segunda-feira, 13 de abril de 2020

DIÁLOGO NO ELEVADOR


Ele: - «Faça o favor…»

Ela: - «Obrigada.»

Ele: - «Que andar?»

Ela: - «4.º»

Ele: - «Eu também, é familiar do sr. Leonel?»

Ela: - «Não, o sr. Leonel foi quem me vendeu o apartamento.»

Ele: - «Mas…»

Ela: - «Que se passa?

Ele: - «Elevadores velhos, volta e meia, zás, uma paragem.»

Ela: - «E agora?»

Ele: - «Não se preocupe, carregamos no alarme e o administrador resolve o problema.»

Ela: - «É habitual?»

Ele: - «Sim, volta e meia… vá lá que ao menos desta vez ficámos com luz.»

Ela: - «Mas… ninguém aparece?

Ele: - «Provavelmente não está em casa. Vou telefonar-lhe. Espero que tenha rede aqui dentro.»

Ela: - «Não há mais ninguém que nos ajude?»

Ele: - «Infelizmente não. Neste prédio a maioria são viúvas reformadas.

Senhor Fonseca? Ficámos trancados no elevador. O quê? Bonito… ok, ok.

Ela: - «Que aconteceu?»

Ele: - «Está no Porto, volta só amanhã.»

Ela: - «E agora?»

Ele: - «Dormimos aqui.»

Ela: - «Não brinque… ligue para os bombeiros.»

Ele: - «É claustrofóbica?

Ela: - «Felizmente não, mas dormir num elevador…»

Ele: - «Vou ligar para a assistência dos elevadores, espero que não estejam em greve.»

Ela: - «Ó senhor… desculpe, como se chama?»

Ele: - «Sousa. César Sousa.»

Ela: - «Senhor Sousa, por favor, ligue lá para o homem do elevador, são sete horas e ainda vou fazer o jantar.»

Ele: - «Senhor Sousa, sou no escritório, para amigos sou simplesmente César… e que tal se mandássemos vir uma piza?»

Ela: - «Senhor César…»

Ele: - «César, sem senhor.

Boa Noite, sou o condómino do 4.º direito. Estamos trancados no elevador... não, está no Porto… ok, que remédio, até já.»

Ela: - «Que foi agora, César?»

Ele: - «Está no Cacém. Logo que se despache, vem, mas com o trânsito a esta hora na IC 19…»

Ela: - «Logo hoje…»

Ele: - «Logo hoje porquê? Tinha onde ir?»

Ela: - «Não, mas estou cheia de fome.»

Ele: - «Quer uma piza?»

Ela: - «Não gosto, nas com a fome que tenho… não almocei e comia-a de boa vontade.»

Ele: - «Isabel… há quanto tempo vive aqui? Nunca a vi antes, embora seja minha vizinha.»

Ela: - «Há 15 dias.»

Ele: - «Ah, bem me parecia. A Isabel o que faz?»

Ela: - «Sou decoradora, trabalho numa empresa de móveis.»

Ele: - «Curioso...»

Ela: - «Curioso por quê?»

Ele: - «A minha ex., também o era.».

Ela: - «É divorciado?»

Ele: - «Não, sou solteiro, a minha ex. namorada.»

Ela: - «Zangaram-se?»

Ele: - «Quer dizer… acabámos, feitios iguais, sagitarianos… nunca se deram.»

Ela: - «Qualquer dia fazem as pazes.»

Ele: - «Dificilmente. Fomos 6 meses felizes. Tentámos mais um tempo, mas acabámos por nos convencer que o fim era o melhor.»

Ela: - «Segue-se pelos signos?»

Ele: - «Oh, não. Não ligo a isso, é um antilogismo que não merece ser levado a sério.»

Ela: - «Tenho um primo afastado, sagitário, uma joia de rapaz, mas com um feitiozinho…»

Ele: - «Todos temos “um feitiozinho”. E a Isabel, de que signo é?»

Ela: - «Afinal… sempre liga os signos.»

Ele: - «Pura curiosidade.»

Ela: - «Ouviu?»

Ele: - «O quê?»

Ela: - «Pareceu-me ouvir tocar uma campainha … que horas são?»

Ele: - «8 e 45.»

Ela: - «Há quase 2 horas que aqui estamos.»

Ele: - «O tempo passou depressa. Estava tão bem acompanhado…»

Ela: - «Diz isso porque não deve ter fome.»

Ele: - «Por acaso tenho…»

Voz: - «Já vos tiro daí.»

Ela: - «Repare… já estamos a descer. Finalmente.»


Ele: - «Libertados... Isabel, por certo não vai fazer jantar a esta hora… permita-me que a convide para me acompanhar no jantar.»

Ela: - «Dada a hora, aceito, mas com a condição de pagarmos a meias.»

Ele: - «Ok…»

Ela: - «Se não se importa dê-me 5 minutos. Tenho de ir a casa num instante.»

Ele: - «Tudo bem, aproveito vou também a casa, mas vou a pé.»

Ela: - «Sim, sim, não arrisco. Vou também pelas escadas. Bato-lhe à porta quando estiver pronta.»



Ela: - «Desculpe a demora, não resisti a um duche.»

Ele: - «Mas, mas, onde vamos jantar?»

Ela: - «Aqui perto, estamos rodeados de bons restaurantes.»

Ele: - «Mas… mas… que bem Isabel. Com esse vestido, parece uma estrela de cinema.»

Ela: - «Que exagero, César.»



Ele: - «`Peixe ou carne?»

Ela: - «Escolha o César, com a fome que estou… tudo o que vier eu como.»

Ele: - «Aqui, servem um bife com pimenta que é uma delícia.»

Ela: - «Costuma cá vir?»

Ele: - «Às vezes, sim. Gosta de bife?»

Ela: - «Sim, mas muito mal passado.»

Ele: - «Eu também, de outra forma não o como.»

Ela: - «Oh, César, porque me olha assim?

Ele: - «Desculpe, Isabel. Estava tão absorto… pensei estar no céu com um anjo a olhar-me… permita-me que lhe diga, a Isabel é muito bonita, deve ter namorado e eu aqui a olhá-la… por favor não me leve a mal.»

Ela: - «Obrigado, César, pelo galanteio, mas considero-me uma mulher normal, além disso, se tivesse namorado, não estava aqui sentada consigo, a jantar, mas, mal o conheço.»

Ele: - «Perdoe-me, mas…»

Ela: - «César, por favor… não me interprete mal. Gostei do seu galanteio, foi simpático, mas fale-me de si…»

Ele: - «Lá vai: nasci há 32 anos, licenciei-me em gestão, sou romântico, meigo, tenho uma pequena empresa de publicidade e quando tiver um cliente de um produto de higiene oral, convido-a para meu modelo e…

Ela: - «Hahaha…»

Ele: - … hoje conheci uma mulher maravilhosa.»

Ela: - «Oh, César… não me envaideça. Tontinho.»



Ele: - «Obrigado pela sua companhia, nunca tão bem me soube um jantar.»

Ela: - «Fico-lhe em débito um jantar, quando não tiver companhia, telefone-me, prometo-lhe um jantar à luz de velas… em minha casa… ah… o jantar será confecionado por mim… uma SAGITARIANA.

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