poupar
dinheiro? As burocracias a que o obrigou pelas obras da casa com mais de 200 anos,
que comenta no livro, são de tal forma exageradas que nada me admiraria que a
incompetência tenha partido dele e não de um funcionário camarário. Seria que
apresentou de uma só vez todos os requisitos necessários à transformação de uma
casa numa zona protegida? A queixa apresentada à G.N.R. pela falta de um
martelo ou de uma chave de parafusos seria assim tão grave que obrigasse a
Guarda a uma deslocação imediata ao local e averiguações urgentes? Além de tudo
o americano sabia quem tinha sido o autor do furto, que de imediato o informou
que se tinha apropriado das ferramentas para um trabalho caseiro.
Gostaria de perguntar a este senhor americano se na
América não há biscateiros e trabalhadores incompetentes. Se na América as
obras se fazem sem autorização camarária. Se a polícia larga tudo para acorrer
ao local de onde acaba de ser roubada uma carteira. Gostaria esse senhor
americano que eu, vivendo no seu país, escrevesse um livro maldizendo dos
senhores americanos? Desdenhasse do pessoal forense ou camarário?
O nome do livro ou o seu autor não será por mim
divulgado, por que a publicidade negativa também desperta a curiosidade, dando
motivo para a sua procura e, consequentemente a sua venda.
Senhor americano, não trabalho na Câmara nem tão pouco
sou da G.N.R., por que se o fosse, compraria todos os exemplares do seu livro e
enfiava-os pela sua garganta abaixo, para não dizer por outro lado acima.
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